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Em busca do medo e da culpa, religiões apocalípticas praticam tortura física e psicológica há séculos

Como são precisas, eloquentes e atuais as ponderações, os gritos de alerta, sobre as crenças e religiões apocalípticas dos dias de hoje!
Carlos Russo Jr
Espaço Literário Marcel Proust
São Paulo (SP)

Tradução:

“Um retrato do artista quando jovem” é uma obra semiautobiográfica, o “retrato” onde o autor escolheu fixar as impressões da infância, da adolescência e da juventude. Stephen Dedalus, o narrador, é o alter ego de Joyce, que carrega no coração todos os heróis pátrios destroçados pela violência política, assim como o moralismo opressor.

Stephan dedica um imenso ódio à hipocrisia do clero católico, e a denuncia não apenas como conivente com os colonialistas ingleses, mas principalmente pelo medo e culpa que impingem nas pessoas, buscando enredá-las para seu cipoal de dominação psicológica. Nossa análise cobrirá a parcela de “O retrato” em que Stephan participa de seu primeiro “retiro espiritual” no internato jesuíta, onde os padres “tratarão” dos jovens educandos.

No “Retiro Religioso” do jovem Stephan, o terror implantado!

Assim falou o padre superior com todos os adolescentes reunidos na capela do seminário:

“Qual é o significado da palavra retiro espiritual? Um afastamento momentâneo dos cuidados da nossa vida, dos cuidados desse prosaico mundo, de modo a examinarmos a nossa consciência, a refletirmos nos mistérios de nossa santa religião e compreendermos melhor porque estamos nesse mundo. Fomos enviados ao mundo para cumprirmos a vontade de Deus e salvarmos nossas almas imortais”. 

“Existem as quatro verdades derradeiras: morte, julgamento, inferno e paraíso.” 

Como são precisas, eloquentes e atuais as ponderações, os gritos de alerta, sobre as crenças e religiões apocalípticas dos dias de hoje!

Reprodução: Pixabay
O romancista James Joyce abordou diversas vezes o terror imposto pela religião.

A morte e o primeiro julgamento

No primeiro dia o Pregador trouxe a morte e o julgamento para dentro da alma de Stephan, um lento despertar para o desespero. 

A débil claridade do medo se transformou logo em terror do espírito, quando o Pregador derramou o terror sobre os alunos. Ele sentiu o frio da morte lhe tocar as extremidades e subir até o seu coração. Nenhum auxílio, nenhum socorro!

Aquele seu corpo, que tudo dera por ele, estava desde já, na juventude, morrendo. Para a tumba com ele! Fechemo-lo este cadáver dentro de uma caixa de madeira e carreguemo-lo para fora da casa. Empurremo-lo para longe das vistas dos homens, dentro de um buraco bem fundo no chão, para ser pasto dos seus próprios vermes, para ser devorado por ratos gordos e pelas baratas e formigas sempre tão ativas e apressadas.

Stephan já sentia em sua veste a mortuária e, enquanto os amigos ainda estavam lá, a velá-lo em lágrimas, a alma do pecador já estava sendo julgada! E naquele derradeiro momento de consciência, toda a vida terrena passa como um filme pelas vistas da alma, sem tempo de reflexão, apenas de julgamento!

Deus, tanto tempo misericordioso, agora seria justo! Ele que tanta paciência tivera argumentando e concedendo tempo para que a alma pecadora se arrependesse, poupando-a. Mas esse tempo findara.

Tempo houve para gozar e pecar; para zombar de Deus e dos preceitos de sua Igreja, para desafiar os mandamentos e preceitos de sua Majestade, para tapar os olhos dos homens seus companheiros, cometendo pecado após pecado, e escondendo sua corrupção aos próprios olhos dos homens. 

Agora chegara a vez de Deus. E ele não poderia ser enganado e nem ter os olhos fechados!

Ao terror da morte, somava-se um ainda maior: o temor de um Deus do castigo!

Todos os pecados sairiam de seus esconderijos, até mesmo os mais degradantes, mesmo para a nossa pobre natureza corrupta. Ele recompensaria os justos e puniria os culpados. E nada mais que uma fração infinitesimal de segundos bastaria para o julgamento da alma de um homem!

Num instante após a morte, a alma era pesada na balança, ao final do qual ou ela passaria para a morada da felicidade ou para a prisão do purgatório ou, então, seria arremessada, rugindo no inferno.

O Juízo Final

Mas atenção! Não bastava o julgamento imediato “post-mortem”. 

O grande julgamento necessitaria de publicidade, de marketing, e deveria ser exemplar! 

A justiça divina tinha que se vingar aos olhos dos homens, de todos os homens: após o particular viria o julgamento geral. 

Para tanto haveria um Dia D, o dia do Juízo Final que chegaria ao final dos tempos!

O arcanjo Miguel, príncipe da corte celestial, gendarme pretoriano imbatível e feroz, aparecia glorioso e terrível contra o firmamento. Com um pé no mar e outro na terra fazia ecoar sua brônzea trombeta, despertando os mortos e extinguindo os tempos, os que foram e os que são, mas que jamais serão.

