Pesquisar
Pesquisar

Eleições e indocumentados nos Estados Unidos

Ilka Oliva Corado

Tradução:

Em qualquer país do mundo, em qualquer circunstância, os migrantes indocumentados sempre são as maiores vítimas do sistema. Invisíveis como pessoas e visíveis como espólio.

Ilka Oliva Corado* 

5932808716_8fa46264a8_bDos migrantes indocumentados se aproveita o país de origem que os obriga a migrar;  em troca dessa ingratidão recebe as remessas que eles enviam e que são as que mantêm o país à tona. Aproveita-se o país de traslado que desrespeita seus direitos humanos e a liberdade de ir e vir. São vítimas de sequestros, torturas e desaparecimentos. E, por último, o país de chegada também se aproveita ao se converter eventualmente no país de residência.  

Um exemplo claro disto é a crise que se está sendo vivida na Europa que, em uma mostra de desumanidade lhes está fechando as portas e abandonando-os à sua sorte. Das migrações forçadas na América Latina se destacam as do triângulo norte da América Central e do México tratando de chegar aos Estados Unidos. É uma crise perene por causa da ingerência estadunidense com a Operação Condor e os governos neoliberais que surgiram depois disso. Na atualidade, é um sistema que os marginaliza e oprime. Governos corruptos e de caráter lacaio.
Nos Estados Unidos, os imigrantes indocumentados são indispensáveis como mão de obra barata, mas excluídos como seres humanos. Negam-lhes os benefícios trabalhistas e há abuso nos direitos humanos. Em tempo de eleições presidenciais, cobram notoriedade e se convertem nos despojos de guerra mais cobiçados pelo Partido Democrata e Republicano. Constantemente aparecem nos debates, entrevistas e comícios. Uns a favor, outros contra: de palavra porque nas ações ambos os partidos abusam deles e se beneficiam dessa modalidade de escravidão. O Democrata não é um partido de esquerda e muito menos socialista como muitos acreditam. É tão recalcitrante como o Republicano, e basta ver o “legado” deixado por Obama, que bem faria em devolver o Nobel da Paz que lhe deram. 
Os meios de comunicação afins ao sistema nos querem fazer ver as eleições desde a perspectiva que lhes convém. Por um lado encobrir absolutamente tudo a respeito de Donald Trump. Trump como candidato político é uma criação dos meios de comunicação mais do que dos milionários que o apoiam. Os meios editam, sobem de tom, tornam-no popular, lançam-no  para as massas e o promovem. Poderíamos dizer que é para favorecer Hillary Clinton, e talvez esse seja o jogo, mas nunca imaginaram que com Trump despertariam o ódio racial e a xenofobia que sempre existiu na sociedade anglo. E não seriam centenas, mas milhares que o apoiam. Olhando por outro ângulo, era assim a jogada: criar uma onda de reação anti-Trump, não cobrir Bernie Sanders e dirigir as massas para Hillary Clinton. 
No começo, diziam que era um louco. Não, Trump não é um louco. Louco e sonhador poderia ser Bernie Sanders, mas Trump é um fanático extremista como Ted Cruz e Marco Rubio. Sanders não é a excelência, não é o candidato ideal, mas é o que mais se aproxima da imagem de um governo que se abstenha de imiscuir-se em assuntos políticos de outros povos. Isto é: que deixe de invadir territórios e cometer genocídios e crimes de lesa humanidade em nome de sua supremacia caucásica. Além disso, oferece saídas congruentes com a política  interna do país. Sanders é seguido apenas pelos loucos sonhadores que nos Estados Unidos são tão escassos.
É diferente o que está acontecendo com Hillary Clinton que, da mesma forma como Obama foi idealizado por ser negro (por gosto), a ela idealizam por ser mulher. Maneja-se a ideia que esta é a hora de uma mulher. Sim, já é tempo que os Estados Unidos tenham uma presidenta mulher, mas não Hillary Clinton.  As cartas estão marcadas e já se sabe que quem ganhará as eleições será Hillary Clinton. É a candidata proposta pelo sistema e a que o defende de corpo e alma.  A sociedade estadunidense é uma das mais polarizadas do mundo, por causa do sistema capitalista que utiliza o consumismo como sua arma letal. Mantém as pessoas muito entretidas em vaidades como para pensar e atuar politicamente.
