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Educação: Diálogo à la tucano é porrete abençoado no lombo da juventude

Revista Diálogos do Sul

Tradução:

A lição é clara: lugar de jovem que quer estudar é na cadeia.

Monica Severo*

IMG_2403Os amigos do Diálogos já haviam pedido que eu escrevesse algumas linhas sobre a Ocupação das escolas públicas paulistas pelos estudantes. Sou professora de filosofia na EE Caetano de Campos – Aclimação, ocupada legitimamente pelos alunos desde o dia 18 de novembro.

Não tenho encontrado tempo para permanecer na frente do computador. É lindo ver humanos tão jovens lidando com elementos tão complexos de forma tão altiva, organizada e madura. Eles têm dado conta deste recado e vou tentar dividir algumas considerações, sentidas no calor da ação coletiva.

Iniciemos pelas apresentações. Em um grupo de aproximadamente trinta professores, apoiamos de diferentes formas a ação estudantil. Há imensa diversidade neste grupo. Poucos professores têm filiação partidária, como a maioria dos brasileiros. Sou uma das exceções, filiada ao Partido Pátria Livre (PPL). Há colegas que votaram nos tucanos e lêem a Veja. Alguns trazem mantimentos, outros colaboram com algum dinheiro. Mais belo é a vigília que mantemos, 24 horas por dia, com atenção especial no período noturno. Cai a noite e nos postamos, olhos na rua. Dentro da escola não há o que vigiar.

Mais que concordarmos nas avaliações sobre os governos estadual e federal, nos somamos na verdade humana de que não é possível permitirmos que nossa juventude seja calada no porrete. Que os estudantes com quem convivemos sejam presos por clamar por educação pública e de qualidade. Que sejam criminalizados por se somarem às vozes de Zumbi, de Ganga Zumba, de João Cândido, de Luísa Mahin, de Herzog e de todos aqueles que se levantaram contra a tirania e a opressão. A história de Edson Luís não pode se repetir, não permitiremos. Este é o espírito que anima a diversidade docente caetanista que luta. Como Zuzu, buscando incansável a verdade ensinada por seu Stuart, vigiamos e aprendemos.

IMG_2548No sábado, um jovem de dezessete anos estranhou o comportamento de alguém que passava. Ressabiado e sabido, ele seguiu o suspeito. Ao dobrar a esquina, o cidadão entrou num carro de polícia. É isso que o governo tucano ensina nestes dias: cuidado, estamos à espreita, disfarçados, não obedecemos regras, não há limites. Com o mesmo espírito educativo, no dia seguinte, o chefe de gabinete do secretário de Educação reuniu seus cães de guarda, como já tão bem os caracterizava Sartre em seu Em defesa dos Intelectuais. Nas palavras de Franz Fanon em Os condenados da terra, estes atores a serviço da opressão são “indolentes natos, mentirosos natos, ladrões natos, criminosos natos”, atuando na divulgação de um discurso oficial “cientificamente estabelecido” na defesa da submissão do homem pelo homem. Os opressores não poderiam prescindir destes sórdidos atores coadjuvantes. É preciso passar um verniz de racionalidade, tornar palatável o que é pusilânime. O esmagamento de muitos por uns poucos tem que parecer ser outra coisa, é a farsa que se repete na história da dominação. Na reunião domingueira, após gabar-se de contarem com a bênção da Sé, utilizam expressões como “guerra”, “desqualificar o movimento” e saúdam a presença de militantes do PSDB na afinada orquestra. Filiação partidária que é do agrado do opressor deve ser festejada. Quando a filiação partidária é libertária, deve ser criminalizada. Como não poderia faltar a nenhuma vilania, as botas da polícia servil estão enceradas e prontas para chutar. As lições são claras, não aprende quem não quer.

Na contramão do convescote governamental, o sentimento de pertencimento dos estudantes à escola é fortalecido. È motivo de grande satisfação vê-los tratarem-se como uma família que recebe amigos, que tem que mostrar a casa em ordem, que deve respeitar os visitantes (mantendo a atenção e presença nas oficinas, por exemplo). Tudo o que dizemos diariamente, em nossas casas e em nossas aulas, vivificado na prática por homens e mulheres que se fazem na Ocupação. É isso mesmo, ontem eles eram crianças, hoje cresceram. Foi isso que uma jovem ensinou à dirigente regional de ensino, na ultima sexta-feira. Aqui as lições também são bem claras.

