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Dezenas dos detidos por tentativa de golpe nos EUA estavam na lista antiterrorista do FBI

Crescem alertas no âmbito nacional sobre ameaças de mais ataques armados e até uma “guerra racial” após a consolidação do triunfo do democrata Joe Biden
David Brooks
La Jornada
Washington

Tradução:

Faltando cinco dias para a consolidação da derrota eleitoral de Donald Trump e dos republicanos em ambas as câmaras do Congresso e na Casa Branca, foi anunciado que há mais de 100 detidos e 200 sob investigação federal pela intentona golpista da semana passada. 

O FBI elevou seu alerta nacional diante de possíveis protestos e ataques armados de agrupamentos direitistas em todos os estados e na capital.

Depois do histórico segundo impeachment — a aprovação de acusações formais para o julgamento político do presidente — que foi realizado na quarta-feira (13) na câmara baixa, o caso agora vai ao Senado, que terá uma sessão como tribunal e os senadores como jurados para determinar a destituição do mandatário. 

Tudo indica que isto não será iniciado antes que Trump conclua seu mandato em 20 de janeiro ao meio-dia.

Supremacistas e terroristas 

A investigação criminal federal dos participantes da “insurreição” que foi incitada, segundo a acusação formal, pelo presidente, já levou a 100 prisões e à identificação de mais de 200 suspeitos, como informou o diretor do FBI Christopher Wray, que advertiu: “sabemos quem você é… e agentes do FBI estão a caminho para encontrá-lo”.

O FBI continuou informando departamentos de polícia ao redor do país para manter um “alto alerta” diante da violência de extremistas em suas comunidades durante a próxima semana, incluindo atividades de “milícias” armadas e outros que desejam provocar una “guerra racial”. Indicou que temem a possibilidade do uso de armas e explosivos.

Dezenas de participantes nos distúrbios no Capitólio estavam na lista anti terrorista do FBI, revelou o Washington Post. Grande parte deles são supremacistas brancos com histórias tão perigosas que foram incluídos nessa lista oficial daqueles considerados como risco à segurança. Mas a presença de tantos em um só lugar, assinala o jornal, oferece outro exemplo dos fracassos de inteligência que se revelaram no assalto ao Capitólio.

Os legisladores agora trabalham em um complexo legislativo ocupado por Guardas Nacionais — algo não visto desde a Guerra Civil. Alguns dos dez deputados republicanos que votaram a favor da acusação têm sido criticados por seus colegas e estão preocupados por sua segurança pessoal. “Nossa expectativa é que alguém poderia tentar nos matar”, declarou o deputado republicano Peer Miejer na MSNBC. Agregou que alguns estão tomando medidas para proteger suas famílias e eles mesmos, como contratar escoltas armadas, diante de ameaças devido ao seu pronunciamento.

Crescem alertas no âmbito nacional sobre ameaças de mais ataques armados e até uma “guerra racial” após a consolidação do triunfo do democrata Joe Biden

U.S. Department of Homeland Security (DHS)
O funcionário sênior executando as funções do secretário adjunto de Segurança Interna, Ken Cuccinelli, visita o Capitólio dos EUA para exami

Delta Air Lines anunciou que não aceitará armas de fogo na bagagem em voos com destino a Washington desde agora e toda a semana próxima, durante as datas da transição presidencial.  

Economia e pandemia

Por sua parte, o presidente eleito Biden está buscado focar atenção sobre as duas crises imediatas que enfrentará seu novo governo: a pandemia e a economia. 

Nesta quinta (14), Biden apresentou um ambicioso plano de um total de 1,9 trilhões de dólares, que incluem 400 bilhões para acelerar a resposta à Covid, incluindo a campanha massiva de vacinação, testes e outros programas médicos, e outros como assistência e estímulos diante do severo dano econômico provocado pelo inepto manejo da pandemia. 

