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Educação arrasada em todos os sentidos: há que recorrer aos mestres para as soluções

Assim como na década de 1930, é preciso envolver as mentes através da educação no projeto de país. Educação voltada a repensar o país, a reconstruir o estado nacional, pensar a democracia necessária, reconquistar a soberania.
Paulo Cannabrava Filho
Diálogos do Sul Global
São Paulo (SP)

Tradução:

O baiano Anísio Teixeira e o mineiro Darcy Ribeiro se completavam. Juntos traçaram os rumos para a educação no Brasil como projeto para o desenvolvimento. A eles se junta o pernambucano Paulo Freire. Eles são referência mundial em educação.

Décadas de abandono da educação, mais os quatro anos de destruição do sistema, chegamos a uma situação de caos. O que fazer? 

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Saídas para o caos em que foi mergulhada a educação há, está tudo nas obras desse trio de gênios.

Anísio e Darcy estavam juntos no Conselho Nacional de Educação quando inventaram a Universidade Nacional de Brasília (UNB). O presidente João Marques Goulart (1919/1976), Jango, o chamavam, convocou Darcy Ribeiro (1922-1997) para ser o chefe da Casa Civil da Presidência da República, sem chance de recusar, Anísio ficou de reitor na Universidade pensada para ser modelo para o ensino superior no país. Universidade criada para pensar o país.

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Paulo Reglus Neves Freire (1921-1997) estava na Zona da Mata Pernambucana trabalhando no Movimento de Educação de Base. O Meb, projeto de alfabetização de adultos que empolgou setores da juventude: todo mundo queria ir alfabetizar. Os Centros Populares de Cultura – CPC da UNE foram criados com a intenção de fazer ação cultural junto com os marginalizados.

Alfabetizando Paulo Freire criou uma pedagogia, mais que uma pedagogia um método. No governo Darcy transformou o projeto de alfabetização e o método em política pública de Estado e colocou, claro, Paulo para dirigir. O golpe dos militares, de 1964, pôs tudo a perder, os três tiveram que partir para o exílio.

Anísio Teixeira (1900-1971) é uma figura singular, sua extensa obra teórica e prática requer muito espaço. Para se ter uma ideia, eu digo com todas as letras, Anísio inventou a Escola Pública para o Brasil e, não fosse Anísio, não teríamos nem Darcy nem Freire. Convivi com Freire e com Darcy que se vivos fossem endossariam minha assertiva.

Na República Velha, educação existia somente para os filhos dos oligarcas. Para o resto a má escola para manter marginalidade e perpetuar a hegemonia. 

Nada havia além da má escola. 

Assim como na década de 1930, é preciso envolver as mentes através da educação no projeto de país. Educação voltada a repensar o país, a reconstruir o estado nacional, pensar a democracia necessária, reconquistar a soberania.

Matheus Alves
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Revolução de 30

A Revolução de 30 veio para mudar a ordem oligárquica e dar voz às demais classes emergentes. A Revolução veio com projeto de criar condições para ingressar na era industrial e tecnológica e o único caminho era a educação. Vargas semeou o país de escolas: escola normal para formar professoras, escolas primárias e secundárias, escola técnicas para formar técnico de nível médio, universidades federais em cada estado.

Anísio, em 1932 trabalhava na Secretaria de Educação do Distrito Federal, o Rio de Janeiro era  capital, quando criou a Universidade Federal do Rio de Janeiro e lançou o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova. Nova era a palavra chave, que incitava a gerar a nova escola e o novo homem para a sociedade industrial.

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Os Pioneiros previam um sistema completo de educação para atender as necessidades dessa nova era que se iniciava, a das grandes transformações. Propunham o ensino universal, obrigatório e gratuito até os 18 anos, financiado pelo Estado e por fundos gerados envolvendo sociedade civil. O manifesto está disponível em PDF na web, vale a pena: https://download.inep.gov.br/download/70Anos/Manifesto_dos_Pioneiros_Educacao_Nova.pdf

O conceito de escola nova não satisfazia. Anísio foi convidado para assumir a Secretaria da Educação na Bahia, aceitou e foi desenvolver na prática o que entendia como conceito para educação integral, mais que integral, progressiva. Em 1936 criou na Bahia o Centro Educacional Carneiro Ribeiro, a primeira Escola Parque, a fonte para o desenvolvimento de teorias associadas à prática. Tudo está documentado.

A escola pública, universal e laica, gratuita e pautada pela liberdade. No complexo educacional funcionavam quatro escolas classe de mil alunos cada, integradas à escola parque com capacidade para quatro mil alunos. O conceito elogiado pela Unesco que o recomenda para ser adotado como política pública por países que pretendem se desenvolver. 

Anos mais tarde inspirou o projeto adotado por Darcy Ribeiro e Leonel Brizola com a criação dos Cieps no estado do Rio de Janeiro e anos depois por Marta Suplicy, com os Ceus, no município de São Paulo. 

Mudam os conceitos didáticos e pedagógicos. 

Não se trata mais de aprender, memorizar, sim de compreender e se expressar. 

Quantas formas de se expressar existem? 

