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Ecocídio: conhecimento e corporações

Revista Diálogos do Sul

Tradução:

Os desnorteados: o pensamento do Sul
textos para releitura e reflexão

Pablo González Casanova*

 Para Armando Hart Dávalos

Pablo González Casanova1. Um problema a que devemos prestar atenção é o do desconhecimento nas ciências e na luta pelo “o que é científico e o que não é…” No “que não é científico” devemos aprofundar e precisar porque não o é e não permanecer em críticas gerais cuja capacidade de persuasão é menor, sobretudo naqueles ambientes que, consciente ou inconscientemente, cultivam “a ignorância” até para si mesmos, como acontece com a imensa maioria das forças dominantes. O pensamento crítico e científico de nossos dias deve comprovar “a ignorância” ou “o desconhecimento” que se dão tanto no perigo que corre a vida humana como nas verdadeiras causas que o determinam.

ecocídio22. A solução ao problema científico adquire maior precisão quando é proposto como consequência do capitalismo corporativo e se demonstra que os danos que ele gera na terra e na biosfera anunciam, ou mostram, rigorosamente um futuro ameaçador para a vida na Terra, e para o Planeta Terra.

3. Limitar-se a dizer que o processo se deve ao modo de dominação e acumulação capitalista é certo, mas insuficiente. É certo, na medida em que contribui para melhorar o conhecimento dos convencidos: mas é pouco eficaz para enfrentar a contraofensiva que as forças de dominação e acumulação do sistema desatam, a cujas pressões, sanções abertas e encobertas e argumentos científico-políticos, cedem aqueles que as temem ou servem a seus interesses com aquilo que calam, dizem ou fazem.

4. Cabe reconhecer que numerosos cientistas denunciam os problemas criados pelo capitalismo corporativo, por sua magnitude, aceleração e crescente tendência destrutiva, mas também é fato que a maioria não atribui ao capitalismo a origem e a magnitude dos danos e perigos.

5. Os problemas do desconhecimento se dão tanto nas análises das causas e fatores, como nas análises de tendências, e nas soluções e medidas a tomar, bem como nas definições do “capitalismo” e também da “ciência” ou do que não é “ciência” e “por que não o é”. Alguns fatos ou teses ilustram o problema:

6. Em primeiro lugar é necessário observar que frequentemente se esquece que são várias, e não uma, as ameaças à vida na terra. Podem ser destacadas cinco principais:

ecocídio31ª. A que corresponde ao buraco de ozônio e seus efeitos.

2ª. A que se refere à mudança climática e seus efeitos.

3ª. A que são geradas pelas corporações dos diferentes setores da economia, o setor primário, o secundário e o terciário, com proeminência crescente da economia da destruição diante da economia da produção, a acumulação ampliada e a reprodução…

4ª. A que corresponde ao perigo crescente que uma guerra nuclear significaria para a destruição da biosfera.

5ª. A que faz todas as pressões possíveis – conscientes e inconscientes – para que não sejam reconhecidos os perigos, nem as causas, nem as soluções, ou para que algumas vezes sejam reconhecidos uns e desconhecidos outros. Essas pressões ultrapassam muito a mera “desqualificação” e o mero “desconhecimento” daqueles que formulam cientificamente o problema. Além do mais são também a causa do problema. São a causa do problema que se negam a conhecer os beneficiários do modo de dominação e acumulação do qual eles mesmos estão se convertendo em vítimas potenciais.

Negam-se a reconhecer, em todo ou em parte, que a estruturação mundial do modo de dominação e acumulação movido pela maximização de seus lucros, riquezas e poder, e integrado hoje como um sistema de corporações e complexos militares-empresariais-políticos-e-midiáticos, é a causa principal dos perigos que ameaçam a humanidade e, portanto, eles mesmos.

copenhagen_now_whatsO sistema capitalista em sua situação atual se define como um conjunto realmente existente que mais que a soma dos subconjuntos que o integram  é a combinação ou articulação desses subconjuntos. O capitalismo atual, longe ficar em um mero conceito ou categoria geral, teórica ou ideológica, redefine-se pelas articulações, rearticulações e desarticulações das grandes empresas e dos distintos sectores nos quais operam, bem como por sua vinculação em núcleos de poder, mediação, corrupção e repressão nos quais se apoia, e cujo comportamento real e formal, efetivo e virtual, aberto e encoberto, é realizado com organismos complexos – de múltiplas relações, funções e interações – a cargo dos grandes empresários e seus grupos de pressão e de poder, cada vez mais integrados por aqueles que, ao mesmo tempo são empresários dublês de militares, ou de políticos, ou de publicitários de comunicadores, de tecno-cientistas, de patrocinadores ou conselheiros das instituições de cultura superior, e de especialistas na cultura de massas e na individualizada ou “focalizada”.

Os  integrantes do sistema e seus coletivos têm uma autonomia relativa, mas em todos predomina para as decisões de “última instância” a lógica financeira, complementada, em todas as escalas, com a lógica da repressão e da cooptação, da colusão, da intimidação e da corrupção, da alienação intelectual e moral que e são utilizadas alternativa ou simultaneamente para a consecução do objetivo principal e expresso que os move: a maximização dos lucros, das riquezas, do poder e dos valores  de utilidades, riquezas, poder y valores alienados, e a minimização das perdas, fracassos ou sujeições.

