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Em cúpula com Irã e Turquia, Rússia eclipsa Ocidente e avança na integração eurasiática

Os presidentes dos três países se reuniram para discutir questões sobre a Ásia Ocidental e dedicaram especial atenção à ocupação ilegal dos EUA na Síria
Pepe Escobar
The Cradle
Líbano

Tradução:

A cúpula de Teerã, unindo Irã, Rússia e Turquia, foi uma ocasião fascinante por vários motivos. Sobretudo sobre o processo de paz de Astana na Síria, iniciado em 2017, a declaração conjunta da cúpula evidenciou que Irã, Rússia e (recentemente renomeada) Turkiye continuarão “cooperando para eliminar terroristas” na Síria e “não aceitarão novos acontecimento na Síria em nome da derrota ao terrorismo”.

Essa é uma rejeição total à unipolaridade excepcional da “guerra ao terror” que já governou a Ásia Ocidental.

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Enfrentando o xerife global

O presidente russo, Vladimir Putin, em seu próprio discurso, foi ainda mais explícito. Ele enfatizou “passos específicos para promover o diálogo político inclusivo intra-sírio” e chamou os bois pelos nomes: “Os estados ocidentais liderados pelos EUA estão encorajando fortemente o sentimento separatista em algumas áreas do país e saqueando seus recursos naturais com vistas a separar terminantemente o estado sírio”, declarou.

Portanto, ainda segundo Putin, haverá “passos extras em nosso formato trilateral” com o objetivo de “estabilizar a situação nessas áreas” e, crucialmente, “devolver o controle ao governo legítimo da Síria”. Para o bem ou para o mal, os dias da pilhagem imperial terminarão.

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As reuniões bilaterais paralelas à cúpula – entre Putin e Raisi e Putin e Erdogan – foram ainda mais intrigantes. O contexto é fundamental aqui: a reunião de Teerã ocorreu após a visita de Putin ao Turcomenistão no final de junho, para a 6ª cúpula do Cáspio, onde todas as nações litorâneas, incluindo o Irã, estavam presentes. Além disso, foi após a viagem do ministro das Relações Exteriores Sergei Lavrov por Argélia, Bahrein, Omã, e Arábia Saudita, quando se reuniu com todos os seus homólogos do Conselho de Cooperação do Golfo (GCC).

Momento de Moscou

Assim, vemos a diplomacia russa tecendo cuidadosamente sua tapeçaria geopolítica da Ásia Ocidental à Ásia Central – com todos e seus vizinhos ansiosos para conversar e ouvir Moscou. Tal como está, a entente cordiale entre Rússia e Turquia tende a se inclinar para a gestão de conflitos e fortemente nas relações comerciais. Irã e Rússia são um jogo completamente diferente: muito mais uma parceria estratégica.

Portanto, não é coincidência que a Companhia Nacional de Petróleo do Irã (NIOC), programada para a cúpula de Teerã, tenha anunciado a assinatura de um acordo de cooperação estratégica de US$ 40 bilhões com a russa Gazprom. Esse é o maior investimento estrangeiro na história da indústria de energia do Irã – extremamente necessário desde o início dos anos 2000. Sete acordos no valor de US$ 4 bilhões se aplicam ao desenvolvimento de campos de petróleo; outros se concentram na construção de novos gasodutos de exportação e projetos de GNL.

O conselheiro do Kremlin, Yury Ushakov, deliciosamente vazou que Putin e o líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, em reunião privada, “discutiram questões conceituais”. Tradução: ele quer dizer grande estratégia, como no processo evolutivo e complexo de integração da Eurásia, em que os três nós principais são Rússia, Irã e China, agora intensificando sua interconexão. A parceria estratégica Rússia-Irã reflete amplamente os pontos-chave da parceria estratégica entre China e Irã.

Os presidentes dos três países se reuniram para discutir questões sobre a Ásia Ocidental e dedicaram especial atenção à ocupação ilegal dos EUA na Síria

Kremlin
Os encontros entre Putin e Erdogan são sempre um balé geopolítico que chama a atenção

Irã diz ‘não’ à Otan

Khamenei, sobre a Otan, disse a verdade: “Se o caminho está aberto para a Otan, então a organização não vê fronteiras. Se não fosse barrada na Ucrânia, depois de um tempo iniciaria uma guerra sob o pretexto da Crimeia”.

