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Egito, um ano de farsa democrática

Revista Diálogos do Sul

Tradução:

Gioseppe Acconcia
Gioseppe Acconcia

Gioseppe Acconcia entrevista a Samir Amin. O filósofo e economista egípcio fala da campanha promovida pelo “Tamarrod” (movimento juvenil, Rebelião, em árabe). O roubo da sokut (títulos de propriedade), o apoio a Israel e o êxito das mobilizações contra o presidente e a farsa democrática no Egito.

Há um ano Mohammed Morsi era nomeado sucessor de Mubarak. Porém, o primeiro aniversário da vitória da Irmandade Muçulmana foi obscurecido pelos sangrentos enfrentamentos ocorridos em todo o país. Chamamos por telefone a Samir Amín, filósofo e economista, diretor do Fórum do Terceiro Mundo, com sede em Dakar.

Os egípcios estão pedindo a gritos a demissão de Morsi.

A campanha promovida pelo Tamarrod é uma iniciativa extraordinária, milhões de firmas levadas pela reflexão política: uma coisa enorme totalmente ignorada pelos meios de comunicação internacionais. É como se a maioria do eleitorado não tivesse valor. Os Irmãos Muçulmanos exercem o poder como se tivessem conquistado 100% dos votos, colocando em todas as áreas seus homens. Esta ocupação não deixa espaço para a oposição, nem para os técnicos, que também ocupavam cargos no tempo de Mubarak

Tudo isso durante a crise econômica mais grave da última década.

 Não é só uma crise econômica. Os islamitas ultra-liberais dão as mesmas respostas à crise através da imposição de uma camarilha de capitalistas burgueses, em substituição dos amigos de Mubarak com os comerciantes super reacionários. Eles querem vender ativos públicos e são odiados por todos porque perseguem as mesmas políticas de seus predecessores.

Talvez o pior seja, por exemplo, as leis sobre emissão de bônus islâmicos, os sukuk (1)

É um furto dar a preços irrisórios bens que valem milhões. Não se trata tampouco de privatização, é uma fraude.

Samir Amin
Samir Amin

Regressemos ao início deste ano. Morsi venceu depois de oito dias de incerteza e com a eliminação do nasserista Sabbahi Nasserist no primeiro turno. Houve manipulação dos votos?

Foi uma fraude eleitoral massiva. Hamdin Sabbahi tinha que participar do segundo turno mas, a embaixada dos EUA não quis. Observadores europeus escutaram os assessores da embaixada dos Estados Unidos e fecharam os olhos. Por outro lado, os cinco milhões de votos para Sabbahi foram brilhantes e motivados. Os cinco milhões para Morsi foram sem consciência política: votos que se pode comprar com a carne e o leite.

Porém a repressão mais dura contra a praça chegou com o decreto de novembro do ano passado, que ampliou os poderes presidenciais.

Morsi no início, durante umas poucos semanas, demagogicamente prometeu escutar os manifestantes. Logo aclarou que detrás dele estavam os países do Golfo. Converteu-se em executor.

Assim, até o apoio histórico ao povo palestino se estancou?

A Irmandade Muçulmana apoia Israel, como os países do Golfo e Qatar. Sempre propuseram um discurso antissionista, mas na realidade estão em conivência com Israel. Comprometidos numa mentira sistemática. O mesmo que o emir de Qatar, por exemplo, que diz uma coisa e faz o contrário, em ausência total da opinião pública. Não é só isso, Egiito agora é cumplice da pior oposição na Síria, tal como os piores ocidentais. Com o fornecimento de armas aos rebeldes na Síria estão apoiando o que há de pior.

Por isso Morsi apoiou a zona de livre comércio no Sinai, que favorece as relações econômicas com Israel.

Trata-se de uma grande catástrofe. Os efeitos da nova zona de livre comercio não será a industrialização da região mas sim uma fraude colossal. Isto fortalecerá as pequenas máfias e o desmantelamento dos recursos públicos. Afinal a Irmandade aceita todas as condições do Fundo Monetário Internacional e o empréstimo previsto será concedido apesar da corrupção e os escândalos. 

A ausência de lucidez política se manifesta em uma constituição elaborada pela maioria da Irmandade Muçulmana em dezembro do ano passado?

Uma ditadura da maioria. Veio com os juízes, não obstante, uma contestação sem precedentes, pelo que se opuseram à ratificação dos resultados do referendum constitucional. O propósito de Liberdade a Justiça (partido da Irmandade) é o de construir uma teocracia no estilo iraniano. Muitos  políticos islâmicos querem criar um Conselho Constitucional com ulemás (professores da escola islâmica) camuflado por Al Azhaar (máxima instituição sunita) que controle o executivo, o parlamento e o poder judiciário.

Algo mudou para melhor neste ano?

O lumpem proletariado, facilmente manobrável, não recebeu nada apesar disso. Enquanto isso continua a ambiguidade da divisão de poderes com o exército que permanece atraz da cortina pronto para intervir diretamente. O exército é uma classe corrupta, garantido pela ajuda dos estadunidenses, integrada por segmentos de diferentes classes, dividida internamente por muitas correntes políticas, algumas próxima da Irmandade Muçulmana e dos salafitas. Porém se houvesse eleições normais, depois de um período democrático de preparação, a Irmandade Muçulmana seria derrotada. Se nada mudar, em outubro terá lugar para um clima mais repressivo ainda, e o voto será manipulado como nas anteriores.

http://comunitarius.blogspot.com.br/2013/07/egitto-samir-amin-un-anno-di-farsa.html

* Sukuk – Obrigação monetária. São certificados de investimento de acordo com a Sharia, a lei islâmica tradicional, que proíbe o empréstimo com juros. Pode-se considerar como equivalente das obrigações para a finança islâmica. A diferença da obrigação, é que o sukuk deve corresponder a um projeto determinado – um único projeto imobiliário ou de infraestrutura. Portanto, enquanto uma obrigação convencional é uma promessa de pagamento de um débito, o sukuk constitui a propriedade de uma quota-parte de um débito (sukuk murabaha) de um título (sukuk al ijara), de um projeto (sukuk al istisna) de um negócio (sukuk al musharaka) ou de um investimento (sukuk al istithmar).  O lucro corresponde à renda gerada pelo projeto. Do ponto de vista jurídico pode-se considerar como um título de propriedade de um ativo que gera fluxo financeiro (da wikipedia)

 

 


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
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