Foto: Guilherme Santos/Sul21

Como o mercado de derivativos se tornou uma ameaça para a democracia no mundo atual

O mercado de derivativos mudou a face do capitalismo e deu lugar a uma nova forma de dominação sobre países da periferia do sistema econômico mundial

Uma versão popular da chamada teoria do caos, que teve suas primeiras formulações na década de 60, afirma que o bater de asas de uma simples borboleta poderia desencadear uma série de acontecimentos que, por sua vez, poderiam levar à formação de um furacão a milhares de quilômetros do bater de asas original. Cerca de duas décadas mais tarde, o capitalismo começou a desenvolver uma versão própria dessa teoria com a criação de um instrumento que se tornaria o mais poderoso mercado do mundo. Não o bater de asas de uma borboleta, mas o apertar de algumas teclas de computador em Nova York, Londres ou Berlim, fazendo uma determinada aposta em um comportamento futuro, passou a adquirir o poder de influenciar o preço de alimentos, roupas e moradias do outro lado do mundo.

A leitura do livro Financial Derivatives and Globalization of Risk, de Edward LiPuma e Benjamin Lee (Duke University Press), despertou o interesse da dupla de cineastas berlinenses Arne Hector e Minze Tummescheit, que trabalham com temas políticos em suas obras. Mais especificamente, a relação entre os sinais emitidos pelo mercado financeiro e os acontecimentos políticos. Eles passaram a estudar o funcionamento do mercado de derivativos financeiros, criado por um pequeno numero de bancos e fundos de investimento europeus e norte-americanos que movimento hoje cifras na casa dos trilhões de dólares e afeta diretamente a vida política e social dos países, subordinando o próprio funcionamento do sistema democrático.



Arne Hector e Minze Tummescheit apresentaram o resultado de sua pesquisa, na noite de segunda-feira (29), em uma nova edição do Conversas Cidadãs, debate produzido em parceria pelo Goethe Institute de Porto Alegre e o Sul21. O livro que influenciou a dupla de cineastas foi escrito antes da crise de 2007-2008 que chamou a atenção de todos para a ameaça que os derivativos representavam para a economia mundial. Não só para a economia, aliás, como mostraram diversos desdobramentos políticos e sociais da crise financeira. Os derivativos se consolidaram como instrumentos de dominação das metrópoles financeiras sobre as periferias, resumiu Arne Hector. Esses instrumentos, explicou, são essencialmente apostas, feitas muitas vezes tendo como objeto as flutuações das taxas de câmbio entre moedas de diferentes países, a partir de modelos e estimativas de riscos.

Foto: Guilherme Santos/Sul21
Cineastas berlinenses Arne Hector e Minze Tummescheit analisaram relação entre acontecimentos políticos e mercado financeiro

O mercado de derivativos mudou a própria face do capitalismo e deu lugar a uma nova forma de dominação, menos visível, sobre países da periferia do sistema econômico mundial. Os cineastas escolheram o Brasil como um bom exemplo para estudar como as escolhas e apostas feitas por esse mercado pode influenciar acontecimentos sociais e políticos. Arne e Hector citaram algumas datas para ilustrar essa influência. Uma delas foi o dia 4 de março de 2016, quando o Real subiu 3,3% de um momento para outro e a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) disparou 4%. O que aconteceu neste dia? A condução coercitiva de Luiz Inácio Lula da Silva, determinada pelo juiz Sergio Moro, no processo da Operação Lava Jato que resultaria mais tarde na prisão do ex-presidente brasileiro. Para os agentes do mercado, esse acontecimento aumentava a possibilidade de o Brasil seguir por um caminho político que asseguraria o fluxo de pagamento futuro de juros ao sistema financeiro.