Na sexta-feira (30), já adiantando a estratégia explicitada no domingo, a dirigente regional esteve reunida com os estudantes. Emoção é a melhor palavra para descrever o que vivi. O primeiro ato foi a recusa em enviar somente o presidente do Grêmio para a reunião com a Diretoria de Ensino (DE). Enviaram uma carta convidando-os a vir até a Ocupação, convite que foi aceito. Na chegada da dirigente, que aguardou do lado de fora, em pé, o segundo ato foi o hasteamento da bela faixa da Ocupação, pendurada lá nas alturas. Depois, a cenográfica organização da roda de conversa, do lado de dentro do portão, mas do lado de fora do prédio. Os estudantes carregaram cadeiras e insistiam para que nenhum professor ficasse em pé. Cuidado, carinho e respeito, muito respeito.

IMG_2804Somente as lições desta sexta-feira encheriam muitas páginas, poderiam ser encenadas em muitos palcos, tão prenhe de significados que não creio ter podido registrá-los todos. Encenando diálogo, a dirigente repetiu algumas pérolas do saber. Ignorando completamente que a tomada de consciência se dá dia a dia, paulatinamente, questionou os estudantes por não terem avisado antes de suas posições. Como se fosse possível a eles adivinharem os ataques antes destes acontecerem. Numa prática bastante covarde, tentou transformar a liderança estudantil em uma espécie de traidora dos anseios coletivos. “Seu representante esteve lá, por que ele não disse isso?”, “por que motivo vocês nunca nos procuraram antes?”. É tão simples, só os tucanos não sabem.

Os estudantes forjaram sua consciência no embate ocorrido. Eles foram a reuniões na DE, em que deviam ouvir muito e dar respostas rápidas, sem tempo para reflexão ou debate com a comunidade. Receberam brindes e se ofenderam com as miçangas e espelhinhos. Foram orientados a “escolher um lado para se darem bem”. E escolheram a luta. Mas eles não nasceram com estas informações, com este saber. Em algum momento, distribuí sozinha materiais contra a reorganização. Penso que meu gesto também os influenciou. As palavras e ações de muitos outros professores, com posições diferentes, também entraram no cômputo geral da formação da consciência, assim como os exemplos e encontros com jovens de outras escolas. Os gestores tucanos não sabem, mas a juventude se fez militante vivendo a vida, fazendo belas escolhas nas condições postas historicamente, condições que não foram por eles escolhidas. Além disso, temos as lições daqueles que nos precederam no tempo. Tiradentes daria mil vidas, caso as tivesse, pela liberdade de nossa pátria. E alguém pode crer em uma pátria de homens livres em que se fecham e sucateiam escolas? Uma pátria que espanca os jovens que querem participar do planejamento da política educacional pode ser livre? Essas lições ecoam pelas paredes das escolas Ocupadas.

Etienne de La Boétie, em seu Discurso sobre a Servidão Voluntária, afirmava que “uma coisa é certa, porém: os homens, enquanto neles houver algo de humano, só se deixam subjugar se foram forçados ou enganados”. A juventude está de olhos abertos, em luta contra a subjugação.

*Colaboradora de Diálogos do Sul – São Paulo, 1 de dezembro de 2015

Os estudantes, ao contrário, abrem a escola, recebem as famílias, recebem apoiadores como a Deputada Leci Brandão (comissão de Educação da ALESP), o Prefeito Regional da Sé, artistas, professores universitários, cineastas e diversos outros apoiadores.

Em entrevista concedida ao Instituto Humanitas Usisinos, o teólogo Leonardo Boff, professor emérito de Ética, Filosofia da Religião e Ecologia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ, afirmou que “nosso desafio não é o de criar cristãos, mas de criar pessoas honestas, humanas, solidárias, compassivas, respeitosas da natureza dos outros. Se conseguirmos isso é o sonho de Jesus realizado”.

http://www.ihu.unisinos.br/entrevistas/514475-deus-acredita-em-todos-os-seres-humanos-entrevista-especial-com-leonardo-boff

 


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
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