Não houve vazamentos sobre o impasse do Plano de Ação Conjunto Global (JCPOA) entre os EUA e o Irã – mas está claro, com base nas recentes negociações em Viena, que Moscou não irá interferir nas decisões nucleares de Teerã. Teerã, Moscou e Pequim não apenas estão plenamente cientes sobre quem está impedindo o JCPOA de voltar aos trilhos, como também enxergam como esse processo de estagnação contraproducente impede que o Ocidente coletivo tenha acesso ao petróleo iraniano.

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Depois, há a frente de armas. O Irã é um dos líderes mundiais na produção de drones: Pelican, Arash, Homa, Chamrosh, Jubin, Ababil, Bavar, drones de reconhecimento, drones de ataque, até drones kamikaze, baratos e eficazes, principalmente implantados distribuídos a partir de plataformas navais na Ásia Ocidental.

A posição oficial de Teerã não é fornecer armas para nações em guerra – o que, em princípio, invalidaria a desonesta intel dos EUA sobre fornecimento iraniano à Rússia no contexto da guerra na Ucrânia. No entanto, isso sempre pode acontecer fora do radar, considerando que Teerã está muito interessado em comprar sistemas russos de defesa aérea e caças de última geração. Após o fim do embargo imposto pelo Conselho de Segurança da ONU, a Rússia pode vender ao Irã qualquer arma convencional que achar melhor.

Os analistas militares russos estão fascinados pelas conclusões às quais chegaram os iranianos de que não teriam chance contra uma armada da Otan. Em essência, eles apostam na tática de guerrilha pró-nível (uma lição aprendida no Afeganistão). Na Síria, no Iraque e no Iêmen, eles enviaram treinadores para orientar os aldeões em sua luta contra os jihadistas salafistas; produziram dezenas de milhares de rifles de precisão de grosso calibre, ATGMs (míssil antitanque) e térmicas; e, claro, aperfeiçoaram suas linhas de montagem de drones (com excelentes câmeras para vigiar as posições dos EUA).

Tudo isso sem mencionar que, simultaneamente, os iranianos estavam construindo mísseis de longo alcance de alta capacidade. Não é de se admirar que os analistas militares russos estimem que há muito a aprender taticamente com os iranianos – e não apenas na frente de drones.

O balé Putin-Sultão

Agora, para o encontro entre Putin e Erdogan – sempre um balé geopolítico que chama a atenção, especialmente considerando que o Sultão ainda não decidiu embarcar no trem de alta velocidade da integração da Eurásia.

Putin diplomaticamente “expressou gratidão” pelas discussões sobre questões de alimentos e grãos, enquanto reiterava que “nem todas as questões sobre a exportação de grãos ucranianos dos portos do Mar Negro foram resolvidas, mas houve progresso”.

O mandatário russo estava se referindo ao ministro da Defesa de Turkiye, Hulusi Akar, que no início desta semana garantiu que a criação de um centro de operações em Istambul, o estabelecimento de controles conjuntos na saída do porto e pontos de chegada e o monitoramento cuidadoso da segurança da navegação nas rotas de transferência, são questões que devem ser resolvidas nos próximos dias.

Aparentemente, Putin e Erdogan também discutiram o Alto Carabaque (sem detalhes).

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O que alguns vazamentos certamente não revelaram é que na Síria, para todos os efeitos práticos, a situação está bloqueada. Isso favorece a Rússia – cuja principal prioridade é Donbass. Wily Erdogan sabe disso – e é por isso que ele pode ter tentado extrair algumas “concessões” sobre “a questão curda” e o Alto Carabaque. O que quer que Putin, o secretário do Conselho de Segurança da Rússia Nikolai Patrushev e o vice-presidente Dmitry Medvedev possam realmente pensar sobre Erdogan, eles certamente avaliam como é inestimável cultivar um parceiro tão errático capaz de conduzir o oeste coletivo completamente desnorteado.

Istambul neste verão foi transformada em uma espécie de Terceira Roma, pelo menos para os turistas russos expulsos da Europa: eles estão em toda parte. No entanto, o desenvolvimento geoeconômico mais crucial nos últimos meses é que o colapso provocado pelo Ocidente das linhas de comércio e abastecimento ao longo das fronteiras entre a Rússia e a UE – do Báltico ao Mar Negro – finalmente destacou a sabedoria e o senso econômico do Corredor Internacional de Transporte Norte-Sul (INTSC): um grande sucesso de integração geopolítica e geoeconômica entre Rússia, Irã e Índia.