Às organizações, corpos colegiados e pessoas dominantes no sistema se agregam as mais variadas forças, institucionais e informais, legais e ilegais, que se especializam nos diferentes setores, ramos e regiões em que as empresas e complexos, ou os estados-nação e os sistemas políticos, colocam em prática as medidas de dominação e acumulação. Nesse sistema e precisamente nesse sistema, destacam-se as contradições atuais e potenciais que aumentam os perigos de “ecocídio”.

Problemas que a humanidade pode resolver… mas…

ecocídio67. E aqui se faz indispensável um esclarecimento e um parêntese. Na argumentação anterior e na seguinte nos referimos aos perigos de “ecocídio” ou de “eco-suicídio” com a certeza de que são problemas que a humanidade pode resolver, sem que essa certeza implique que “necessariamente” vai resolvê-los, mas que devemos e podemos lutar por resolvê-los, e que temos a possibilidade de resolvê-los. Assim, com nossa argumentação buscamos contribuir, com muitos outros, para o esclarecimento da consciência e para o impulso das organizações que são necessários para que o máximo de forças consiga deter o perigo do ecocídio, desestruturando as causas e fatores que realmente o determinam. Pois se o perigo está cientificamente comprovado por toda a comunidade científica do mundo, suas causas e soluções estão ainda longe de se converter em conhecimentos-força daqueles que lutam pela vida e pela emancipação humana.

Se a causa principal do máximo perigo enfrentado pela humanidade é o sistema dominado pelo capital corporativo, os diferentes e principais fenômenos nos quais aparece a ameaça à vida – como o buraco de ozônio, a mudança climática, a exploração e destruição crescente da vida na terra por causa da super exploração dos recursos terrestres dos quais se apoderam as corporações -, não há dúvida de que vão a incrementar cada vez mais a luta pelos recursos naturais entre as próprias corporações, entre os estados-nação  e entre os blocos e complexos hegemônicos. Essas lutas continuarão se associando à re-colonização das nações e dos povos e à escravização salarial e forçada dos trabalhadores desregulamentados, despojados e excluídos, os quais, por sua vez, aos bilhões terão que acrescentar à luta por sua emancipação a luta pela vida, e a uma e outra, seu projeto alternativo para a construção de um mundo sustentável, capaz de resolver na prática os problemas que o sistema dominado por corporações e complexo é necessariamente incapaz de resolver, embora não o creio nem o queira crer, não o saiba nem queira que se saiba, não o reconheça e se oponha a que se reconheça. É verdade que tamanho problema parece de difícil solução. E também é verdade que se pode resolver.

globalizacao-e-seus-efeitosTodas as lutas para a opressão ou para a emancipação se dão com a memória das lutas passadas e com novas características entre as quais hoje se destacam por parte das opressoras:

1º. A “globalização” como restauração do capitalismo no imenso bloco que originalmente foi proposto como o caminho da emancipação humana;

2º. A restauração do estado liberal diante do estado social cada vez mais destruído;

3º. A “re-colonização” aberta ou encoberta das nações “periféricas” que haviam conquistado sua independência formal;

4º. A formação de grandes blocos e zonas que incluem a submissão, associada ou dominada, de antigas potências metropolitanas ou imperialistas. Os vínculos, enfrentamentos e planos  de dominação e resistência adquirem as mais variadas características Em sua maioria tendem a dar destaque à extrema direito e à solução violenta dos conflitos e processos. Complexos e empresas lutam com crescente agressividade para dominar os recursos naturais e apoderar-se dos mercados de insumos e produtos;

5º. Ás tendências anteriores se somam a febril exploração, exclusão e depredação que se impõem sob os nomes de “reforma”, “desregulamentação”, ”sub-rogação”, “atualização”, “eficiência”, “eficácia”, “competitividade”, “governança”, “governabilidade”, acompanhadas e combinadas com renovadas políticas de corrupção e repressão de indivíduos, de coletivos, coletividades e setores de classe. Dentro do próprio modo de dominação e acumulação capitalista se inserem relações dos modos de dominação e acumulação escravagistas, senhoriais, servis ou feudais, tributários ou de intercâmbio desigual.

Se em todas as lutas de opressão e despojo que as forças dominantes travam predomina “em última instância” a “lógica financeira”, todas correspondem a uma combinação permanente da guerra com a paz, e à prática de una guerra de “espectro amplo”. Na guerra não deve ser levado em consideração apenas o ataque com armas militares, mas com as financeiras, políticas, ideológicas, informáticas, sociais, culturais, religiosas, ecológicas. Varias delas ocultam os laços que as unem, como as militares e as paramilitares, e as que se dão com, e entre, “o negócio organizado” e “o crime organizado”. De modo igualmente significativo combinam ações e guerras abertas e encobertas, reais e virtuais, e se atua tanto em campos de batalha e aparelhos tradicionais, como nos cibernéticos, eletrônicos e digitais.

La-fórmula-del-neoliberalismoTodas essas, e outras combinações e articulações são praticadas em cenários locais, regionais e mundiais relativamente diferentes aos que se davam nas “guerras mundiais” anteriores entre os estados-nação, ou no interior das nações, entre coletividades ou entre classes.

No terreno da informação a guerra se trava ativamente para desestruturar, desorganizar e fazer com que as vítimas percam a moral de luta, a dignidade e o respeito próprio, e até o sentido da luta, enredando-as em lutas anódinas e ferozes e fazendo com que percam, com o sentido da vida, sua condição humana.