Para isso, a escola e os professores têm que oferecer os meios para que se expressem, seja através da fotografia, da pintura ou da dança, da música ou das letras, ou através das novas tecnologias cibernéticas. 

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Educar não é ensinar matemática ou história, é desenvolver capacidades e o espírito crítico. Nas palavras de Freire, desenvolver o olhar crítico e criativo da realidade. A escola com liberdade, de Anísio, tem que ser também libertadora, como reza a Pedagogia do Oprimido. A criança e o adulto aprendem por experiência trabalhando em seu universo próprio.

Na construção de Brasília, o arquiteto e o urbanista tiveram que refletir para colocar para fazer funcionar no concreto armado os conceitos de Anísio. Assim, para cada superquadra foi arquitetada uma Escola Parque. Nela o aluno permanece 9 horas, dois períodos de 4 horas. 

A criança entra na escola, assiste às aulas das disciplinas regulamentares, tem educação física, oferece arte, oficinas culturais, assistência médica e dentária, café da manhã, almoço, lanche e janta, entrega a criança pra mãe limpinho pra ser curtido e dormir.

Fernando Henrique Cardoso abominou o projeto argumentando ser caro demais? Em debate público, Brizola lhe questionou: Cara mesmo é a ignorância. Olha o que custa para este país a ignorância não é brincadeira. A ignorância permeada nas elites tem levado o país a essa situação. Vale a pena ver, é curtinho trecho do debate eleitoral de 1989. 


Então é isso. Por considerar cara a educação, os neoliberais deixaram de investir. 

O país, assim como a educação e a saúde, está à deriva. 

A ideia de remodelar o país pela educação está dada nos projetos e nas ideias de nossos próceres, os três gênios da educação. Está dada também pelos técnicos e intelectuais formados na escola desses próceres. Eu sou um deles. O Jornalismo que faço, é documental, educa e instiga o espírito crítico,

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Em 1934, como diretor da Instrução Pública no Rio de Janeiro, então capital do país, Anísio publicou o livro Educação progressiva: uma introdução à filosofia da educação em que, profeticamente vaticinava: 

“Vai, porém, muito adiantada a marcha da humanidade, nas suas adaptações e readaptações sucessivas. […] As mudanças são tão aceleradas que, se a distância e a diferença de ritmo entre a escola e a sociedade permanecessem as mesmas de outros tempos, ao terminarmos a nossa educação escolar, seria necessário começar-lá de novo, tão longe, tão adiante já se acharia a vida”.  

Tão longe e tão distante foi parar a escola e a vida por obra e graça de governos neoliberais que desprezam a educação. Tão árduo e tão longo será o caminho para restabelecer a escola, mais que tudo, recuperar as pessoas, recuperar o atraso das pessoas.

A má escola gerou 70% da população analfabeta funcional. Essa é a realidade hoje a ser superada. Elites incompetentes, como assinalou Leonel Brizola, levaram o país a essa situação. 

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Situação de descalabro, com Doutores e generais que nunca leram um livro. Meninos e meninas com fome não conseguem estudar. O diagnóstico está na mídia, está no relatório da equipe de transição. Tentemos ser o mais propositivo.

Como reverter do descalabro, da ruína, para o progresso, para o desenvolvimento, eis a questão crucial da atualidade e, só há um caminho: o da educação.

Educação e cultura permeando tudo.  

Superar o analfabetismo funcional, a ignorância, colocando todo mundo de novo na escola, na boa escola. Não precisa ser a escola da esquina, mas a escola que funciona em todos os lugares, em todas as horas, com todos empenhados em superar o atraso.

É fundamental recuperar os espaços de memória e criar novos, pois sem memória não há história e povo sem história é povo sem futuro.

Assim como na década de 1930, é preciso envolver as mentes através da educação no projeto de país. Educação voltada a repensar o país, a reconstruir o estado nacional, pensar a democracia necessária, reconquistar a soberania. 

Naquele Brasil de Anísio, o mundo novo que se descortinava era o projeto de incluir o país na modernidade através do desenvolvimento, tendo a indústria como locomotiva. Hoje a situação se assemelha inclusive dada a necessidade de reindustrializar o país. O que difere, sem nos separar, são as novas tecnologias, a necessidade de estar preparado para um mundo novo fundado na cibernética, na inteligência artificial. 

Paulo Cannabrava Filho, jornalista editor da Diálogos do Sul e escritor.
É autor de uma vintena de livros em vários idiomas, destacamos as seguintes produções:
• A Nova Roma – Como os Estados Unidos se transformam numa Washington Imperial através da exploração da fé religiosa – Appris Editora.
Resistência e Anistia – A História contada por seus protagonistas – Alameda Editorial
• Governabilidade Impossível – Reflexões sobre a partidocracia brasileira – Alameda Editora
No Olho do Furacão, América Latina nos anos 1960-70 – Cortez Editora


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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.

Paulo Cannabrava Filho Iniciou a carreira como repórter no jornal O Tempo, em 1957. Quatro anos depois, integrou a primeira equipe de correspondentes da Agência Prensa Latina. Hoje dirige a revista eletrônica Diálogos do Sul, inspirada no projeto Cadernos do Terceiro Mundo.

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