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Foto: Xinhua

“Diplomacia itinerante”: China encabeça novo esforço por acordo entre Rússia e Ucrânia

Embaixador especial para os assuntos da Eurásia, Li Hui, visitou ao menos seis capitais, incluindo Kiev e Moscou, em busca de um pacto de paz
Juan Pablo Duch
La Jornada
Moscou

Tradução:

Beatriz Cannabrava

A China iniciou uma segunda rodada do que chama de “diplomacia itinerante”.

No início deste mês, o embaixador especial para os assuntos da Eurásia, Li Hui, encarregado de promover a iniciativa chinesa de doze pontos para deter a guerra na Ucrânia, empreendeu uma viagem por Kiev, Moscou e Bruxelas, bem como outras capitais como Berlim, Paris ou Varsóvia que podem influenciar o conflito.

Até o momento, Li não conseguiu que nenhuma das partes apoie o plano da China, porque – por um lado – defende a integridade territorial da Ucrânia, – e por outro – não condenou a operação russa. Pequim defende uma posição de equidistância em relação a Moscou e Kiev, que Washington e Bruxelas não reconhecem, afirmam, por não distinguir entre agressor e agredido.

Mediação da Turquia

Apenas alguns dias atrás, durante a visita do presidente ucraniano, Volodymir Zelensky, a Istambul, seu homólogo turco, Recep Tayyip Erdogan, ofereceu-lhe convocar uma conferência internacional para debater a paz com a Rússia, iniciativa que o convidado rejeitou pelas mesmas razões de sempre.

Há semanas, comenta-se que Erdogan busca exercer o papel de mediador para alcançar um novo acordo que permita a navegação segura de embarcações de carga pelo Mar Negro, facilitando todo tipo de comércio.

Trata-se de uma iniciativa que viria a substituir o chamado pacto dos cereais, que possibilitou a exportação de 33 milhões de toneladas de grãos ucranianos, cancelado unilateralmente pela Rússia em julho de 2023, argumentando que seus interesses não foram respeitados.

A Ucrânia – após destruir com drones navais e mísseis 21 navios de guerra russos dos 70 que compunham a Frota do Mar Negro (a Rússia não pode substituir os navios afundados, pois a Turquia, baseada na Convenção de Montreux de 1936, fechou o Estreito de Dardanelos) e conseguiu afastar sua base da Crimeia – não precisa de um novo pacto dos cereais, pois conseguiu restabelecer o nível de exportações que tinha antes da guerra a partir de seus portos nesse mar, navegando por suas águas territoriais.

Em resumo, enquanto continuam se matando, não é a primeira vez nem será a última que, ao rejeitar uma iniciativa de paz, russos e ucranianos acusam o outro de não querer negociar, sem mencionar que suas condições implícitas, mas amplamente conhecidas, são inaceitáveis para o adversário, o que não contribui para criar as condições necessárias para um acordo político.

Obstáculos

Recentemente, à luz das tentativas de mediação do Vaticano e da Turquia, com propostas separadas à Rússia e à Ucrânia para iniciar conversações de paz que ponham fim ao derramamento de sangue, assim como para revigorar a iniciativa da China, ficou claro que, do ponto de vista dos países envolvidos, as condições para buscar uma solução negociada para este conflito armado não estão dadas.

Porque ambos – basta ouvir as declarações de seus mais altos funcionários – ainda estão convencidos de que, mais cedo ou mais tarde, podem derrotar o outro nos campos de batalha. Moscou diz não estar disposta a ceder nem um centímetro das regiões ucranianas conquistadas; e Kiev rejeita qualquer negociação enquanto as tropas russas permanecerem em seu território.

Com estas premissas de partida, é impossível alcançar um acordo político, que só pode acontecer – como nos ensinam os cronistas das guerras ao longo da história – quando uma das partes beligerantes não pode mais e joga a toalha ou, sem chegar a esse extremo, quando ambos abandonam a arrogância e estão dispostos a ceder em algo, sem pretender impor um ultimato – capitulação incondicional, exigem os russos; retirada completa das tropas, exigem os ucranianos – como está acontecendo agora.

Atualmente, concordam a maioria dos especialistas militares, nenhum está perdendo, mas também não estão ganhando, já que em toda guerra de desgaste e posições praticamente imutáveis ao longo dos 1200 quilômetros de frente, russos e ucranianos ainda terão numerosos avanços e também retrocessos que, no entanto, não vão inclinar a balança definitivamente para o seu lado.