Se muitos dos anteriores são recursos antigos, hoje muitos deles estão tecnologicamente aperfeiçoados para provocar confusões, divisões internas e atraentes alienações, tarefas das quais se ocupam reiteradamente “os meios” de massas, e nos quais a biofísica, a biogenética e a bioengenharia atingem uma quarta dimensão para que a realidade seja vivida como espetáculo e o espetáculo como realidade.

Ao mesmo tempo, muitos atores-espectadores acreditam que os “jogos” de guerra virtual dos “narcos” ou dos “irmãos muçulmanos”, ou “contra os tiranos” e “pela democracia”, ou dos impérios “pela libertação dos povos colonizados e colonizáveis” são verdadeiras lutas pela liberdade e pela democracia, e não algumas das variadas guerras da globalização depredadora e recolonizadora. Grandes esperanças e vidas se perdem entre confusões e enganos.

Todas têm como transfundo a privatização e a re-colonização do mundo e a dominação dos despojados e explorados juntamente com a eliminação física dos que sobrarem para que não mais estorvem.

Nas altas esferas da dominação esses fatos e muitos mais se combinam com a destruição do conhecimento e com a ruptura das mediações do sistema mundial formal. O processo de decomposição ocorre entre variações dos diferentes blocos do Oriente e do Ocidente e no interior de cada um deles, no que se refere ao predomínio das repressões sobre as mediações. Em todo caso, as mediações dos direitos sociais e políticos nacionais e internacionais tendem a serem substituídas pelas corrupções, intimidações, desmoralizações dos povos, e por diferentes tipos de ignorâncias políticas, históricas, humanísticas, tanto nos países metropolitanos como nos periféricos.

Os mesmos ou semelhantes métodos são empregados para derrocar os governos progressistas, democráticos ou socialistas que não se atêm aos compromissos prévios de seus países com o Banco Mundial, com o FMI ou com o Banco Central Europeu. Neles a nova guerra consiste em impor duras medidas financeiras, econômicas, sociais e educativas com as quais se busca dividir, balcanizar e alienar os povos, fazendo com que se choquem entre eles e com seus governos, para que se acabem seus intentos de construir uma alternativa ao inferno em que vive a imensa maioria da população.

O problema para as corporações e complexos é que todos esses recursos e outros mais de extrema violência não resolvem a crise recorrente do sistema, e que não podem recorrer, como ao keynesianismo de Guerra, única que a resolveu com a Segunda Guerra Mundial. Entre outros há um duplo problema: tudo o que fizeram de 1980 até hoje foi para destruir o Estado Social e o Estado desenvolvimentista, e nem suas novas estruturas globalizantes, nem seus avanços tecnológicos resolveriam os problemas de e de superprodução ou subconsumo com as políticas de mais de meio século atrás que o Imperialismo adotou por uma razão a mais:  a luta contra o imperialismo nazifascista primeiro e depois contra o crescente poder comunista. Hoje, nesse terreno a situação é também consideravelmente diferente: a restauração do capitalismo nos blocos soviéticos e chineses, bem como as sistemáticas derrotas sofridas pela luta guerrilheira, longe de representar um perigo para eles são um estímulo para dominar e acumular em todo o mundo, sem concessões sociais nem desenvolvimentistas.  Ao mesmo tempo, com o perigo de uma “guerra de destruição mútua assegurada” com bombas nucleares e sistemas de lançamento altamente aperfeiçoados, não podem ver solução alguma no  “keynesianismo de guerra”.

Ganharão a guerra da globalização?

ecocídio4O conhecimento pelas forças dominantes das potências capitalistas mais avançadas desse perigo nuclear leva-as a pensar que do que sim são capazes é de impedir que se acabe a guerra combinada com a paz, que é a verdadeira guerra. Em seu cenário de paz mundial com guerra mundial, aplicam e adaptam hoje as experiências da guerra contra-insurgente que aplicaram ao longo das cinco décadas de “Guerra Fria” a uma nova guerra recolonizadora, encabeçada pelos Estados Unidos, antiterrorista e “humanitária” em que jogam o jogo duplo da luta contra os opressores e pela democracia, com uma técnica renovada de “repetições” ou “iterações”, modificáveis de acordo com as circunstâncias e com a experiência, e mediante as quais estão estendendo sua dominação na Europa Oriental, no Oriente Médio, no Mundo Muçulmano, no Sul da Ásia, no continente africano e em grande  parte da América Latina. As corporações e o complexo militar empresarial dos Estados Unidos acreditam poder dominar cientificamente com seus modelos de mini-max e de opção racional, –que segundo pensam são os mais avançados no conhecimento científico, e que combinados com sua grande cultura colonialista e imperial lhes permitirá ganhar em paz a Guerra da Globalização  assim como ganharam a Guerra Fria.

A nova proposta leva-os a considerar que o perigo de “guerra mundial de destruição mútua assegurada” era uma simples “doutrina” e que a atual, conhecedores desse perigo, lhes permitirá “assegurar” sua própria vida– se continuarem aplicando o mais rigoroso de todos os conhecimentos científicos, unido ao imenso poderio de que dispõem com mais de mil e cem bases militares semeadas por todo o mundo. Os soberanos do sistema estão firmemente convencidos de que combinando cientificamente a política atualizada do “sorriso e do garrote”, da repressão e da negociação podem impedir que o inimigo se atreva a dar um só passo capaz de ativar a guerra internacional e nuclear que o destruiria. Estão convencidos de que pouco a pouco – e entre agressões e negociação – a vítima, ou o inimigo, vão se inclinar a obedecer e pactuar com eles, algumas vezes levados pelo medo e outras pelas ilusões ou corrupções. Os “think tanks” desta “doutrina” não advertem que em sua avanço globalizante, a repetição  de suas ações inclui também esses fenômenos que na formalização matemática são conhecidos como “iterações”, e que levam de repente a resultados surpreendentes, inesperados, chamados pelos pioneiros de “monstruosos”, e mais tarde analisados nas fases de transição às “catástrofes” e ao “caos”. Em sua lamentável prepotência os ignoram, seguros de controlar o incontrolável e de aproveitar iterações anteriores e seus efeitos para aperfeiçoar suas decisões.

