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Em outra tentativa de manobra, Trump busca suprimir votos para burlar eleições nos EUA

Alguns cálculos prognosticam que até 70% dos votos nesta eleição poderiam ser entregues através do correio em lugar de cabines no dia das eleições por causa da pandemia
David Brooks
Diálogos do Sul Global
Nova York

Tradução:

Donald Trump busca suprimir o voto como parte de uma série de manobras para questionar a legitimidade do resultado na qual especialistas esperam que seja uma das contendas eleitorais mais sujas e controvertidas na história dos Estados Unidos.

Embora não fosse segredo, Trump tornou explícita sua razão pela qual se opôs à solicitação legislativa para um financiamento de emergência de 25 bilhões de dólares para o serviço postal; foi para frear a expansão do voto por correio desejado pelos democratas. 

Estes fundos são necessários já que funcionários eleitorais esperam um nível sem precedentes de votos via cédulas por correio em uma eleição realizada em meio de uma pandemia.  

Alguns cálculos prognosticam que até 70% dos votos nesta eleição poderiam ser entregues através do correio em lugar de cabines no dia das eleições por causa da pandemia

Reprodução: needpix
Donald Trump viu sua popularidade diminuir durante a pandemia da Covid-19

O presidente explicou que “agora necessitam esse dinheiro para que possa funcionar as agências de correio para que possam processar estes milhões de milhões de cédulas (eleitorais)… Se não o conseguem… isso implica que não podem ter o voto universal por correio por não estar equipados para isso”. Trump reiterou sua acusação na quarta-feira, a qual carece de qualquer evidência, que ampliar o voto por correio levará a “uma das maiores fraudes da história”. Ao mesmo tempo, é falso que existe o uso “universal” de voto por correio. 

No entanto, alguns cálculos prognosticam que até 70% dos votos nesta eleição poderiam ser entregues através do correio em lugar de cabines no dia das eleições por causa da pandemia. 

A aparente sabotagem ao serviço de correios para efeitos eleitorais também está sendo conseguido de dentro do sistema através de reduções de operações e de pessoal ordenado pelo chefe do serviço postal, Louis DeJoy, um mega doador republicano aliado de Trump, segundo informa o Washington Post e The Associated Press.  

Líderes democratas denunciaram a manobra, acusando que Trump está buscando anular o direito ao voto de milhões de cidadãos durante uma emergência de saúde pública. A presidenta da câmara baixa, Nancy Pelosi, afirmou hoje que Trump está fazendo tudo isto “porque teme o povo estadunidense…sabe que se tudo funcionar como deveria, seria difícil que ganhasse, então quer pôr obstáculos à participação”. A campanha de Biden sustentou que Trump está buscando anular o direito ao voto a milhões de pessoas em meio a uma emergência de saúde pública. 

O senador Bernie Sanders declarou que Trump admitiu hoje que negar o financiamento para o serviço postal é “uma tentativa aberta de supressão massiva do voto. Não, senhor presidente, não permitiremos que faça sabotagem à eleição. Esta é uma democracia, não uma maldita ditadura. Seu reino autoritário vai acabar logo”. 

Várias agrupações dedicadas a monitorar eleições também denunciaram os comentários de Trump, juntamente com especialistas e comentaristas, empregando termos como “sabotagem”, “supressão” e práticas “autoritárias”. “O governo de Trump está tentando o que equivale a um golpe de estado burocrático para permanecer no poder”, sustentou a organização nacional de direitos cidadãos Public Citizen.  

Trump e os republicanos sempre justificaram suas medidas para suprimir e limitar o voto neste e em anos eleitorais anteriores como iniciativas preventivas de fraude, apesar de que a fraude eleitoral nos postos e por correio é microscópica. Larry Kudlow, o assessor econômico do presidente foi franco em uma entrevista hoje quando explicou que o desacordo sobre programas de estímulo econômico com os democratas tem que ver com demandas como “os direitos de voto…esse não é nosso jogo”.  

Os republicanos, com Trump na Casa Branca e seu controle do Senado assim como de vários governos estaduais, têm sido exitosos em impor todo tipo de medidas para suprimir e limitar o voto em zonas geográficas e setores demográficos que favorecem os democratas. Estas incluem purgas da listagem, novos requisitos de identificação de eleitores, atos de intimidação (incluindo cidadãos armados que circulam em frente aos postos de votação) e até o fechamento ou traslado de última hora de postos eleitorais em zonas pobres. De fato, foram registrados mais de 1.600 fechamentos de postos entre 2012 e 2018 em zonas nas quais havia condições que violavam leis eleitorais.  

“O governo de Trump está atacando instituições democráticas centrais e está ameaçando a infraestrutura que se requer para realizar uma eleição segura, accessível e imparcial em novembro”, adverte Vanita Gupta, presidenta da Conferência de Liderança  sobre Direitos Civis e Humanos e ex-chefe da Divisão de Direitos Civis do Departamento de Justiça durante a presidência de Barack Obama em entrevista para o New Yorker.

Há várias semanas, Trump e sua equipe vêm reiterando que o processo eleitoral está viciado e o presidente tem recusado se comprometer a reconhecer os resultados da eleição programada para o próximo 3 de novembro.

Ambas as campanhas já estão se preparando para uma série de disputas legais sobre a eleição, sobretudo se a margem de diferença entre os dois candidatos for muito pequena. Promete ser um grande negócio para advogados especializados nesse tipo de disputa. E a disputa poderia ter que chegar até a Suprema Corte, que gora conta com uma maioria conservadora – outra conquista desta presidência. 

Por tudo isto, muitos prognosticam que não se saberá o resultados da eleição no fechamento das urnas em 3 de novembro, e o resultado poderia tardar dias e até semanas. 

E ninguém descarta que esses resultados poderiam ser rechaçados pelo atual mandatário caso ele perca, com o que esta eleição chegaria a detonar uma crise constitucional. 

Na verdade, um grupo de analistas e ex-funcionários bipartidários em Washington dedicado a questões de integridade eleitoral e transição democrática avalia vários cenários, e um de seus membros, o coronel aposentado Lawrence Wilkerson, ex-conselheiro de Colin Powell, alertou em entrevista a Bill Maher que não sabe o que vai acontecer se Trump perder, mas chama suas bases mais leais “para as ruas com suas armas … se eles responderem ao seu chamado e vierem para as ruas com armas, então provavelmente precisaremos dos militares, e com isso, não se sabe quanto sangue poderia fluir ”.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
David Brooks Correspondente do La Jornada nos EUA desde 1992, é autor de vários trabalhos acadêmicos e em 1988 fundou o Programa Diálogos México-EUA, que promoveu um intercâmbio bilateral entre setores sociais nacionais desses países sobre integração econômica. Foi também pesquisador sênior e membro fundador do Centro Latino-americano de Estudos Estratégicos (CLEE), na Cidade do México.

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