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Em comuna na Venezuela, a comunidade organizada combate a pandemia

Além de fazer um acompanhamento mensal de pacientes com doenças crônicas, a brigada também envia constantes alertas sobre a prevenção ao vírus
Michele de Mello
Brasil de Fato
São Paulo (SP)

Tradução:

Na Venezuela, comunidades organizadas e o Estado unem esforços para combater a pandemia da Covid-19. Na Comuna Socialista Altos de Lídice, em Caracas, capital do país, uma brigada de saúde organiza visitas de casa em casa para prevenir os contágios na favela de La Pastora, centro-oeste da cidade. 

“A dinâmica é um pouco mais intensa, porque temos que fazer esse percurso na comunidade, cuidando para que não haja ninguém com Covid-19”, afirma Luz Marina Vilória, representante do conselho comunal Vista Bela na brigada de saúde.

Comuna Socialista de Altos de Lídice foi criada há dois anos e é composta por sete conselhos comunais: Bosque, A Redoma, Poder União, Nossa Senhora do Rosário, Mão de Deus, Três Uniões, Vista Bela. Estes funcionam como uma espécie de conselhos comunitários. Em cada unidade, uma pessoa é designada a compor a brigada de saúde, que atende a zona comunal, lar de 350 famílias. 

Além de fazer um acompanhamento mensal de pacientes com doenças crônicas, a brigada também envia constantes alertas sobre a prevenção ao vírus

Reprodução: Michele de Mello
O médico comunitário Douglas Gutierrez visita seus pacientes, na Comuna Altos de Lídice, todas as terças e quintas-feiras

Além de fazer um acompanhamento mensal de pacientes com doenças crônicas, a brigada também envia constantes alertas sobre a prevenção ao vírus. Através dos porta-vozes da comuna, os cuidados são repassados dentro das casas.

“Estou sempre lhes dizendo que existe uma doença, explicando tudo o que nos informam na escola e, às vezes, ele mesmo já diz: ‘Mami, temos que colocar a máscara, por causa do coronavírus’”, relata Genesis Europeza, moradora da comunidade sobre as conversas com seu filho de 3 anos, Esneider Andrade.

Por conta da pandemia da covid-19, Luz Marina Vilória, da brigada de saúde, controla a presença de pessoas na fila de espera do consultório da comunidade / Michele de Mello/Brasil de Fato 

A Venezuela possui pouco mais de 11 mil casos confirmados e cerca de 110 falecidos pelo novo coronavírus. O Distrito Capital é o terceiro em número de contágios, com mais de 1,1 mil infectados. Em Caracas, 15 dos 22 distritos registraram doentes. Na Comuna Altos de Lídice foram encontrados dois casos suspeitos no início do mês de julho. 

Quando há suspeitas, imediatamente a brigada de saúde comunica as autoridades sanitárias municipais, que fazem uma checagem massiva na região próxima da residência das pessoas suspeitas.

“Nunca tivemos um caso crítico. Tivemos dois casos identificados em despistagem [realização de testes para encontrar sinais de doença] massiva. Um jovem, que veio da Colômbia, tinha problemas respiratórios. Seguimos os protocolos e fizemos as provas, saiu negativo e lhe oferecemos tratamento para sua doença respiratória e está bem. O outro caso foi o esposo da nossa enfermeira, que deu positivo. Ele trabalha no Palácio Presidencial de Miraflores e está internado em um hospital aqui de La Pastora e está assintomático”, assegurou o médico comunitário Douglas Gutierrez. 

Gutierrez é médico e há três anos atua na região de Altos de Lídice pela Missão Bairro Adentro – programa social criado pelo presidente Hugo Chávez para criar unidades básicas de saúde e levar médicos aos bairros periféricos da Venezuela. Em 2011, através desse programa social, foi construído o primeiro Centro de Diagnóstico Integral (CDI) na favela de Lídice.

Há dois anos da formação da Comuna Socialista de Altos de Lídice, Gutierrez recebeu um consultório na zona de Vista Bela e outro na região da Redoma. Em ambas as regiões, foram os conselhos comunais que conseguiram o espaço e a estrutura para que os moradores pudessem ter um consultório básico na zona alta da comunidade.
 Na zona de “La Redoma”, a escola infantil Arturo Michelena é ponto de encontro para os conselhos comunais e outras estruturas de base da comuna, como os comitês do CLAP / Michele de Mello/Brasil de Fato

A comunidade reconhece as mudanças positivas que a organização comunal trouxe para a região. “É muito bom, porque assim somos atendidos aqui dentro da comuna e não temos que sair, ainda mais agora com a pandemia. Podemos proteger mais as crianças. Muitas coisas mudaram, todos os setores estão mais unidos. Temos acesso a medicamentos gratuitos aqui mesmo, além de outros benefícios”, afirma Genesis Europeza, que nasceu e agora constitui sua família em Altos de Lídice. 

Uma das conquistas mais recentes foi a abertura de uma farmácia comunal, com doações recebidas de organizações sociais de Argentina, Chile e Brasil. 

Por conta da pandemia e para evitar aglomerações, uma das novas funções da brigada de saúde é coletar as receitas médicas entregues pelo médico comunitário e levar os remédios disponíveis na farmácia comunitária até a casa dos doentes.Com doações de Brasil, Argentina e Chile, os comuneiros abriram uma farmácia própria que atende 350 famílias / Michele de Mello/Brasil de Fato 

“É muito importante a existência do comitê de saúde. Dentro de uma comunidade é de suma importância, tanto social, estrutural, como para preservar a qualidade de vida de cada paciente”, afirma o médico Douglas Gutierrez.

Problemas estruturais

A Venezuela historicamente tem um problema de abastecimento de água. Há décadas, o serviço é intermitente em várias regiões do país e as áreas periféricas são as que mais sofrem.

Um questionamento presente nas favelas brasileiras, e também nas venezuelanas, é como manter a prevenção ao coronavírus – que tem como base a higiene pessoal com a lavagem das mãos – sem água.

Na Comuna de Altos de Lídice, a comunidade construiu uma caixa d’água no ponto mais alto do morro para armazenar a água que corre da Cordilheira do Ávila, que contorna toda a capital Caracas.

Além disso, depois de pressão e diálogo, conseguiram fazer com que a empresa estatal Hidrocapital forneça mensalmente caminhões-pipa, que enchem outros reservatórios de água que são postos à disposição principalmente das famílias que vivem nas partes mais baixas do morro.

Senhora Mercedes, moradora da comuna de Altos de Lídice, faz máscaras de proteção para distribuir à comunidade / Michele de Mello/Brasil de Fato 

Para Luz Marina, a satisfação da comunidade é o que move sua militância social. “Eu gosto de ver que as pessoas sentem que podem contar com alguém na comunidade”, afirma.

Já Douglas Gutierrez reconhece a importância da articulação entre as estruturas públicas e o povo organizado. “Na Venezuela, se conseguirmos manter esse nível de consciência, prevenção e de educação, conseguiremos vencer a pandemia da covid-19”, assegura.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
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