Em meio da nova guerra de guerras global que vivemos, e das ameaças que entranha para a espécie humana surgem movimentos anti-sistêmicos, parecidos e diferentes aos movimentos revolucionários dos anos 48 e seguintes no século XIX, de 1917 e seguintes na União Soviética, de 1921 e seguintes na China, de 1959 em diante em Cuba, de 1970-73 no Chile e de muitos outros mais do século XX. Os novos movimentos anti-sistêmicos ou anticapitalistas do século XXI, por sua parte, propõem novas e velhas formas de luta. Muitos deles combinam seus anteriores métodos de organização com a construção de alternativas e de organizações em rede, ou as de estados centralizados e descentralizados que dão crescente importância à organização de seus povos, com estruturas autônomas articuladas entre si, em níveis que vão do local, estadual, nacional, até abarcar regiões internacionais e entabular relações transnacionais com movimentos afins de todo o mundo.

Em seus planos de construção, os movimentos anti-sistêmicos põem particular empenho em novas distribuições do que antes de distinguiam como urbano-rural ou como industrial-agrícola. Procuram que desapareçam as diferenças ou que se articulem mais os setores, desde a produção até os serviços. No interior de seus territórios, locais e regionais, constroem unidades autossustentáveis enlaçadas como sistemas de coletivos, coletividades, empresas, serviços públicos que se centralizam e se descentralizam com novos critérios de eficiência compartilhada e universalizada em cada zona, território, nação, ou enlaces liberados ou construídos e em processo de liberação e construção. Seus projetos de organização, de produção e de luta possuem um domínio crescente da lógica que constrói cenários e estratégias para uma transição prolongada na qual o que se busca fazer em nosso tempo se faz em nosso tempo como parte de um futuro maior. Nos novos projetos anti-sistêmicos “ganhar a paz” como quer Cuba, ”é o objetivo de sua guerra por um mundo moral, organizado, democrático, justo, respeitoso de religiões, raças, ideologias, combativo e preparado, consciente ou reflexivo para canalizar suas próprias contradições e capaz de vencer a agressividade alucinada dos complexos empresariais-militares-políticos e midiáticos que cada vez mais se acercam à extrema direita, entre efêmeros esforços por renovar suas mediações de cooptação e corrupção e as de colusão e repressão “institucional”.

Há uma nova guerra mundial

7. Na nova guerra mundial, como na nova revolução mundial, é indiscutível que os dois blocos em contenda não querem levar a luta para o terreno nuclear. Mas enquanto o capital corporativo e os complexos empresariais-militares se aferram à ideia de que o perigo de destruição mútua nuclear está sob controle, as forças empenhadas em projetos e ações emancipadoras não só têm que lutar pelo genuíno conhecimento científico nesse terreno, como também têm que travar a luta pelo conhecimento científico que vê os perigos do ecocídio, tanto na ameaça de uma guerra nuclear, como na mudança climática, no buraco de ozônio e na destruição da natureza, com velhas e novas tecnologias, tudo como efeito buscado e não buscado pelas pelas corporações extrativas e por um sistema em crise generalizada de produção-destruição e consumo, e de sentido humano e moral.

Nos novos movimentos anti-sistêmicos as novas lutas pela vida ocupam um primeiro plano e nelas não apenas há que lutar contra a alienação mental e moral, mas também pelo conhecimento e pela coragem, contra o desconhecimento e pelo esclarecimento, contra a mentira e a ocultação dos problemas, pelas verdadeiras causas e medidas a tomar e pela luta moral e intelectual, política e social, desarmada e armada pela vida.

A luta científica em torno à mudança climática expressa as limitações e ataques de que é objeto o conhecimento científico dos especialistas da “corrente principal” (ou “main current”) quando se aproximam da crítica do sistema de dominação e acumulação, e nem se diga quando vão ao fundo do problema e descobrem que o pós-capitalismo, ou um novo socialismo, com sistemas de base crescentemente democráticos, são a única solução. E aí aparece o poder potencial das forças alternativas e anticapitalistas. Enquanto que a estas lhes convém e necessitam lutar e praticar o conhecimento e a moral coletiva, as outras se limitam aos conhecimentos que lhes permitem maximizar lucros e minimizar riscos. Suas ações concertadas são mais da ordem de forças mancomunadas ou limitas às “famílias” dos negócios e dos crimes organizados.