Salvo que a juventude reaja e altere o rumo no último momento e vote por Sanders, coisa que é muito difícil que aconteça. O voto não se muda de um dia para outro e as mentes que foram trabalhadas durante anos já estão feitas para um tipo de pensamento fanático, tratando-se propriamente da resposta à midiatização. Neste caso a batuta está em mãos de Hillary Clinton, porque seu esposo foi presidente e pelo papel que ela desempenhou no governo estadunidense durante décadas.
É claro que um fator muito importante foi o descaramento de declarar-se feminista e com isso conquistar milhares de mulheres estadunidenses, (até a própria Dolores Huerta).  Utiliza o feminismo da mesma forma que utiliza a Reforma Migratória e o tema das deportações. Com isso, cresceu em ambos os setores da sociedade. Sanders tem muito mais a dizer, mas os meios não o cobrem. Por quê? Porque suas propostas são contra o sistema e se ele chegar a ser presidente e mantiver sua palavra, muitas coisas mudariam para as maiorias nos Estados Unidos e na política exterior. 
Por sua parte, Trump se declara completamente anti-imigrantes latino-americanos. Não assombra que a Patrulha Fronteiriça tenha declarado seu apoio a ele há alguns dias. A comunidade latino-americana, que é a maior das minorias nos Estados Unidos, é vital para as eleições. Por essa razão, Univisión que é a cadeia mais vista pela comunidade latina nos Estados Unidos  transmite em espanhol o debate democrata. Seus empresários são democratas anti América Latina e anti Cuba. 
Jorge Ramos (que foi um dos moderadores) tinha uma carta na manga e a multidão que seguia o debate por televisão nem se deu conta que a tinham cooptado e da maneira mais fácil. Disse logo de início que sua filha trabalhava na campanha de Hillary Clinton. Jorge Ramos é um jornalista muito querido pela comunidade e sua voz converte as massas em marionetes e as maneja à vontade. Ramos é antiCuba e antigovernos progressistas, é um jornalista que responde ao sistema e o defende. 
Além de o seu comentário ter sido antiético, deu vantagem a Hillary Clinton sobre Sanders. Eu menciono isto neste artigo porque foi manipulação e é preciso denunciar. Hillary Clinton esteve de acordo com a deportação de meninos, meninas e adolescentes que entraram no país no ano passado na chamada crise de crianças que viajavam sem companhia de um adulto. Não é exagero dizer que foi uma crise criada para implementar o Plano Fronteira Sul y o Maya-Chortí, que militariza da fronteira sul dos Estados Unidos até Honduras e que só serviu para que as autoridades migratórias mexicanas desumanizem ainda mais o tratamento aos migrantes em trânsito. 
No debate, Sanders deixou sem fala os moderadores e os espectadores antiCuba quando falou da Operação Condor na região e da ingerência estadunidense não apenas na América Latina, mencionando especificamente Nicarágua e Guatemala.  É contra o bloqueio dos Estados Unidos a Cuba e pede o fechamento de Guantánamo, enquanto que Clinton apoia a ingerência estadunidense na região. Que feminista estaria de acordo com algo assim? Nenhuma que seja realmente feminista.
Cabe ressaltar o papel primordial que desempenhou a denuncia que fez a migrante guatemalteca Lucía Quiej que denunciou as deportações em massa de pais de família. E assim como ela há milhares. Veremos quanto vão aumentar as deportações quando Hillary Clinton ganhar a presidência. Ela representa em sua totalidade a continuidade do sistema; o fato de ser mulher não significa nada, tanto ela como mulher e Obama como negro são afins à opressão.  O panorama mudará nos próximos meses? A sociedade estadunidense despertará e dará uma reviravolta votando por Sanders? Existirá a utopia em um país como Estados Unidos depois de Martin Luther King, Rosa Parks e Malcolm X?  Qual é o futuro para os migrantes indocumentados? Quando despertarão os milhões de indocumentados e farão sentir seu valor humano? 
 
*Colaboradora de Diálogos do Sul em território dos Estados Unidos
 


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Ilka Oliva Corado Nasceu em Comapa, Jutiapa, Guatemala. É imigrante indocumentada em Chicago com mestrado em discriminação e racismo, é escritora e poetisa

LEIA tAMBÉM

Cuba
EUA tiram Cuba de lista sobre terrorismo: decisão é positiva, mas não anula sanções
ONU
Palestina como membro pleno da ONU: entenda os reflexos da resolução aprovada
Crise-drogas-EUA
EUA culpam cartéis do México por crise de drogas entre estadunidenses
Cartão Vermelho para Donald Trump...