O chefe da igreja católica reza para evitar mais mortes e devastação e o chefe da igreja ortodoxa russa, Kiril, abençoa as armas usadas na Ucrânia contra a encarnação de Satanás na terra, que é, em sua opinião, o “regime neonazista” instaurado no país vizinho eslavo

Ministério de Defesa da Rússia confirma ataque ao porto de Odessa

As forças armadas da Rússia atacaram no último dia 6 o porto ucraniano de Odessa, com uma incursão de projéteis que deixou um balanço preliminar de cinco mortes e um número impreciso de feridos. Este ataque ocorreu enquanto o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, estava mostrando ao primeiro-ministro da Grécia, Kyriakos Mitsotakis, a infraestrutura danificada por bombardeios anteriores russos, como a principal porta de saída marítima dos cereais ucranianos.

O anfitrião e seu hóspede informaram em entrevista coletiva, de acordo com a agência de notícias UNIAN e outros meios de imprensa ucranianos que cobriam a visita do premiê grego, que um míssil russo caiu a poucos metros do local por onde estavam passando os veículos de suas respectivas comitivas. Os governantes e seus acompanhantes saíram ilesos.

“Fomos testemunhas do ataque. Podem ver quem nós enfrentamos – disse Zelensky a Mitsotakis –, para eles [os russos], não importa a quem golpear, militares, civis, ou dignitários estrangeiros… O (Kremlin) perdeu a cabeça ou não tem nenhum controle sobre seu exército terrorista… Ainda desconheço os detalhes, mas me informaram que houve vítimas, mortos e feridos”, assim começou o encontro com os repórteres.

Mitsotakis contou como viveu o momento do ataque: “Escutamos o som das sirenes e explosões que ocorreram muito perto de nós. Não tivemos tempo de ir a um abrigo. Foi uma experiência impressionante”. E ratificou sua intenção de reforçar a cooperação entre Grécia e Ucrânia, em participar no que significa aumentar o tráfego de cargueiros pelo corredor que os ucranianos conseguiram abrir no mar Negro ao recuperar, no outono passado, o controle de parte de suas águas territoriais.

O ministério de Defesa russo confirmou o ataque com mísseis contra “um hangar na zona portuária comercial de Odessa onde estava preparando veículos de superfície não tripulados para seu uso em combate por parte do exército ucraniano”.

Bombardeio é resposta ao ataque a corveta “Serguei Kotov”

O ataque ocorreu apenas algumas horas após a inteligência militar ucraniana (GUR, por sua sigla em ucraniano) difundir um vídeo que reivindica o momento em que drones marítimos, perto da ponte da Crimeia, impactam a corveta “Serguei Kotov”, um dos navios de guerra mais modernos da armada russa, que acabou afundado, sem que se saiba com exatidão quantos marinheiros de sua tripulação puderam se salvar.

A notícia começou a circular de modo extra oficial na terça-feira (5) nas contas de Telegram que relatam a “operação militar especial” desde posições favoráveis ao Kremlin, e que, de um tempo para cá, destacam sérias divergências com o titular do posto de Defesa, Serguei Shoigu, e outros membros da cúpula militar, aos quais – na opinião dos autores dessas contas – oferecem uma versão que nem sempre corresponde à realidade.

O vídeo do GUR foi acompanhado, nas redes sociais, desta mensagem: “Como resultado do impacto de drones marítimos MAGURA V5 no navio de guerra russo Serguei Kotov, do projeto 22160, sofreu danos irreparáveis. O navio afundado tinha um custo de 65 milhões de dólares”.

A corveta, chamada assim em homenagem ao contra-almirante Serguei Kotov, herói da Rússia, era um dos navios de guerra mais modernos da armada russa e foi incorporada à frota do mar Negro apenas no final de julho de 2022. Desde essa data, havia resistido a três ataques.

O golpe de quarta-feira contra o porto de Odessa foi o segundo recente: há poucos dias, drones russos destruíram um edifício residencial, causando a morte de 12 pessoas, incluindo 5 crianças.

La Jornada, especial para Diálogos do Sul — Direitos reservados.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul.
Juan Pablo Duch Correspondente do La Jornada em Moscou.

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