Aqui é necessário recordar novamente que a guerra suja começou contra um grupo pioneiro de cientistas da Universidade de East Anglia. O fato de haver descoberto a responsabilidade humana na mudança climática fez com que se visse envolvido em um escândalo de ordem criminal. O diretor do centro e seus colaboradores foram acusados de ter manipulado os dados para provar sua “falsa” tese e de ter apagado os dados que des-confirmavam a tese sobre o caráter “antropogênico” da mudança climática. O escândalo não só chegou à grande imprensa, começando por um famoso diário inglês – The Guardian –, mas ao mundo inteiro, e foi objeto de investigação não apenas nos círculos acadêmicos mais avançados, mas em várias comissões de cientistas, uma delas designada pelo Parlamento Inglês. No fim das contas, o próprio Parlamento Inglês e “toda a comunidade científica do mundo” – e esta continua sustentando – que a mudança climática é “antropogênica”. Mas, enquanto isso, o diretor da pesquisa pioneira renunciou ao seu cargo e o escândalo produziu um imenso desprestígio dos cientistas que foram acusados de “catastrofistas” e até de delinquentes. Do falso ataque e da desqualificação das teses “algo permanece” até hoje, graças aos grandes interesses dominantes e o apoio de seus publicitários e daqueles que não querem se meter em problemas, nem pensar nos problemas do mundo.

Apesar disso, a guerra da ciência não se deteve. Alguns anos mais tarde, os coléricos panegiristas do “establishment”, açulados por seus amos, tiveram que enfrentar os 2.000 cientistas do Congresso Intergovernamental reunido em Paris, porque haviam ousado confirmar que a mudança climática e os dados que hoje entranha são “antropogênicos”. É claro que a afirmação dos cientistas não excluía a existência de outros fatores que, sem a ação humana, se produzem na história da Terra. Tampouco sustentava que o capital corporativo fosse o principal responsável da perigosa mudança climática. Apenas confirmavam uma pesquisa rigorosamente científica que por todos os meios havia sido desqualificada e que novamente levou “toda a comunidade científica a ser qualificada de catastrofista”.

Desde então até hoje – individualmente e em grupos – os especialistas sustentaram a tese da origem humana do fenômeno. E mais, no momento da ofensiva contra os 2.000 reunidos em Paris, revistas como a Nature e a Scientific American defenderam os agredidos em suas teses. A Nature dedicou um número inteiro para defendê-los expressamente. Para isso convidou especialistas do mais alto nível. Por sua parte, a Scientific American não entrou abertamente na polêmico, mas editou todo um número com prestigiados especialistas que trataram dos mesmos temas do “Painel” com as mesmas teses e com as mesmas e outras provas.

O conhecimento proibido 

Há um livro que em inglês se intitula Forbiden knowledge, o que significa “O conhecimento proibido”, que entre nós evoca o Santo Tribunal da Inquisição cujos métodos hoje se aplicam com novas e e falsas desqualificações aos conhecimentos e aos autores…. Os novos tiranos do conhecimento científico não excomungam suas vítimas por “traidores a Deus e ao Rei”. Desde o início da Guerra Fria até as mais recentes investidas, os acusam em nome da segurança nacional, da democracia e até da liberdade. A essas acusações agregam outras não menos agressivas pelas quais de lhes tacha de ignorantes e deficientes de conhecimentos na matéria, ou de mentir doentiamente, ou se lhes envolve em pequenos escândalos parecidos ao “Climagate” que se desatou na Universidade de East Anglia… Com menos estardalhaço a perseguição à pesquisa científica e humanística continua até os nossos dias e inclusive se intensifica.

A política privatizadora e globalizante mostra que os grandes patrões estão empenhados em reduzir a pesquisa, a educação e a informação ao conhecimento que aumente a eficiência e a competitividade para a dominação e acumulação de capital, e nada mais. De fato, passaram e estão passando das meras críticas e acusações científicas, jurídicas e criminais à diminuição conhecimentos e conhecedores que se oponham a sua insaciável vontade de maximizar seu poder, seus lucros e riquezas. Na educação média e superior seus funcionários e acadêmicos neoliberais eliminam a filosofia, negam caráter científico à história, expurgam períodos inteiros da história universal e nacional; transformam em “cavalheiros” e “schollars” os novos piratas de “gangsters”, e ao mesmo tempo apagam toda a possibilidade do discurso humanista, científico e crítico, impondo normas do “politicamente correto” e chegando a proibir mais que nunca  o uso de palavras como “capitalismo”.

Para aumentar seu domínio e império privatizam e dominam em seus conselhos as universidades, fecham escolas normais e primárias para camponeses e trabalhadores, reduzem ou anulam recursos para o pesquisa científica  que ainda não privatizaram e fomentam supostas “reformas” que colocam sob controle psicológico e cultural os pesquisadores, professores e alunos.

No que se refere às ciências que estimulam e apoiam: no conjunto das ciências sociais reina a economia ao estilo Hayeck, e nesta a econometria. Ambas metodicamente limitam o campo do conhecimento à economia de mercado, exclusiva para as empresas que dominam o mercado, seus associados e subordinados. A problemática se reduz aos obstáculos que freiam as empresas e as políticas para superá-los. Ao mesmo tempo excluem as chamadas “externalidades”, os seja, o mundo dos seres que estão “out of the market” relegados à lógica da caridade e dos donativos humanitários. Se Hayeck é seu deus, entre seus demônios chegam a incluir Keynes e Schumpeter, e quando não esquecem de Marx, recordam-no  desdenhosa e distorcidamente. No campo político, com seus “lobbies”, arremetem até contra as liberdades acadêmicas (“academic freedom”) fazendo da educação, da pesquisa e do conhecimento patenteado o novo monopólio de seu domínio e poder.

