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Eduardo Galeano: os imorríveis

Stella Calloni

Tradução:

Os invisíveis perdem seu cronista.

Stella Calloni*

Stella Calloni PerfilDizem que Eduardo Galeano morreu hoje e parece impossível aceitar, porque se há um escritor vivente na América Latina é precisamente ele, que fez da palavra o maior jogo da imaginação para a vida.

Quando um dia em Montevideu, ele me deu seu livro Las palavras andantes, editado –como todos em sua primeira pela editora El Chanchito, que ele criou em seu país-, senti e disse pra ele que era um trabalho entrelaçado de magias. Em um parágrafo desse livre lê-se a mais acabada definição que se poderia fazer dele mesmo: “Por favor, imploro, não me ofenda perguntando se esta história ocorreu. Eu a estou oferecendo para que você faça com que ocorra. Não lhe peço que descreva a chuva naquela noite da visita do arcanjo: exijo que se molhe. Decida-se senhor escritor, e pelo menos por uma vez seja você a flor que cheira em vez de ser o cronista que perfuma. Pouca graça tem escrever o que se vive. O desafio está em viver o que se escreve”.

Eduardo Galeano1 os imorríveisGaleano tinha aceitado por longo tempo esse desafio e por essa razão era possível entrar com ele em todos os labirintos deste nosso continente e molharmos com as chuvas e tremer nos furações, e dançar quando a realidade circundante queira instalar-nos a cultura da morte. E poderíamos falar dos temas mais candentes que nos rodeiam e em como milhões de seres ignorados resistem simplesmente pelas “magias soltas da vida”.

Os temas que escolheu são variados e lemos como quem bebe água fresca que sai de uma cascata no meio da selva. Lemos com sede, porque como a água que nos acalma e curiosamente nos protege. Era comovedora a ternura que aparecia em seu olhar quando falava dos países da América Latina, de Bolívia, de Guatemala, de Nicarágua, onde em outros momentos compartilhamos uma viagem inesquecível à Costa Atlântica onde ocorreram uma infinidade de situações que superavam toda ficção ou quando pode “olhar vendo” a realidade do que significava o presidente Hugo Chávez para seu país e a decepção que o golpeou ao ver velhos amigos socialistas que em seu momento foram personagens políticas da esquerda venezuelana, chegando a um encontro em um hotel de Caracas, em luxuosos carros dos grandes empresários a quem defendiam. Algo incompreensível para um escritor como Galeano que ademais – e fui testemunha disso- disse a eles abertamente.

Em uma das várias entrevistas que pude fazer-lhe no período do aparente “esplendor” neoliberal e da globalização em nosso continente, ele admitia que o mundo nunca tinha sido tão desigual. “É um paradoxo terrível que retrata o fim do século (XX) de maneira não muito amável, em que nos obrigam a pensar todos igualmente, a vestir igual, a comer as mesmas coisas. Inclusive tomaram o lugar das comidas regionais. Eu creio que devemos ser favoráveis a autodeterminação das comidas, como em tudo, porque as comidas locais são uma as energias culturais mais poderosos que os países possuem )…) nunca os pobre foram tão pobres e nunca os náufragos ficaram tão abandonados. Nunca tínhamos visto esta homogeneização atroz que tem a televisão como principal protagonista. A grande uniformizadora de costumes é a televisão que nos leva a não pensar com nossa própria cabeça, a não sentir e nos torna incapazes de caminhar com nossas próprias pernas. Não estou confundindo o punhal com o assassino, a televisão é um instrumento, mas, tal como funciona e a serviço de quem funciona, cumpre esse papel”.

