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Direitos humanos sobressaem no charme do Festival de Cannes

Cinemateca Diálogos do Sul

Tradução:

A.D. Mckenzie*

“Timbuktu” do realizador mauritano Abderrahmane Sissako.

Esqueçam Grace de Mônaco. Alguns dos mais notáveis filmes do Festival de Cannes deste ano tratam de direitos humanos e da luta pela liberdade de expressão, e foram realizados por diretores que tiveram de superar falta de recursos, censura e problemas de infraestrutura para levar às telas as histórias que acreditavam que deviam ser contadas.

Timbuktu, do diretor mauritano Abderrahmane Sissako, foi um dos 18 filmes que compeiram pela cobiçada Palma de Ouro. Seu trabalho surpreendente já está na boca de todos no festival, e não apenas pelo filme em si, mas pelo impacto deixado pela intolerância e pelos estragos que os conflitos causam na população civil. O filme se desenrola em Tombuctu, norte de Mali, durante a ocupação de extremistas religiosos que dominaram a área, entre junho de 2012 e janeiro de 2013.
Nesse período os grupos jihadistas obrigaram as mulheres a mudar sua forma de se vestir, proibiram a música, os cigarros e, inclusive, o futebol. Sissako se inspirou para fazer o filme na história de um jovem casal com dois filhos que os islâmicos apedrejaram até a morte por sua “transgressão” de não estarem casados. Foi um “crime atroz” ao qual a grande mídia “deu as costas”, disse Sissako ao apresentar Timbuktu.
Ele contou que “o vídeo do assassinato, que os responsáveis colocaram na internet, é horroroso. A mulher morre com a primeira pedrada, enquanto o homem deixa escapar um pranto sufocado”. “O que escrevo é insuportável, eu sei. De maneira alguma tento causar forte efeito para promover o filme. Devo prestar depoimento com a esperança de que nunca mais uma criança tenha que saber que seus pais morreram por se amarem”, acrescentou Sissako.
Timbuktu emprega uma linguagem poética para criticar a repressão e as violações de direitos humanos. Ao resgatar a humanidade de todos seus personagens, Sissako mostra mulheres que resistem à tirania com dignidade.
E estas são algumas das razões pelas quais o filme foi muito aplaudido nesse festival, um dos mais famosos do mundo.
O realizador malinês Souleymane Cissé, cujo filme Yeelen (A Luz) conquistou o Prêmio do Júri na edição de 1987 deste festival, viajou a Cannes este ano para apoiar Sissako. “Os cineastas africanos têm mais problemas do que os demais para produzir e distribuir seus filmes em todo o mundo”, ressaltou à IPS. “Além dos conflitos, um dos grandes problemas é conseguir dinheiro”, acrescentou.
“Inclusive para os filmes de baixo orçamento é uma luta conseguir recursos e até agora não houve boa vontade política de ajudar porque na África não se acredita que o cinema seja uma arte e uma indústria”, lamentou Cissé, diretor da União de Criadores e Empresários de Cinema e Audiovisual da África Ocidental (Ucecao).
Mais de 1.700 filmes aspiram participar do festival, mas só uma pequena parte consegue. É uma dura competição, tenham mensagem ou não.
caricaturistes-fantassins-de-la-democratie-2014-5-gOutro filme que denuncia violações de direitos humanos, e em especial da liberdade de imprensa, é Caricaturistes-Fantassins de la Democraties (Caricaturistas, Infantaria da Democracia), um documentário protagonizado por 12 desenhistas de diferentes partes do mundo apresentado na categoria Fora de Competição. Dirigido pela cineasta francesa Stéphanie Valloatto, o filme segue caricaturistas de países tão variados como Burkina Faso, Costa do Marfim, França, Israel, Tunísia e Venezuela, alguns deles inclusive em perigo por usarem o humor para denunciar a injustiça e a hipocrisia.
Também aparece o caso do desenhista sírio Ali Ferzat, que em 2011 foi atacado por homens armados que tentaram destruir suas mãos para impedi-lo de continuar desenhando. Em suas caricaturas criticava o regime de Bashar al Assad. Os médicos conseguiram salvar-lhe os dedos após uma campanha para tirá-lo da Síria promovida pela Caricaturistas pela Paz, uma associação sem fins lucrativos fundada em 2006 pelo famoso desenhista francês Plantu e pelo ex-secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Kofi Annan.
A associação, que colabora com cineastas, pretende promover o diálogo, a liberdade de expressão e reconhecer o trabalho jornalístico desses desenhistas. Valloatto disse à imprensa que o produtor Radu Mihaileanu admira há tempos seu trabalho em defesa dos direitos humanos e a campanha de Plantu pela tolerância. “Depois que conheci Plantu e o trabalho da Caricaturistas pela Paz também fiquei impressionada com o que fazem”, afirmou a cineasta.
Valloatto descreve seus 12 personagens da vida real como “12 adoráveis lunáticos, que captam o cômico e o trágico em cada parte do mundo”. O filme descreve os caricaturistas dizendo que “arriscam suas vidas em defesa da democracia com um sorriso no rosto e um lápis como única arma”. Segundo ela, “o filme tem senso de humor e uma mensagem séria. Esperamos que seja visto por muita gente porque pode ser uma inspiração para que todos lutemos pela tolerância e pelos direitos humanos onde quer que trabalhemos”.
E o irônico desse caso é que um livro que deveria ser publicado junto com a apresentação do filme foi rejeitado por uma editora francesa porque uma das caricaturas poderia resultar ofensiva para a Igreja Católica. Mas outra empresa, a Actes Sud, se mostrou interessada e o livro estará à venda no dia 28.
Outro filme dos que se destacaram por seu humanismo e preocupação com os temas globais é o atrevido e profundo Winter Sleep (Sonho de Inverno), do diretor turco Nuri Bilge Ceylan, também aspirante à Palma de Ouro. O filme explora as relações humanas junto com temas da desigualdade, a aparentemente impossível de ser reduzida distância entre ricos e pobres e o papel da religião na vida das pessoas.
Este filme, de três horas e 16 minutos de duração, que se desenrola na Anatólia central, cativa o público com imagens assombrosas, um humor sutil e diálogos apaixonantes. No final, os espectadores ficam pensando em como fazer para conseguir um mundo melhor, proteger o direito de todos e, talvez, até conseguir a redenção pessoal. Winter Sleep foi ovacionado pelo público em pé em Cannes, ao contrário de Grace de Mônaco, um desacertado relato da vida da atriz Grace Kelly como princesa, que abriu o festival.
*IPS de Cannes, França, para Diálogos do Sul


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
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