A gravidade dos problemas para os quais o capitalismo corporativo não pode nem quer encontrar solução aumenta de maneira perigosa – ao mesmo tempo psiquiátrica e lógica – de uma lógica social doentia, mórbida. A negação de fenômenos e causas corresponde aos fenômenos que a psicanálise considera característicos do psicopata. Trata-se de problemas que permitem identificar suas pacientes também com sociopatas. Seu comportamento doentio não só parece corresponder à maldição do Rei Midas. Também corresponde a uma conduta completamente lógica no sistema em que atuam. Para o marxismo é a lógica dos proprietários das empresas e dos gerentes que expressa a  lei histórica da empresa capitalista: a maximização de lucros e riquezas. Essa lógica opera de acordo com o comportamento do acionista principal da megaempresa, cujo gerente obedece sem duvidar. Quanto ao acionista principal, que domina a empresa, a partir do momento em que possui 30% do capital e coloca o resto das ações na bolsa de valores só alcança seu objetivo se mantiver alto o rendimento das mesmas. Em tempos de crise recorrente, o acionista principal vive em constante tensão mercantil e psicológica, ou lúdica de tranquilo lobo feroz nos negócios. Sua conduta chega a enfrentar problemas como os que enfrentou o gerente de uma companhia na assembleia anual de acionistas. Conta a gerente que começou a dizer: “para o ano que vem vamos… quando todos os acionistas o interromperam em altas vozes e lhe disseram: “Não. Não nos fale do ano que vem… fale só do que vamos ganhar este ano”. Nesta história, o acionista majoritário teve que ceder e o gerente que obedecer. Em outros casos acionistas e gerentes vivem sob o ampara ou a expectativa das casas denominadas “qualificadoras”, que agora significativamente não só  qualificam as empresas, mas os países e os presidentes que são qualificados pela lógica de gerentes capazes de criar condições de trabalho eficientes e competitivas, ou por sua capacidade de aumentar a produtividade tecnológica, ou pela que mostram para baixar salários, prestações e seguros sociais e aumentam o tempo e a intensidade do trabalho. Por certo, há pouco deixaram de qualificar a França com três “A”, passaram a dar-lhe dois “A” e um “B” depois dos fracos intentos que fez Monsieur Hollande no início de seu governo para apoiar os trabalhadores.

Classificam países como empresas 

Mais abertas que os acionistas, as casas qualificadoras – como Moody’s e Standard and Poor’s fazem análises e modelos formalizados de futuros e em algumas ocasiões servem de apoio ao “acionista majoritário” e seus projetos de médio prazo para incrementar lucros e diminuir riscos em suas empresas. Em qualquer caso, a necessária e expressa “lógica do capital” se impõe. Baseados nela os grandes empresários que construíram um mundo para aumentar seus lucros até com as crises e com o ameaçador aquecimento global, consideram as ciências da opção “racional”, da “maximização de lucros e diminuição de riscos” como as “ciências mais avançadas”. Ao mesmo tempo, conforme seu poder aumenta em estados e governos “privatizados” eles mesmos utilizam a lógica do capital para qualificar e alcançar a eficiência e eficácia dos próprios governos e até sua “capacidade de aceitar riscos” no controle dos operários, dos jovens e dos camponeses, desregulamentados, depauperados, desempregados, ou na participação de seus países na re-colonização do mundo.

Assim, com os êxitos na colossal maximização de lucros em meio à crise e com o imenso proveito que tiram das crises sociais e ecológicas, se fortalece a impossibilidade em que se encontra o atual sistema de dominação e acumulação corporativo, para reconhecer e resolver o problema da mudança climática, ou o da super-exploração da natureza física, biológica e humana, ou o da economia de guerra que tanto ajuda o consumo, ou de frear as novas formas de super-exploração dos recursos naturais e de impulsionar o crescimento dos mercados de trabalho escravo das empresas sub-rogadas, com o consequente empobrecimento e destruição da terra e da imensa maioria da humanidade.

Resolver estes e outros problemas se torna “impossíveis sistêmicos” que – com as guerras re-colonizadoras, – muitas delas a custa ou com participação de potências e forças aliadas e subordinadas -, aumentam outro perigo crescente: o da guerra nuclear “não desejada”. Todas induzem a recolocar a luta pela emancipação humana como uma luta que necessariamente tem que ser travada por outro modo de dominação e acumulação e por uma nova civilização “muito nova” que preserve vida e natureza, nossa vida como parte da natureza, e a natureza como necessária para nossa vida. O raciocínio lógico derivaria na necessidade mundial de outra civilização possível. E essa lógica se aplicaria consequentemente e em nível universal se de uma maneira objetiva estivesse respaldada pelo comportamento da dialética prevalecente. No entanto, esta apresenta problemas que não podem ser ignorados quando se quer vencer, ou se ao reconhecê-los e aprofundar neles se perdem a moral e a lucidez necessárias e pontuais para a organização e luta por uma civilização alternativa que aproveitando as experiências anteriores proponha e construa a partir do concreto as confluências da emancipação e da vida realmente humana.

A combinação da dialética dos interesses imediatos com a dialética que luta por outro modo de dominação e acumulação que, em meio de suas variedades culturais, ideológicas e religiosas proponha a necessidade de construir a liberdade, a democracia e o socialismo, e na prática seja consequente com as suas propostas é, de todos os caminhos emergentes, o que mais probabilidades tem de triunfar. Nele desempenham um papel fundamental muito importante Marx e martí; Marx por haver descoberto e sistematicamente aprofundado as causas da alienação humana, e Martí por haver demonstrado com sua emoção e seus atos que com ao pobres da Terra só se poderá fazer um outro mundo possível se prevalecer em seus movimentos a moral de organização e luta pelos interesses gerais da comunidade, da pátria e da humanidade, conforme sejam propostas nas lutas a partir da terra onde se vive até a terra que inclui o conjunto da Humanidade.