A proposta que será apresentada de imediato ao Congresso inclui pagamento mensal direto de 1.400 dólares a estadunidenses em famílias trabalhadoras, incrementar o seguro-desemprego e elevar o salário-mínimo federal de 7,25 para 15 dólares por hora. Também busca outorgar bilhões de dólares em apoio a negócios e comunidades e para governos estaduais, locais e tribais. 

Os problemas enfrentados no arranque do processo massivo de vacinação resultam da negativa de funcionários de Trump de consultar a equipe de Biden durante as últimas semanas, assinalaram especialistas. Isso quando o nível de mortes diárias continua entre 3 a 4 mil e o país está para registrar um total de 400 mil mortos (mais que em qualquer guerra, com exceção da Guerra Civil).

Solitário Trump

Persistiu um silêncio ominoso na Casa Branca, com funcionários anônimos contando a alguns meios que o presidente passa seus últimos dias quase sozinho na parte residencial da Casa Branca.

Revelou-se que já está brigando com vários de seus últimos aliados e cúmplices, entre eles Rudy Giuliani, ao qual não quer pagar os 20 mil dólares diários com que supostamente concordaram, reportaram meios. “Se dormes com cachorros te despertas com pulgas e são 20 mil por dia”, disse a The Guardian Ken Frydman, que foi chefe de imprensa de Giuliani nos anos 1990.

Mas isso não impede que seu governo tome medidas de último momento, entre elas, agregar Cuba na lista de países “patrocinadores do terrorismo”, buscar culpar o Irã de ter vínculos com Al-Qaeda sem nenhuma evidência, e avançar com a execução de prisioneiros na fila da morte do governo federal, depois de uma moratória de 17 anos. Dos 13 réus que programou assassinar desde julho — entre esses a primeira mulher executada em 70 anos — só sobram dois, cujas mortes estão programadas para esta noite e na sexta-feira, apesar de ambos estarem contagiados pela Covid-19.

Festejo pós-Trump

Enquanto isso, o presidente que entra e sua equipe já estão preparando seus festejos de inauguração, apesar dos limites impostos não só pelas medidas de saúde pela pandemia, mas também pelas ameaças dos leais de quem logo será seu antecessor. 

Lady Gaga cantará o hino nacional na posse de Biden e da vice-presidenta Kamala Harris, revelou a Variety. Jennifer López também participará no evento, junto com a primeira Poeta Nacional Juvenil Amanda Gorman, entre outros.

Como parte dos festejos, também será transmitido de maneira digital um recital no próximo domingo do qual participarão Carole King, James Taylor, Ben Harper e AJR entre outros. 

Entre outros atos inaugurais de 20 de janeiro, está programado um “desfile virtual” e um programa especial de televisão conduzido pelo ator Tom Hanks.

Mas embora muitos outros festejarão o fim de Trump, diversos setores progressistas já estão mobilizando suas forças para pressionar o novo governo a cumprir com sua retórica de atender temas urgentes, desde desemprego, acesso a serviços de saúde, alimentação, e mudanças imediatas na política migratória e abordar a violência racista sistêmica que agora ameaça a estabilidade do país.

Todos, sem exceção, expressam que a chegada de Biden na Casa Branca não resolve os graves problemas expostos pela crise política, econômica e de saúde sem precedentes que o país enfrenta. Portanto, o objetivo agora é obrigar o novo governo a ir além, não só “voltar à normalidade” pré-Trump, como afirmam analistas em uma infinidade de fóruns de informação, organizações e meios de comunicação. Biden terá que enfrentar as causas profundas e de longa história que levaram a Trump e à crise que isso provocou.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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David Brooks Correspondente do La Jornada nos EUA desde 1992, é autor de vários trabalhos acadêmicos e em 1988 fundou o Programa Diálogos México-EUA, que promoveu um intercâmbio bilateral entre setores sociais nacionais desses países sobre integração econômica. Foi também pesquisador sênior e membro fundador do Centro Latino-americano de Estudos Estratégicos (CLEE), na Cidade do México.

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