Quando Moscou fala com Kiev, fala via Istambul. A Otan, como bem sabe o Sul Global, não faz diplomacia. Assim, qualquer possibilidade de diálogo entre russos e alguns ocidentais instruídos ocorre na Turquia, Armênia, Azerbaijão e Emirados Árabes Unidos. A Ásia Ocidental, bem como o Cáucaso, aliás, não aderiu à histeria das sanções ocidentais contra a Rússia.

Diga adeus ao ‘cara do teleprompter’

Agora, compare tudo isso com a recente visita do chamado “líder do mundo livre” à região, que alegremente alterna entre apertar a mão de pessoas invisíveis para ler – literalmente – o que está rolando em um teleprompter. Estamos falando do presidente dos EUA, Joe Biden, é claro.

Fato: Biden ameaçou o Irã com ataques militares e, como mero suplicante, implorou aos sauditas que bombeassem mais petróleo para compensar a “turbulência” nos mercados globais de energia causada pela histeria coletiva de sanções do Ocidente. Contexto: há flagrante ausência de qualquer visão ou qualquer coisa que se assemelhe a um rascunho de estratégia de política externa para a Ásia Ocidental.

Assim, os preços do petróleo saltaram em alta após a viagem de Biden: o petróleo Brent subiu mais de 4%, para US$ 105 o barril, trazendo os preços novamente acima de US$ 100 após uma pausa de vários meses.

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O cerne da questão é que, se a OPEP ou a OPEP+ (que inclui a Rússia) decidirem aumentar seus suprimentos de petróleo, eles o farão com base em suas deliberações internas, e não sob pressão excepcional.

Quanto à ameaça imperial de ataques militares ao Irã, ela se qualifica como pura demência. Todo o Golfo Pérsico – para não mencionar toda a Ásia Ocidental – sabe que se EUA e Israel atacassem o Irã, a retaliação feroz simplesmente evaporaria com a produção de energia da região, com consequências apocalípticas incluindo o colapso de trilhões de dólares em derivados.

Biden então teve a ousadia de dizer: “Fizemos progressos no fortalecimento de nossas relações com os estados do Golfo. Não deixaremos um vácuo para que a Rússia e a China preencham o Oriente Médio”.

Bem, na vida real é a “nação indispensável” que se transformou em um vácuo. Apenas vassalos árabes comprados e pagos – a maioria deles monarcas – acreditam na construção de uma “Otan árabe” (copyright do rei Abdullah da Jordânia) para enfrentar o Irã. A Rússia e a China já estão por toda parte na Ásia Ocidental e além.

Desdolarização, não apenas integração eurasiana

Não é apenas o novo corredor logístico de Moscou e São Petersburgo a Astracã – e depois, por meio do Cáspio, a Ezeli no Irã e a Mumbai – que está agitando as coisas. Trata-se de aumentar o comércio bilateral que contorne o dólar americano. É sobre o Brics+, do qual Turquia, Arábia Saudita e Egito estão loucos para fazer parte. É sobre a Organização para Cooperação de Xangai (SCO), que aceita formalmente o Irã como membro pleno em setembro próximo (e em breve também a Bielorrússia). Trata-se do Brics+, da SCO, da ambiciosa Iniciativa Cinturão e Franja da China (BRI) e da União Econômica Eurasiática (EAEU), interconectadas no caminho para uma Parceria da Grande Eurásia.

A Ásia Ocidental ainda pode abrigar uma pequena coleção de vassalos imperiais com soberania zero que dependem da ‘assistência’ financeira e militar do Ocidente, mas isso é passado. O futuro é agora – com os três principais Brics (Rússia, Índia, China) coordenando lenta, mas seguramente, suas estratégias sobrepostas em toda a Ásia Ocidental, com o Irã envolvido em todas elas.

E depois há o Grande Quadro Global: quaisquer que sejam as circunvoluções e os esquemas tolos, inventados pelos EUA, de variedade no “teto do preço do petróleo”, o fato é que Rússia, Irã, Arábia Saudita e Venezuela – as mais poderosas nações produtoras de energia – estão absolutamente em sincronia: na Rússia, no ocidente coletivo e nas necessidades de um mundo multipolar real.

Pepe Escobar | Jornalista investigativo
Tradução de Guilherme Ribeiro


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Pepe Escobar Pepe Escobar é um jornalista investigativo independente brasileiro, especialista em análises geopolíticas e Oriente Médio.

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