O socialismo que quiseram nossos antepassados corresponde a um fenômeno histórico e geográfico mais amplo em que se trocam e se enriquecem as experiências e conhecimentos do que se quer. Essas mudanças semelhantes se dão nos conceitos de independência, de democracia, de liberdade. Se já nossos clássicos – Rousseau, Bolívar, Marx, Engels, Martí, Lenin- pensaram e lutaram pela liberdade em revoluções de escravos, trabalhadores e povos que buscando ser democráticas, independentes e socialistas se restaurações burguesas e opressoras, as várias experiências que nos deixaram para não fracassar, inclusive as mais recentes que vão de Fidel Castro ao sub-Marcos, passando pelas guerrilhas do Che, e pela luta parlamentar que quis ser revolucionária com Salvador Allende e que hoje se apresenta com exércitos que se juntam com seus povos, temos a possibilidade de propor, para ganhar entre perigosas contradições, a nova luta pela liberdade, pela justiça, pela democracia e pelo socialismo, pela natureza e pela vida.

Sem mencionar o capitalismo, uma famosa revista que está longe de se identificar com o pensamento crítico, a National Geographic, em um  inventário sobre a guerra científica acerca da mudança climática diz: “Tem sido confirmado que os humanos vêm provocando o maior aquecimento global ao emitir gases que aprisionam o calor conforme construímos nossas vidas modernas. Conhecidos como gases de estufa, seus níveis são mais altos que nos últimos 650.000 anos.” Algumas linhas depois, o mesmo artigo destaca a queima de “combustíveis fósseis” – em que predomina a combustão do petróleo – como origem das “aceleradores do efeito estufa e do aquecimento global”. Em seguida sustenta que “os humanos aumentaram a emissão de dióxido de carbono (um dos gases com mais efeito estufa) em mais de um terço desde a revolução industrial”. E conclui que “até agora as mudanças históricas de tal magnitude haviam exigido milhares de anos e agora estão acorrendo em umas quantas décadas”… “Segundo o “Painel Internacional da Mudança Climática” –informa – dos doze anos mais quentes que se registram na terra desde que se usa o termômetros, onze ocorreram de 1955 a 2006”, ou seja, em pleno triunfo e crise do capitalismo e de sua política neoliberal, corporativa e globalizante.

Observando, a coincidência dessas datas e períodos com os de desenvolvimento do capitalismo e suas etapas é impressionante. Se identificamos a Idade Moderna e a Revolução Industrial à qual National Geographic se refere com o capitalismo mercantil e industrial, e o período de 1995 a 200O com o capitalismo corporativo e suas guerras anticíclicas e depredadoras, vemos que o problema ecológico e humano só pode ser resolvido com uma grande mudança histórica e civilizatória, o que em termos mais precisos implica uma mudança radical no modo de dominação e acumulação e também nas alternativas que se dão para a transição ao mesmo e para a reestruturação das relações entre cidade e campo, entre as classes e extratos de classe, entre povos e comunidades discriminadas e despojadas das nações e os complexos de poder, acumulação, alienação, política e guerra. Essa mudança que ocorre em todo o mundo com seus legados e novidades  varia também nas diferentes regiões do mundo e com as mudanças históricas e geográficas das categorias gera novas formações de insubmissos e rebelde, em sua imensa maioria jovens, que lutam pela vida, surjam dos 99% ou do 1% que “querem lançar sua sorte com os pobres da terra”.

O “climagate” ou a criminalização dos cientistas 

A necessidade indiscutível da grande mudança civilizatória e do fim do capitalismo explica o porquê do “Climagate” e dos insultos, com plantação de “provas” e criminalização dos cientistas que se atreveram a dizer que o aquecimento global é antropogênico e só por isso e sem que tenham mencionado o “modo de dominação e acumulação do capitalismo  corporativo” disseram uma verdade que feria a sensibilidade dos “psicopatas que governam o mundo” e que maius que por loucura pessoal ou coletiva agem assim como senhores e donos da terra, servos de sua lógica mercantil e usurária, depredadora e colonizadora.

Com a descoberta dos cientistas, as corporações se sentiram diretamente ameaçadas e desataram um ataque criminoso de efeito “bumerangue” como todos os que são impulsionados pela “sociedade do desconhecimento”, que se em um primeiro momento pesa mais sobre os pobres e os países pobres, e sobre os jovens pobres e ricos tem todas as probabilidades de incluir homens e mulheres maduros e velhas e velhos ricos de países ricos com seus “bunkers” protetores para ricos, como aqueles que alguns deles já estão construindo, vendendo e comprando, em seu louco afã de salvar a vida e seus negócios.

A guerra das ciências por ganhar a paz requer a luta contra a propaganda que humilha e desprestigia os cientistas, tratando de calar sua voz, e que os acusa de catastrofistas, buscando intimidá-los y desprestigiá-los… Ás lutas anteriores e atuais que os cientistas travaram e estão travando será necessário agregar o concurso de todas as organizações de ciências do mundo para que não apenas demonstrem verdade dos perigos e se envolvam em falsas soluções dentro do atual modo de dominação e acumulação, mas que cheguem às suas causas e soluções reais.