Seguindo a mesma lógica, o mercado “comemorou” o impeachment da presidenta Dilma Rousseff, as medidas tomadas pelo governo de Michel Temer e, mas tarde, a prisão de Lula e a eleição de Jair Bolsonaro. Quando Lula foi condenado, em primeira instância, a nove anos e meio de prisão, a Bovespa subiu 1,2% e o Real subiu 1,4%. O governo Temer fez o seu dever de casa, congelamento os investimentos público em saúde, educação e segurança, privatizando infra-estrutura e aprovando a Reforma Trabalhista. Distantes do noticiário político diário, os derivativos desempenham um papel fundamental neste processo, representando o principal instrumento que regula a relação entre a esfera política nacional e o mercado financeiro global. Esta relação é de completa subordinação da primeira ao segundo.

Na greve dos caminhoneiros, mercados reagiram à manutenção do subsídio para o diesel. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)  

Os derivativos, detalhou Minze Tummescheit, são contratos complexos voltados para o futuro, com um grande efeito de alavancagem, que permite que mesmo pequenas aplicações possam obter grandes lucros. Mas carregam uma dose de risco também. Isso ficou evidenciado na crise das subprime quando a bolha imobiliária estourou. O custo social das apostas feitas aí, foi dramático. Entre 2016 e 2017, cerca de 16 milhões de pessoas foram expulsas de suas casas. O sistema financeiro retomou aproximadamente 7,8 milhões de casas em processos jurídicos encaminhados e resolvidos rapidamente. “Foi um verdadeiro matadouro jurídico provocado em nome da segurança dos investidores”, resume Minze.

Outro exemplo apontado pela dupla de cineastas foi o processo que antecedeu a eleição de Lula para a presidência da República. Quando as pesquisas mostraram que ele tinha chances reais de vencer, os “players” do mercado começaram a apostar contra a moeda brasileira, o que acabou sendo usado como argumento para votar contra ele. Quando Lula foi eleito, em outubro de 2002, o real tinha perdido 30% do seu valor em relação ao dólar, o que provocou um significativo aumento da dívida do Brasil. Neste processo, ficou claro o papel desempenhado pelas agências classificadoras de riscos, que precificam o risco dos países a partir de condicionalidades políticas. As realidades políticas locais, destacaram, são permanentemente analisadas e acompanhadas por essas agências e seus braços midiáticos, como o canal Bloomberg, por exemplo.

Os cineastas berlinenses detalharam esse funcionamento do mercado de derivativos com um gráfico onde, por meio de uma linha de tempo, é possível acompanhar a relação entre os acontecimentos políticos e o comportamento desse mercado. A greve dos caminhoneiros, de maio de 2018, por exemplo, quando Temer cedeu às reivindicações dos grevistas que queriam a manutenção do subsídio para o diesel, desagradou os mercados, o que ficou registrado no valor de negócios na Bolsa e no preço do real. Neste cenário, assinalou Minze Tummescheit, a tarefa da política é organizar o presente de modo que ele corresponda às expectativas de futuro feitas pelos mercados financeiros. Não se trata apenas, portanto, de que os mercados reagem aos acontecimentos políticos. Há expectativas de futuro às quais o “mercado político” tem que se curvar sob o risco de desestabilização. Em resumo, a política deve estar de acordo com as expectativas do mercado.

A onda conservadora, que se abate hoje sobre vários países, não representa um problema para o mercado de derivativos, pelo contrário. “Os mercados financeiros não têm dificuldade de aceitar regimes políticos autoritários”, disse Minze. Mais do que isso, apontou Arne Hector, eles não se sentem muito confortáveis com sistemas democráticos que têm procedimentos mais complexos e lentos de tomada de decisão. “Um regime autoritário pode tornar o futuro bem mais simples”, resumiu a cineasta.

Trabalho foi apresentado no auditório do instituto Goethe de Porto Alegre. (Foto: Guilherme Santos/Sul21) 

Exposição do Cinema Copain no instituto Goethe. (Foto: Guilherme Santos/Sul21) 

Exposição também faz parte do trabalho sobre o mercado de derivativos. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)
 

Editoria: Política, z_Areazero 


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