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Em 2014 a ONU deverá enfrentar conflitos na África e no Oriente Médio

Revista Diálogos do Sul

Tradução:

Thalif Deen*

Na sala de entrevistas da ONU, o secretário-geral, Ban Ki-moon (à esquerda) se dirige aos jornalistas por ocasião do final do ano. Ao seu lado, o porta-voz Martin Nesirky. Foto: UN Photo/Eskinder Debebe
Na sala de entrevistas da ONU, o secretário-geral, Ban Ki-moon (à esquerda) se dirige aos jornalistas por ocasião do final do ano. Ao seu lado, o porta-voz Martin Nesirky. Foto: UN Photo/Eskinder Debebe

Os problemas mais graves que a ONU – Organização das Nações Unidas deverá enfrentar são as guerras civis da Síria e da República Centro-Africana, mas também os conflitos de Mali, da região sudanesa de Darfur, Líbia e Palestina.

Em sua tradicional entrevista de final de ano, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, disse que em 2013 o conflito sírio se “deteriorou além do imaginável”. A guerra civil nesse país já dura três anos, com cem mil mortos e três milhões de refugiados. “O povo da Síria não pode se permitir outro ano, outro mês, nem mesmo outro dia, de brutalidade e destruição”, afirmou Ban.

E 2013 também foi o ano em que a República Centro-Africana “afundou no caos”, disse o secretário-geral. Em março, um golpe de Estado iniciou a guerra civil, que se tornou aberta nas últimas semanas nesse país da África central, e se converteu em “um dos problemas mais graves para a gestão das Nações Unidas”, segundo Ban. “Estou profundamente preocupado pelo perigo de iminentes atrocidades maciças”, ressaltou, apelando às autoridades interinas do país para protegerem a população.

A resolução da crise da Síria está mais distante, já que dois membros permanentes com direito a veto no Conselho de Segurança, Rússia e China, se opõem às sanções contra o regime do presidente Bashar al Assad.

Uma conferência das partes em conflito está prevista para dia 22 de janeiro em Genebra. Contudo, corre o risco de fracassar por questões complexas como quem representará as forças rebeldes nessa reunião, e a decisão de convidar, ou não, Irã e Arábia Saudita, além dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança: Estados Unidos, China, França, Grã-Bretanha e Rússia, mais a Alemanha (P5+1).

O envio de forças francesas e africanas este mês frustrou temporariamente os choques entre soldados governamentais e rebeldes na República Centro-Africana. Mas, como a violência aumenta, espera-se que Ban solicite a conversão da atual Missão Internacional de Apoio à República Centro-Africana em uma força de manutenção da paz da ONU de pleno direito. Mas até agora as Nações Unidas se mostram reticentes a respeito.

Perguntado sobre as lições que pode ter aprendido em seus seis anos no cargo, Ban disse estar “assombrado por ainda existirem tantos problemas sem resolver”.

A quantidade de crises vigentes parece aumentar em comparação com seu primeiro mandato, que começou em janeiro de 2007. Na época, a situação de Darfur era a questão mais séria, afirmou Ban. O conflito na zona oeste do Sudão começou em 2003 entre nômades árabes, com apoio de Cartum, e agricultores indígenas negros.

“Agora há tantos problemas”, disse Ban em referência a Síria, República Centro-Africana e Mali. Neste último país africano eclodiu uma guerra civil após o golpe de Estado de março de 2012. O secretário-geral defendeu uma colaboração internacional. “Ninguém, nenhuma organização, nenhum país, por mais poderoso que seja, por mais recursos que tenha”, pode resolver sem ajuda a atual quantidade de problemas.

“Essa é uma lição muito importante que aprendi, e é por isso que apelo aos Estados membros: por favor, trabalhemos juntos”, afirmou. Porém, ressaltou que “necessitamos também do apoio de muitas organizações regionais e sub-regionais”. No dia 16, várias agências da ONU solicitaram à comunidade internacional US$ 6,5 bilhões para ajuda humanitária a 9,5 milhões de pessoas vítimas da guerra civil na Síria.

A crise síria é “atroz”, descreveram a coordenadora do Socorro de Emergência da ONU, Valeri Amos, e o alto comissariado da ONU para os Refugiados, António Guterres. Jens Laerke, porta-voz e responsável de informação pública do Escritório de Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), disse à IPS que o pedido conjunto de fundos é “o maior da história para uma só emergência”.

“Esperamos que a generosidade demonstrada pelos doadores em anos anteriores se materialize também nesta ocasião. Entretanto, raramente os pedidos de fundos são financiados em 100%”, responde Laerke quando perguntada qual porcentagem dessa ajuda será entregue.

Na entrevista, Ban também apresentou alguns êxitos diplomáticos de 2013. A ONU chegou a um acordo histórico para a destruição do programa de armas químicas da Síria, enquanto a Assembleia Geral adotou o Tratado Internacional sobre o Comércio de Armas, que “concretizou um sonho de longa data”.

Ao mesmo tempo, os Estados acordaram um mapa do caminho para definir a agenda de desenvolvimento posterior a 2015, que incluirá um conjunto de Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), sucessores dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM), cujo prazo vence nesse ano.

Ban acrescentou que a conferência sobre mudança climática realizada em novembro, em Varsóvia, “manteve as negociações em marcha para chegar a um acordo em 2015”.

Em todo Sahel e na África Ocidental, a manutenção da paz e a mediação ajudaram na estabilidade, e o povo de Mali realizou eleições legislativas pacificamente, na semana passada. “O atentado com bombas na cidade de Kidal não nos fará retroceder”, acrescentou Ban. O ataque, atribuído a forças separatistas, causou a morte de dois membros senegaleses da Missão Multidimensional Integrada de Estabilização das Nações Unidas em Mali (Minusma).

O secretário-geral também se referiu ao acordo alcançado em novembro entre os países do P5+1 e o Irã sobre o programa nuclear iraniano. “Espero que este entendimento inicial seja seguido por um acordo global sobre todas as questões pendentes”, afirmou.

Por fim, 2013 será lembrado como o ano em que o mundo se despediu com tristeza e celebrou a vida do ex-presidente da África do Sul, Nelson Mandela. “Não me ocorre outra coisa para desejar para 2014 que não seja ver os governantes do mundo imitarem seu exemplo, honrando suas responsabilidades morais e políticas”, concluiu Ban.

*IPS de Nações Unidas para Diálogos do Sul


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
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