Tão transparente eram seus escritos como quando falava diante de públicos os mais diversos condenando a hipocrisia que era o “estabelecer a uniformidade em nome da diversidade”. E nesse mesmo contexto asseverava que em nome da luta contra o dogmatismo se instalava o paradoxo de impor o pior dos dogmatismos, que é o dogmatismo de mercado. “Agora há como que uma onda universal de luta contra os fundamentalismos com a que se justificam os gastos com armamentos, quando já ficaram sem inimigos…. Já não há inimigo à vista e se fabricam novos: o mais poderoso é o fundamentalismo islâmico, porém não dizem que, ainda mais poderoso, é o fundamentalismo dos tecnocratas do Fundo Monetário Internacional, do Banco Mundial, que impõem uma receita econômica obrigatória aos países do sul, dentro dos estreitíssimos limites do que é a idolatria do mercado. Uma concepção da economia e da vida que coloca as mercadorias por cima das pessoas, confunde qualidade de vida com quantidade de coisas e nega todos os valores ao que não tem preço, num mundo em que – como dizia o poeta Machado= qualquer néscio confunde valor e preço”.

Sobre os aspectos perversos de um sistema que como ele mesmo analisava “assalta e rouba as palavras” pensava que tudo isto leva a valorizar o sentido que tem a aventura de escrever, “devolver às palavras o sentido que perderam, manipuladas como estão por um sistema que as utilizam para negá-las. Há uma lição que o mundo ignora e que tem sido dada a todos, pelos índios guaranis na hora em que criaram sua linguagem. No idioma guarani, palavra e alma se diz da mesma maneira. Ha um som “nhe’e, que significa palavra e alma ao mesmo tempo. Nesse sistema desalmado que conseguiu a quase unanimidade universal em nome da luta contra o materialismo –que é o mais materialista dos sistemas que a humanidade conheceu- a palavra foi e continua manipulada com propósitos comerciais ou de engano político. Seu uso e abuso trai a alma. Ou seja, que esta identidade entre a palavra e a alma se rompe todos os dias, sofre suas traições”.

Galeano sempre tinha respostas e ainda que seu livro Las venas abiertas de América Latina seja o mais conhecido no mundo, admitia que cada escritor escreve em realidade um só livro e o vai modificando, renovando, “revivendo” ao mesmo tempo “que a vida vive e o escritor continua escrevendo”. Perguntei-lhe o que era para ele Las palavras andantes, um livro de uma textura tão poética.

“Eu creio que esse livro é um disparate que provem da imaginação coletiva. Muitos dos relatos foram recolhidos nos caminhos por onde andei pela América, e outros são produto da imaginação. Porém, tanto num caso como no outro, eu crio que o que o que o livro expressa é uma porfiada fé do autor num fato humano fundamental, que é o direito de sonhar e que não está na Carta das Nações Unidas de 1948, a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Há tantos direitos, mas entre eles não figura o direito de sonhar, que é um direito fundamental, sem o qual a pobre esperança morreria de fome. Se o sonho não nos permitisse antecipar um mundo diferente, se a fantasia não tornasse possível essa capacidade pouco milagroso que o bicho humano tem de fixar o olhar para além da infâmia, no que poderíamos acreditar?, o que poderíamos esperar? O que poderíamos amar? Porque, no fundo, a gente ama o mundo a partir da certeza de que este mundo, triste mundo convertido as vezes em campo de concentração, contem outro mundo possível. Esse mundo possível que hoje estamos vendo aflorar” na América Latina.

Tomo suas palavras andantes: “Sinto que somos gotas de alguns dos tantos rios que sobrevivem à constante destruição pela mão do homem, que insiste em destruir o paraíso em que pode viver. Somos como um vento que não morre quando a vida se acaba. E por isso não creio em outra imortalidade mais que essa, porque estou seguro de que a gente sobrevive na memória e nos atos dos demais”.

* Original de La Jornada. Stella Calloni é a mais premiada das jornalistas argentinas e colaboradora de Diálogos do Sul.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Stella Calloni Atuou como correspondente de guerra em países da América Central e África do Norte. Já entrevistou diferentes chefes de Estado, como Fidel Castro, Hugo Chávez, Evo Morales, Luiz Inácio Lula da Silva, Rafael Correa, Daniel Ortega, Salvador Allende, etc.

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