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Dossiê Petrobrás: O petróleo ainda é nosso III

Revista Diálogos do Sul

Tradução:

Dossiê-Petrobras-INeste terceiro artigo que finaliza a série do dossier Petrobrás se verá como os meios de comunicação trataram de boicotar a Petrobrás desde seu surgimento. Deve haver um motivo para essa atitude servil aos interesses contrários ao desenvolvimento nacional. Complexo de grandeza ou excesso de servilismo eles perguntam: “Por que vamos adotar um sistema xenófobo de países inferiores?”

Amaro Augusto Dornelles*

Permanente boicote da imprensa

petrobrasDepois de tramitar 22 meses no Congressos Nacional, a 3 de outubro de 1953, contrariando poderosos interesses internacionais, finalmente foi criada a Petróleo Brasileiro S. A. Como era de costume, a “Última Hora” (diário extinto pela ditadura em 1964) foi o único jornal a dar destaque positivo ao fato em primeira página. Os demais veículos de imprensa deram a notícia em espaços reduzidos em páginas internas. Ao contrário de editoriais e comentários assinados, todos contra a Petrobrás – sempre ácidos e irônicos – que ganhavam destaque nas edições. Em seu “Diário da Noite”, por exemplo, Assis Chateaubriand rotulou a abertura daquela que se tornaria a maior empresa brasileira de todos os tempos como “Capricho caro”, reprovando a opção brasileira pelo monopólio estatal do petróleo.

No artigo, Chatô lembrava que os governos de Estados Unidos e Canadá jamais haviam cedido à tentação de nacionalizar a pesquisa ou a indústria de petróleo. “Se essa lição parte das duas nações melhor administradas da terra”, raciocinava ele, “por que vamos adotar aqui um sistema peculiar a xenófobos de países inferiores?”

Os Diários Associados deram espaço para o deputado Plínio Pompeu (UDN) ‘cometer’ uma análise primorosa: ”A Petrobrás é um convite para que se retire do Brasil quem colabora conosco”, sustentava ele, dizendo que a culpa era do governo Vargas, covarde e incapaz de resistir à onda comunista. Indignação, previu que a experiência – de um “nacionalismo tacanho” – fracassaria em um ano, no máximo.

Ética jornalística

“Podemos tirar, se for melhor”

O anglo-teutônico Paul Julius Reuter e seus telégrafos – com os quais criou a Reuters no século XIX – arrebentaria todos os ossos de tanto bater na lápide se imaginasse ver um dia sua notável agência de notícias – a maior do mundo– curvar-se tão gentilmente diante dos ‘exigentes padrões éticos’ do jornalismo made in Brazil. Na terça 24/3/15, o site da Reuters publicou entrevista do ex presidente Cardoso culpando o ex presidente Lula da Silva pelos casos de corrupção na Petrobrás. Carne de vaca para a imprensa tupinambá. Mas no sexto parágrafo, a matéria de Brian Winter citava informações de Pedro Barusco: o desvio de dinheiro teria começado no governo de Cardoso.

A ave tucana se caracteriza pelo grande bico e a curta asa, o que torna impossível voos mais longos. Além disso é predadora, devora os filhotes nascidos em outros ninhos. Pois bem, junto com a informação – por distração, seguramente- havia uma observação do editor: “Podemos tirar, se achar melhor”. Quando a Reuters percebeu a patuscada, correu para fazer a reedição, mas aí já era tarde.

A mídia hegemônica ignorou o assunto. Mas fica a constatação: a imprensa e as grandes agencias estão cumprindo exemplarmente o papel de lutar pelos interesses do “big money”, das grandes corporações, abandonando a ética em favor do lucro.

Inimigo na trincheira

EUA bancou criação e manteve Cebrap

O Centro Brasileiro de Análise e Planejamento foi fundado em 1969 por um grupo de intelectuais da Universidade de São Paulo (USP) por iniciativa do sociólogo Fernando Henrique Cardoso, com dinheiro a fundo perdido fornecido pelo aparato de inteligência dos Estados Unidos através da Fundação Ford. O engenheiro Siqueira lembra que o Cebrap promoveu a união do governo estadunidense com empresas nacionais para explorar riquezas no Brasil. Uma ‘corporatocracia’** na definição de John Perkins, autor do livro “Confissões de um Assassino econômico”.

A instituição notabilizou-se por estudos sobre a realidade do país, com uma postura crítica ao regime militar, trilhando uma linha ideológica aparentemente de esquerda. De baixo desse guarda-chuva, Fernando Henrique Cardoso torpedeou os militares nacionalistas que contrariavam os interesses dos EUA. Com o passar do tempo, ao se dar conta do barco em que haviam se metido, figuras de peso mais identificadas com as lutas populares foram abandonando a nau.

