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Em sua batalha contra a OMS, Donald Trump brinca de política com vidas humanas

Ameaças do presidente estadunidense são “imprudentes e mortais” dentro de um contexto pandêmico global que necessita uma total união de esforços
Thalif Deen
IPS
Território dos EUA

Tradução:

A ameaça do presidente Donald Trump de congelar abruptamente os fundos dos Estados Unidos à Organização Mundial da Saúde (OMS) é qualificada de “imprudente e mortal”, quando a agência das Nações Unidas encabeça uma batalha contra a propagação do coronavírus, com muitas vidas em risco. 

Trump acusou o organismo de estar “centrado na China”, de gerir torpemente o brote da pandemia da Covid-19 e de não respaldar sua medida de restringir o ingresso de chineses aos Estados Unidos.

Agora, anunciou que ordenou suspender a entrega de fundos à OMS, o que de imediato lhe valeu a acusação de brincar de política com vidas humanas. 

“A OMS não cumpriu com suas obrigações básicas”, disse aos jornalistas em uma reunião informativa da Casa Branca. “Tanta morte foi causada por seus erros”, assegurou dentro do estilo hiperbólico a que é propenso em suas declarações.

Em uma reportagem de seis colunas, o diário The New York Times disse que Trump, ao ver cair sua popularidade nas pesquisas em um ano eleitoral, busca culpar outro, neste caso a OMS, por seus próprios erros na gestão do coronavírus. 

“Pesquisas recentes mostram que mais estadunidenses desaprovam o manejo do vírus por parte de Trump, que o aprovam”, disse o diário.

Abby Maxman, presidenta e diretora-executiva da organização humanitária Oxfam América, disse à IPS que “agora mais que nunca” Trump faz política com vidas humanas e o faz durante uma emergência mundial de saúde.

A administração de Trump, disse, deveria antepor à política a saúde e o bem-estar do povo estadunidense e das pessoas mais vulneráveis de todo o mundo. 

“Este é um momento no qual devemos deixar de lado a política e a culpa e trabalhar juntos para salvar vidas e nos recuperarmos juntos desse pandemia de alcance global”, propôs Maxman.

“Esperamos ver os doadores intensificarem e fazer todo o possível para garantir que a OMS possa continuar com seu trabalho vital”, disse Maxman, diante da possível resposta à pergunta de que outros governos e financistas deveriam fazer se finalmente se concretizasse o congelamento de aportes dos Estados Unidos ao organismo com sede em Genebra. 

Mas reconheceu que há obstáculos para que outros doadores compensem o anunciado buraco estadunidense, dado o devastador colapso económico provocado pela pandemia.

Em todo caso, em sua opinião, “isto é algo para o qual simplesmente devemos encontrar os fundos”.

Ameaças do presidente estadunidense são “imprudentes e mortais” dentro de um contexto pandêmico global que necessita uma total união de esforços

Foto: Flickr / The White House
Trump acusou o organismo de estar “centrado na China”

Donna McKay, diretora-executiva da organização Médicos pelos Direitos Humanos, com sede em Nova York, advertiu que ao suspender os fundos para a OMS, Trump está pondo em risco a vida de milhões de pessoas em todo o mundo, particularmente as que estão em maior risco durante esta pandemia.

“Uma emergência de saúde global exige uma resposta global”, disse.

A OMS proporciona assistência e coordenação internacionais vitais, sublinhou. Por isso, que Trump decida suspender os fundos para a organização no meio de uma pandemia sem precedentes é imprudente e o coloca em perigo de contribuir a mortes e sofrimento generalizado.

“Seu movimento chega precisamente no momento equivocado. A pandemia está começando a se estender de países de alta renda a países com sistemas de saúde débeis. Necessitamos urgentemente ações mais concertadas, coordenadas e efetivas da comunidade mundial, e não menos. E necessitamos uma liderança mundial que entenda e abrace a coordenação e a colaboração”, considerou McKay.