Se devemos lutar em todos os meios por “outro mundo possível” temos que lutar também por precisar o que fazer e como consegui-lo no início do século XXI. Desconhecer esse perigo implica ignorar que além das cinco possibilidades de ecocídio assinaladas se soma a combinação de várias delas que é absolutamente incontrolável se seguirmos o caminho que estamos trilhando em relação a elas e em relação especial com uma delas que é a nanotecnologia.

Neste momento estão sendo realizados grandes projetos de pesquisa sobre a nanotecnologia, com subsídios que apenas no Mundo Ocidental  chegam a cifras entre 650 e 800 milhões de dólares, e que aplicados ao campo militar e combinados com a engenharia genética, com a inteligência artificial, com os aparelhos capazes de corrigir desvios, corresponde ao maior potencial e ao máximo risco de destruição, sobretudo quando se pensa que, além disso, as crescentes redes de computadores estão gerando uma micro-robótica com armas biológicas que são a base de um mundo impossível de controlar mediante supostas proibições de armas biológicas, ou de micro-satélites, ou de sistemas artificiais móveis, ou de “robôs biológicos assassinos”, ou de operações militares e criminosas com combinações de armas ao mesmo tampo nano e micro, ou micronanos. Em um período nem menor nem maior de 6 a 15 anos esse perigo será incontrolável por tratados diplomáticos, acordos, leis, sistemas de detecção, polícias ou serviços de segurança pública ou privada que disponham das mais avançadas descobertas para a detecção de armas criminosas. E se isso ocorre no terreno criminal ilegal, com mais razão ocorre no âmbito do terror legalizado, como nas chamadas guerras contra o terrorismo e o narcotráfico.

Os sintomas de crise

Além disso, ocorre em uma situação histórica que apresenta vários sintomas de crise e de guerra, cujo aguçamento não se pode ignorar, entre os quais se destacam os seguintes:

1. A crise do endividamento externo que exige o pagamento de dívidas macroeconômicas, que continuarão sendo pagas pelos trabalhadores  e os povos ou pelas nações  que se vêem na necessidade de entregar seus recursos energético e todo tipo de riquezas ou fontes de renda.

2. A economia de guerra que, segundo recentes notícias entrou em crise, e cujas entradas caíram depois do término das grandes operações militares como as do Iraque, Afeganistão, Líbia, que hoje se reiniciam na Síria, no Mali e em outros países e que são insuficientes para responder à oferta de armas e municiones pois, entre outras razões, as potências usam as armas produzidas por suas próprias empresas em uma frenética competição.

3. As guerras de re-colonização  dos países que alcançaram uma relativa independência e as novas guerras de colonização de países metropolitanos aos quais os bancos transnacionais submetem, como no caso da Grécia, da Espanha e da Itália, fenômenos que são acompanhados por crise de desemprego e crises habitacionais, com manifestações pacíficas de suas vítimas que são controladas por todas as polícias.

4. A política persistente para a globalização do poder e da Economia dos Estados Unidos da América do Norte, seus associados e subordinados, com crescentes contradições no interior do “imperialismo coletivo”, e no interior dos países que o integram e, sobretudo, com crescentes ameaças de confronto entre o imperialismo do ocidente, encabeçado pelos Estados Unidos e a União Europeia, e o relativamente móvel da China com tendência a se fortalecer com a aproximação da Rússia, do Irã, do Paquistão e dos BRICS, cada vez mais ameaçados pelos cercos de mar, ar e terra dos Estados Unidos e da União Europeia.

5. A competição entre as grandes corporações e potências pelos recursos não renováveis da terra, e pelos renováveis.

6. Os jogos de guerra que se encenam na Europa oriental, Ásia e África, com guerras virtuais e não virtuais dos exércitos muçulmanos, dos irmãos muçulmanos, de dos sheiks petroleiros, de Israel e dos movimentos pela liberdade – aos quais o imperialismo apoia para destruí-los – ou contra o Islã político auspiciado e armado pelas potencias ocidentais e aos que, no momento oportuno, não permitem que realizem novas conquistas, com o aplauso dos conquistados que se livram de um horror terrorista para cair no horror do homem colonial, e entre os quais ao mesmo tempo estimulam a cultura do ódio e da vingança.

7. Uma conclusão exata: Se todo o anterior anuncia os perigos de um estouro global, a qual faz parte de uma gigantesca e universal corrupção e a construção global de uma “besta humana”, que se prepara para os genocídios coletivos com eliminação de coletividades inteiras dos seres humanos que sobrarem; e se em todo esse pandemônio se inclui o mundo dos nano-frankensteins metido nesse, o menos que podem fazer os centros e instituições de pesquisa científica é assumir o duplo problema do perigo do ecocídio e do perigo que para a humanidade significa seguir dominada por um sistema de corporações e complexos cujo objetivo principal é a maximização de lucros, poder e riquezas.

*Destacado sociólogo e crítico mexicano. Nascido em 1922, realizou seus estudos na Universidade Autônoma do México (UNAM), no Colégio do México e na Escola Nacional de Antropologia e HistóriaMagna Cum Laude outorgada pela UNAM e pela Escola Nacional de Antropologia e História

O original deste artigo está na Revista Casa de las Américas, edição 272 (julho-setembro/2013) Tomado de: http://www.defensahumanidad.cu/destacados/3589-ecocidio-conocimiento-y-corporaciones


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.

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