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Em 2009, zapatistas afirmaram: Israel opera clássica guerra de conquista, mas Gaza resistirá

“Há em Gaza um exército profissional matando uma população indefesa. Quem, estado em baixo e à esquerda, pode permanecer em silêncio?”, dizem em carta
Frente Zapatista de Liberação Nacional
Diálogos do Sul
Cidade do México

Tradução:

Há quase 15 anos, alertaram sobre o pesadelo em poucas palavras. Foi num viveiro e foi pela voz do falecido subcomandante zapatista Marcos que falaram. Hoje enfrentamos o que está acontecendo em Gaza e não só, e a estas palavras-se somam as do Subcomandante Insurgente Moisés México. Confira:


De plantações e colheitas

Talvez o que vou dizer não seja relevante para o tema central deste mês, ou talvez seja. Há dois dias, no mesmo dia em que nossas palavras se referiam à violência, a inimitável Condoleezza Rice, funcionária do governo dos Estados Unidos, declarou que o que está acontecendo em Gaza era culpa dos palestinos devido à sua natureza violenta.

Os rios subterrâneos que atravessam o mundo podem mudar a geografia, mas cantam a mesma canção. E a canção que agora escutamos é de guerra e dor. Não muito longe daqui, em um lugar chamado Gaza, na Palestina, no Oriente Médio, justamente ao lado, um exército fortemente armado e treinado, o exército do governo israelense, continua sua marcha de morte e destruição.

Os passos que deu são, até agora, os de uma clássica guerra militar de conquista: primeiro, um bombardeio massivo e intenso para destruir pontos militares “nevrálgicos” (como os chamam os manuais militares) e para “abrandar” as fortificações de resistência; depois, um controle estrito da informação: tudo o que se ouve e se vê “no mundo exterior”, ou seja, fora do teatro de operações, deve ser selecionado com critérios militares; agora, intenso fogo de artilharia sobre a infantaria inimiga para proteger o avanço das tropas a novas posições; mais tarde, será o assédio e o cerco para debilitar a guarnição inimiga; depois, o assalto que conquista a posição aniquilando o inimigo, e, finalmente, a “limpeza” de prováveis “ninhos de resistência”.

O manual de guerra militar moderno, com algumas variações e adições, está sendo seguido passo a passo pelas forças militares invasoras. Não sabemos muito sobre isso, e sem dúvida há especialistas no chamado “conflito do Oriente Médio”, mas, a partir deste rincão, temos algo a dizer: segundo fotos de agências de notícias, os pontos “nevrálgicos” destruídos pela aviação do governo israelense são casas, choças e edifícios civis. Não vimos bunkers, quartéis, aeroportos militares ou baterias de artilharia entre os destruídos. Portanto, pensamos, perdão por nossa ignorância, que ou os pilotos têm má pontaria, ou que não há tais pontos militares “nevrálgicos” em Gaza.

Não temos a honra de conhecer a Palestina, mas supomos que nessas casas, choças e edifícios viviam pessoas, homens, mulheres, crianças e anciãos, não soldados. Tampouco vimos fortificações de resistência, só escombros. Vimos o até agora inútil esforço por controlar a informação e os distintos governos do mundo vacilando entre esquivar ou aplaudir a invasão, e uma ONU, inútil há muito tempo, emitindo tíbias notas para a imprensa. Mas espere. Nos ocorreu que talvez, para o governo israelense, esses homens, mulheres, crianças e anciãos são soldados inimigos, e como tais, as choças, casas e edifícios onde moram são quartéis que devem ser destruídos.

Então, sem dúvida, o fogo de artilharia que caiu sobre Gaza esta manhã foi para proteger o avanço da infantaria do Exército israelense desses homens, mulheres, crianças e anciões. E a guarnição inimiga que querem debilitar com o assédio e o cerco que está sendo construído ao redor de Gaza não é outra que a população palestina que vive ali. E o assalto buscará aniquilar essa população. E qualquer homem, mulher, criança ou ancião que consiga escapar, escondendo-se do previsível assalto sangrento, será então “caçado” para que a limpeza esteja completa, e o chefe militar a cargo da operação possa informar a seus superiores, “cumprimos a missão”.

Uma vez mais, perdoe nossa ignorância. Talvez o que estamos dizendo não seja, de fato, relevante ou necessário. E em lugar de repudiar e condenar o crime em curso, como povos indígenas e como guerreiros que somos, deveríamos estar discutindo e tomando uma posição na discussão sobre “sionismo” ou “antissemitismo”, ou se, ao princípio, houve bombas do Hamas. Talvez nosso pensamento seja simples, e nos faltem matizes e anotações sempre necessárias nas análises, mas para nós, zapatistas, em Gaza há um exército profissional matando uma população indefesa. Quem, estado em baixo e à esquerda, pode permanecer em silêncio?

É útil dizer algo? Nossos gritos detêm uma bomba? Nossas palavras salvam a vida de uma criança palestina? Acreditamos que é útil; talvez não detenhamos uma bomba, nem nossas palavras se convertam em um escudo que impeça que essa bala de calibre 5,56 mm ou 9 mm, com as letras “IMI” (“Indústria Militar Israelense”) gravadas na base do cartucho, chegue ao peito de uma criança. Porque talvez nossas palavras, e as de outros no México e no mundo, se convertam primeiro em um murmúrio, depois em uma voz forte, e depois em um grito que seja escutado em Gaza.

Não sabemos vocês, mas nós, os zapatistas do EZLN, sabemos o quanto é importante, em meio à destruição e à morte, escutar palavras de alento. Não sei como explicá-lo, mas resulta que sim, as palavras de longe podem não deter uma bomba, mas são como se abrissem uma fresta na habitação obscura da morte e se filtrasse uma pequena luz. Além disso, o que passará, passará. O governo israelense declarará que acertou um duro golpe ao terrorismo, ocultará a seu povo a magnitude do massacre, os grandes produtores de armas haverão obtido alívio econômico para enfrentar a crise, e a “opinião pública mundial”, essa entidade maleável e sempre complacente, se dedicará a buscar em outra parte. Mas não é só isso. O povo palestino também resistirá e sobreviverá, seguirá lutando e contará com a simpatia dos de baixo por sua causa.

E talvez um menino ou uma menina de Gaza também sobrevivam. Talvez cresçam e com eles, coragem, indignação, raiva. Talvez se convertam em soldados ou combatentes de alguns dos grupos que lutam na Palestina. Talvez enfrentem Israel em combate. Talvez o façam disparando um fuzil. Talvez se imolem com um cinturão de cartuchos de dinamite ao redor da cintura. Talvez depois, lá em cima, escreverão sobre a natureza violenta dos palestinos e farão declarações condenando essa violência, e a discussão sobre o sionismo ou o antissemitismo voltará à tona. E então ninguém perguntará quem plantou o que se está colhendo.

Em nome dos homens, mulheres, crianças e anciãos do Exército Zapatista de Liberação Nacional.

México, 4 de janeiro de 2009.

Ouçam na Voz do Comandante Insurgente Marcos:

Confira o texto em espanhol AQUI.

Comunicado da Frente Zapatista de Liberação Nacional (FZLN)
Subcomandante Insurgente Marcos
Tradução: Beatriz Cannabrava


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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