Sexo & assassinatos

**Confession of an Economic Hit Man (Editora Cultrix) é a autobiografia escrita por John Perkins publicada em 2004. Conta a história de sua carreira como consultor na empresa Chas. T. Main, cargo para o qual fora recrutado por um agente da Agência de Segurança Nacional estadunidense, NSA. (Como se vê, Edward Snowden, do Wikileaks, não foi o primeiro a se revoltar contra as práticas do serviço de inteligência). O trabalho de Perkins era o de assassino econômico – profissional altamente remunerado, cuja missão é lesar países ao redor do mundo em golpes de trilhões de dólares. Os assassinos econômicos atuam manipulando recursos financeiros do Banco Mundial, da Agência Americana para o Desenvolvimento Internacional (USAID), além de outras organizações internacionais e estadunidenses.

Através de empréstimos, eles canalizam verbas de países para grandes corporações e famílias abastadas que controlam grandes fontes de recursos naturais. O espião que abriu o bico afirma que seus instrumentos de trabalho incluem relatórios financeiros adulterados, pleitos eleitorais fraudulentos, extorsão, sexo e assassinato. Um assassino econômico seria um empregado do imperialismo nos tempos da globalização.Leitura obrigatória para qualquer adepto de panelaços e manifestações aparentemente nacionalistas.

Gasoduto Bolívia-Brasil

O pior contrato da história da Petrobrás

Pernicioso,contrato significou mudança para matriz energética mais suja

Ministro da Fazenda do presidente Itamar Franco, Cardoso foi o maior lobista do gasoduto Bolívia-Brasil, garante o engenheiro Fernando Siqueira, que monitorou o acordo desde o inicio. Já ostentando a faixa presidencial, o sociólogo eleito com ajuda de infindáveis recursos, suspendeu 15 projetos hidrelétricos em diversas fases, para forçar a necessidade irreversível o gasoduto. Mais tarde, essa determinação presidencial foi a responsável pelo apagão no sistema elétrico do Brasil. Toda essa manobra foi comandada por Enron e Repsol, as empresas estrangeiras donas do petróleo y gás boliviano que tinham apenas o Brasil como mercado

O problema é que a construção dos dutos era economicamente inviável: “A taxa de retorno era de 10 por cento ano, enquanto o custo era 12 por cento ao ano. Por isso, pressionaram o governo para que a Petrobrás assumisse a construção”. A estatal foi obrigada a destinar recursos da Bacia de Campos –onde a taxa de retorno era 80 por cento- para investir no empreendimento.

Singela locução

Se não bastasse isso, segue o diretor da Aepet, o contrato era pernicioso ao pais por significar a mudança da matriz energética para pior, mais suja. E ainda ficar dependente do gás externo, dominado por corporações internacionais, com preço atrelado ao do petróleo, cotado em dólar. O negócio foi ruim para a Bolívia, que recebeu só18 por cento pela entrega de uma de suas últimas –mais significativas– riquezas. Para o Brasil foi péssimo: “A Petrobrás foi obrigada assinar uma cláusula de Take or Pay, ou seja, comprando ou não a quantidade contratada, pagaria pelo acordado”.

Assim, durante mais de dez anos, o Brasil pagou por cerca de10 milhões de metros cúbicos sem conseguir vender o gás no mercado interno. Por essas e por outras, na internet é comum encontrar a singela locução:               “FHCâncer da Petrobrás”.

Eles não desistem

Na sessão de 23 de março de 2015, o senador e ex-candidato tucano à presidência José Serra apresentou no Senado projeto para que a Petrobrás não seja mais a única operadora nos campos do pré-sal. A proposta facilita o trabalho das petrolíferas estrangeiras que atuam no Brasil, com evidentes prejuízos para o país. Na condição de única operadora do pré-sal – prevista na Lei da Partilha – a Petrobrás controla toda a produção das mega jazidas do pré-sal, o que contraria as multinacionais. Mais: fiscaliza diretamente a operacionalização da política de conteúdo nacional, o que igualmente contraria os estrangeiras.

Na eleição presidencial de 2014, o candidato tucano Aécio Neves prometeu em seu plano de governo acabar com o regime de concessão instituído pelo PT e reintroduzir o sistema de concessão dos anos de Cardoso. Mais uma vez as urnas provaram que a ideia não vingou.

José Serra, senador, é taxativo: “Torna-se imprescindível então a revogação da participação obrigatória da estatal no modelo de exploração de partilha de produção, bem como da condicionante de participação mínima da estatal de, ao menos, 30 por cento da exploração e produção de petróleo do pré-sal em cada licitação, disposições constantes da Lei n° 12.351, de 22 de dezembro de 2010. (sala das Sessões, Senador José Serra PSDB-SP)”. O texto completo da emenda, está disponível no endereço:

http://www.senado.gov.br/atividade/Materia/detalhes.asp…

*Do núcleo de colaboradores de Diálogos do Sul


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
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