Foram três toques, não mais; ao último as almas de toda a humanidade se apinham no vale de Josafat, ricos e pobres, cultos e ignorantes, bons e culpados. São as almas de todos os seres humanos que um dia existiram, todos os filhos e filhas de Adão, que se reúnem para esse dia supremo.

E eis que chega o grande Momento; surge aquele que um dia apareceu aos homens como o Bom Pastor, o manso Cordeiro de Deus, o humilde Jesus de Nazaré. 

Mas Ele se transfigurou! Já nada possui de humilde, de humano. Os pobres homens logram vê-lo no alto, acima das nuvens, em todo seu poder e majestade, como um Deus Onipotente, Eterno, Vingador!

Quando Ele fala e sua voz é ouvida até nos mais longínquos recantos da Terra, até mesmo nos abismos sem fundo das catacumbas! 

Juiz Supremo, sua sentença não admite nenhuma apelação ou postergação! Ela chama os justos para sua Direita, ordenando-lhes que entrem para o reino beatífico da felicidade eterna, para eles preparado. 

Aos injustos ele enxotará, com Ira, de sua presença: “Afastai-vos de mim, oh malditos, ide para o fogo eterno preparado pelo demônio e seus anjos”.

A agonia dos pecadores a ninguém arrancará uma só lágrima. O amigo será suprimido dos que o acompanham, os filhos serão tirados de seus pais, os maridos de suas esposas. Os pobres pecadores estendem seus braços para os que lhes eram caros, para os que os aconselhava a seguir a trilha correta quando em vida. Mas já é tarde, muito tarde! Os justos voltam para o lado seus rostos, a visão das almas danadas, que transparece em toda sua horrível feiura, causa-lhes repugnância.

Se a morte é certa, o tempo e a maneira em que se dará, são incertos. E após a morte, o julgamento!

“O Inferno alargou a sua garganta e abriu a sua boca”, do livro de Isaías, disse o Pregador. Adão e Eva foram criados por Deus para que preenchessem os lugares vagos deixados nos céus por Lúcifer e seus seguidores. Lúcifer era um filho da luz, da manhã, um anjo radiante, mas que caiu, caiu por sua revolta e foi arremessado com todos os seus acólitos nos infernos. Seu pecado, os teólogos dizem, foi o orgulho, aquele pensamento de quem não deseja servir. 

O instante em que pensou o perdeu! Ofendeu a Potestade Divina pelo pensar dum instante. 

E Deus o condenou pela eternidade, pelo sopro de um pensar!

Mas Adão e Eva também caíram! Postos pelo Divino Amor no Éden, na planície de Damasco, só lhes era negado comer do fruto da árvore proibida. 

O demônio, aquele que fora filho da luz, tinha-lhes inveja. Resolveu tentá-los, pois não poderia conceber que o homem, feito de barro, deveria herdar aquilo que de direito ele possuíra, antes da queda. 

E a mulher, o vaso mais frágil, foi quem ouviu da serpente a blasfêmia: “Se eles comessem do fruto proibido se tornariam deuses, maiores mesmo que o próprio Deus”. Ela e Adão comeram da árvore do saber e caíram, como caíram! 

Ouviu-se a voz irada de Deus e Miguel, o arcanjo pretoriano, espada fálica flamejante em riste, expulsou-os do Éden, atirando-os no mundo de maldades, de corrupção, de dureza, para ganharem o pão com o suor de seus rostos.

Mas quão grande é a misericórdia divina! 

Tomou-se de piedade por nossos pobres pais e prometeu que na plenitude do tempo deveria enviar “Alguém” que os redimiria, fazendo-os novamente filhos de Deus e herdeiros dos céus. 

E ele veio. Nascido de uma virgem pura que deu à luz numa pobre estrebaria, viveu como um humilde carpinteiro até que sua hora chegasse. E então, repleto de amor pelos homens desceu até nós trazendo o seu Evangelho.

Os homens ouviram-no? Escutaram-no, mas não o ouviram. Ele foi agarrado e conduzido ao suplício ao lado de dois ladrões. Crucificado teve seu corpo perfurado por lança e, mesmo nesse instante de suprema dor, o Redentor teve pena da humanidade: do topo do Calvário fundou a Santa Igreja Católica, contra a qual prometeu que as portas do inferno não prevaleceriam. 

Mas que, após tudo o que havia feito pelos homens, se eles ainda persistissem em sua maldade, restaria para os mesmos uma eternidade de sofrimento: o inferno!

A alma de Stefan mergulhou dentro de um sombrio crepúsculo ameaçador, contemplando tudo com os olhos sombrios, sentindo falta de socorro, perturbado e humano, sendo visto em atos e pensamentos por um deus de olhos bovinos que o encarava dia e noite.

Sentia-se regredir, sufocava-o o sentimento de terror que experimentara na infância.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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Carlos Russo Jr Carlos Russo Jr., coordenador e editor do Espaço Literário Marcel Proust, é ensaísta e escritor. Pertence à geração de 1968, quando cursou pela primeira vez a Universidade de São Paulo. Mestre em Humanidades, com Monografia sobre “Helenismo e Religiosidade Grega”, foi discípulo de Jean-Pierre Vernant.

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