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As histórias não contadas e os riscos que correm os refugiados LGBTI na Europa

Chegar à Europa e ficar preso num centro de detenção, recomeçar a vida num país estrangeiro, em risco de se ser discriminado e sexualmente explorado

As eleições europeias são uma boa oportunidade para fazer uma análise sobre o que foi feito e refletir sobre o que ainda falta fazer. Sabemos que a União Europeia não conseguiu dar resposta a desafios urgentes, sabemos que não soube lidar com a mudança e não soube reinventar-se quando foi necessário.

Do aglomerado de histórias, notícias e situações que retratam as falhas da UE, da economia às políticas sociais, há uma realidade trágica que tem sido várias vezes ignorada e invisibilizada.

Fugir do seu país por ser perseguido por quem se é e por quem se ama.



Chegar à Europa e ficar preso num centro de detenção, recomeçar a vida num país estrangeiro, em risco de se ser agredido, discriminado e sexualmente explorado. Esta é a história não contada dos refugiados LGBTI e estes são apenas alguns dos riscos que correm.

Em um cenário em que o avanço da extrema-direita se alastra pela Europa, que o discurso nacionalista, racista, homofóbico e xenófobo é normalizado, em um cenário em que os direitos LGBTI estão em risco, a Europa fecha os olhos, e as portas, a estas pessoas.

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No contexto em que os direitos LGBTI estão em risco, a Europa fecha os olhos, e as portas, a estas pessoas.

Dos EUA de Trump, ao Brasil de Bolsonaro, à Turquia de Erdogan, o discurso de ódio cresce, e a comunidade LGBTI é um dos alvos. Muitos dos refugiados LGBTI, que chegam à Europa, escolhem não revelar a sua orientação sexual porque geralmente, quem o faz, sujeita-se a assédio, discriminação e violência.

Os que optam por revelar têm de apresentar provas e testemunhas, colocando em risco não só a sua própria vida, mas como as vidas dos seus parceiros, da sua família ou até de outros que procuram asilo.

Peguemos num caso recente: Mehdi Shokr Khoda, um adolescente de 19 anos. Homossexual, cristão e refugiado iraniano que procura asilo político na Suécia. A Suécia assegura asilo a pessoas LGBTI que tentam escapar de regimes homofóbicos, mas não no caso de Mehdi. Porquê? Porque acham que o mesmo mente.

Se Mehdi for deportado de volta para o Irã, corre o risco de ser condenado à morte. E qual o motivo pelo qual a Suécia pode não conceder asilo a este adolescente que corre o risco de ser executado se regressar ao seu país de origem? Ele não explicou bem a sua história de coming out.

Este, infelizmente, é apenas um dos muitos exemplos de refugiados LGBTI que são silenciados por uma Europa de muros.

As pessoas trans enfrentam riscos ainda maiores. Desde serem colocadas em centros de detenção com base no seu sexo à nascença, à impossibilidade de obterem a medicação necessária para continuar a sua transição e aos danos físicos e psicológicos causados pela falta de apoio e de proteção.

Recorde-se que as pessoas LGBTI ainda são perseguidas criminalmente em cerca de 70 países. Nalguns a pena prevista é a morte. São países onde a homofobia, a perseguição, a opressão e violência sobre estas pessoas fazem parte do quotidiano. Mesmo assim a União Europeia diz não.

Grande parte destes abusos sofridos pelas pessoas LGBTI acabam por não ser denunciados pelo receio de verem a sua candidatura rejeitada. Muitos acabam por desistir, levando a situações de sem abrigo, sem apoios financeiros, entrando num ciclo de pobreza e exclusão social e, muitas vezes, levando à exploração sexual.

A União Europeia falhou e continua a falhar. Falha quando deixa morrer no Mediterrâneo aqueles que apenas procuram segurança para si e para a sua família, falha quando os interesses económicos falam mais alto que a vida das pessoas, e falha quando olha para o lado e encolhe os ombros em situações tão graves como a de Mehdi.

Mas o Bloco não falhou. O Bloco de Esquerda nunca virou as costas à luta da comunidade LGBTI e não podemos virar as costas agora a estas pessoas.

Estas histórias não podem cair na indiferença. Que ninguém se engane. A luta contra a extrema-direita passa também pela afirmação dos direitos LGBTI.

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