Quando Trump criticou pela primeira vez a OMS, seu diretor geral, Tedros Adhanom Ghebreyesus, foi claro em sua resposta embora não tenha citado o presidente norte-americano. “Se não querem mais sacos de cadáver, abstenham-se de politizar”. 

Também em uma réplica ao presidente, embora igualmente sem nomeá-lo, o secretário geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, disse que a OMS está na primeira linha, apoiando os Estados membros e suas sociedades, especialmente os mais vulneráveis, com orientação, capacitação, equipamento e serviços concretos para salvar vidas, enquanto lutam contra o novo coronavírus. 

“Creio que a Organização Mundial da Saúde deve ser apoiada, já que é absolutamente fundamental para os esforços do mundo para ganhar a guerra contra a Covid-19”, pontuou, antes de insistir em que a pandemia “não tem precedentes em nossa vida e requer uma resposta sem precedentes”. 

Guterres já se adiantou então a considerar um erro reduzir os recursos para a OMS e qualquer organização humanitária que luta por conter a Covid-19 e seu impacto. “Agora não é o momento”, sentenciou.

“Em lugar de unir-nos através desta crise global, o presidente Trump tem atacado líderes e agências de todo o mundo, buscando desviar a culpa das falhas de sua própria administração”, denunciou Maxman, a responsável da Oxfam.

“Com este último movimento de reter fundos da OMS, o presidente Trump está paralisando qualquer esperança de cooperação e solidariedade internacional responsável, o que é crítico para salvar vidas e restaurar a economia mundial”, afirmou. 

Para a presidenta da Oxfam América, “reter fundos e culpar outros significa perder tempo, e causar mortes, miséria e pobreza desnecessárias. E os Estados Unidos e o mundo não estão nem perto do final deste desastre”. 

O orçamento total do programa da OMS para 2018-2019 foi de 4,4 bilhões de dólares, com um incremento de 4,8 bilhões para o biênio 2020-2021.

A OMS tem duas fontes principais de recursos: contribuições obrigatórias dos Estados-membros, com base na renda e na população de cada país, e as contribuições voluntárias, de fundos adicionais providos pelos Estados-membros, organizações privadas e doações individuais. 

Os Estados Unidos contribuem com 22% do orçamento, como o faz com a própria ONU. 

McKay, por sua parte, admitiu que a resposta da OMS à pandemia tem sido imperfeita, mas suspender seus fundos desafia a lógica e põe em perigo milhões de seres humanos. 

A líder da associação médica recordou que os principais pesquisadores estadunidenses e de outros países estão colaborando na pesquisa de vacinas contra a Covid-19 através da OMS, que é um centro de pesquisa essencial. 

“O presidente Trump parece estar buscando um bode expiatório para a pandemia. Está tratando de desviar a atenção da devastadora cifra de mortos nos Estados Unidos e seus próprios e reiterados fracassos em responder de maneira rápida e coerente à pandemia”, afirmou

Na sua opinião, “em lugar de atacar os profissionais da OMS, o presidente Trump deveria proporcionar aos trabalhadores da saúde o equipamento de proteção, sem o qual estão morrendo”. 

Afirmou que também “deveria colaborar com os estados e as cidades em uma resposta nacional coordenada guiada pela ciência e pelos direitos humanos, não pela ideologia e xenofobia. Deve escutar os especialistas médicos neste momento de grande perigo nacional e mundial”. 

Insistiu em que “todas as instituições que lutam contra a  Covid-19, seja no nível local, nacional ou mundial, devem ser transparentes e responsáveis. Mas aniquilar a capacidade da instituição de saúde essencial do mundo em um momento como este é um grave erro”. 

Thalif Deen, Correspondente-chefe do Escritório das Nações Unidas e Diretor Regional de IPS Norte América

IPS, especial para Diálogos do Sul — Direitos reservados

Tradução: Beatriz Cannabrava


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Thalif Deen

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