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Embora Trump esteja com a imagem debilitada, trumpismo permanecerá nos EUA

Embora Trump esteja com a imagem debilitada, trumpismo permanecerá nos EUA
Fernando M. García Bielsa
ALAI / Agência Latino America de Informação
São Paulo (SP)

Tradução:

O novo presidente dos Estados Unidos, Joseph Biden, ao assumir o governo deverá enfrentar numerosos desafios e, de imediato, está obrigado a prestar atenção a severos e graves problemas como a pandemia, a recessão, a mudança climática e sérias tensões fiscais para a solução de urgentes necessidades sociais e da conjuntura. Também necessita obter alguns resultados tangíveis em seus primeiros meses, sobretudo na economia e na luta contra o coronavírus e mostrar que novamente a ação bipartidária é possível. 

Está chamado a governar um país cuja credibilidade internacional foi prejudicada pelas oscilações de sua política e a instável gestão do presidente que sai. Os Estados Unidos também adoecem de sérios problemas estruturais e está em um momento de graves crises: política, econômica e da saúde, com uma sociedade muito polarizada, o descrédito e a disfuncionalidade de muitas de suas instituições e com a perspectiva de obstruções no Congresso, onde conta com ínfima maioria. Além disso, dada a perda de reputação do sistema eleitoral e a sustentada campanha de Trump sobre uma suposta fraude, uma parte da cidadania considera ilegal a presidência de Biden.

A isso se agrega que os poderes do presidente Biden poderiam estar algo diminuídos, pois pela estreita margem de seu triunfo eleitoral se poderia considerar que não conta com um sólido “mandato”. Durante este próximo quadriênio enfrentará uma férrea ação republicana para obstruir sua gestão, apesar de que, ele e seu governo não se afastarão da orientação política neoliberal compartilhada por ambos os partidos do sistema, o democrata e o republicano.

Uma lista abreviada dos desafios enfrentados pela sociedade estadunidense, junto à urgência e gravidade do impacto da pandemia e de tendências preocupantes que afloram, inclui as guerras sem fim que empantanam o país, a crise econômica, os enormes déficits fiscal e comercial, uma grave deterioração das infraestruturas, os persistentes ódios e tensões raciais, o viciado enfoque da política migratória, os perigos da crescente desigualdade, o deterioro ambiental, a perda de privacidade cidadã e de legitimidade das instituições do sistema. 

Mas também o alto grau de financeirização dessa sociedade, que não trabalha para a economia real e produtiva, as grandes bolhas financeiras vinculadas a uma enorme dívida pública à espera de desatar os desastre maiúsculo com nefastas derivações sobre toda a sociedade; um sistema político eleitoral viciado e fora de moda e um bipartidarismo coalhado de divisões, afastado dos problemas reais das pessoas e sobrepassado diante das fraturas da sociedade; a crescente inoperância e estancamento do jogo político e legislativo em Washington. 

Embora Trump esteja com a imagem debilitada, trumpismo permanecerá nos EUA

Trump White House Archived
Cabe esperar que o magnata dedicará parte de seu tempo a entorpecer a gestão do novo presidente.

A situação equivale a uma crise de representação política

A massiva desigualdade fez da luta pela sobrevivência um componente central e cotidiano para milhões de pessoas. A consciência pública de muitas delas ficou retorcida por sua própria situação, por seus medos e fanatismos, porque se sentiram repetidamente enganadas e abandonadas por ambos os partidos do sistema e pela ação manipuladora dos meios de difusão de direita e suas redes sociais. 

Também há um forte desejo de mudanças e o renascimento, expansão e ramificação de forças e tendências que alimentam os divisões no país, ao mesmo tempo que se propagam a violência racial e de todo tipo, os grupos de ódio supremacistas brancos e de milícias e grupos paramilitares fortemente armados e com conexões nas entidades policiais e outros órgãos de segurança. Segundo cifras imprecisas tais agrupamentos contam com uns 50.000 integrantes. 

É uma realidade da qual o novo presidente deverá se encarregar. Não tem pela frente uma tarefa fácil e em alguns âmbitos teria que se enfrentar à elite oligárquica e aos arraigados interesses em ambos os partidos, algo sumamente improvável levando em consideração sua trajetória política. 

O vergonhoso episódio da tomada violenta do Capitólio pelas hordas de simpatizantes de Trump de corte fascista, colocou em evidência as falsas ilusões e as fissuras do país. Chama a atenção a escassa resistência, que beira a cumplicidade, encontrada pelos amotinados entre muitos dos guardas de segurança à sua passagem para o hemiciclo. Embora inusitadas e logicamente rechaçadas pela ampla maioria da cidadania, no entanto, segundo algumas sondagens, essas ações foram vistas com simpatia por quase um de cada cinco pesquisados na nação. A par com tais fatos, centenas de pessoas fizeram manifestações diante dos edifícios legislativos em vários estados ao longo do país contra a confirmação de Biden. 

Esse episódio evidencia a gravidade da crise de legitimidade que há decênios vem carcomendo o sistema político estadunidense. A violência política tem sido um traço entronizado nos afazeres dos Estados Unidos desde suas origens, no entanto nos últimos anos se registra uma renovada receptividade a ela juntamente com uma erosão da confiança nas instituições e nos rumos supostamente democráticos. 

Tais fatos podem ser meros precursores de acontecimentos de maior gravidade; de um período violento e turbulento. Claramente a quebra institucional que existe não se resolve com a saída de Trump. Alguns analistas chegam a dizer que o país não experimentou uma crise dessa intensidade e magnitude desde os anos anteriores à Guerra Civil da segunda metade do século XIX.

Ao mesmo tempo, segundo uma pesquisa Reuters/Ipsos em conjunto com o Centro para a Política da Universidade da Virgínia, um terço dos estadunidenses considera que “os Estados Unidos devem preservar o predomínio de sua herança branca europeia”. Sempre existiu no país o extenso âmbito de ressentimento que conta com expressões políticas que não podem tolerar a crescente diversidade na sociedade. 

Esses e outros problemas não só se projetam para o futuro, mas são uma realidade presente, incluindo as grandes diferenças entre regiões do país, os desbalanços econômicos, étnicos e culturais e a sensação de abandono e desesperança de dezenas de milhões. Tais problemas são parte da explicação e das condições que fizeram possível o acesso à presidência de um demagogo como Donald Trump em 2016.

Muitos desses problemas e tendências se derivam ou se relacionam com o processo de declínio que se manifesta na economia e no grau de predomínio dos Estados Unidos no concerto de nações, em boa medida derivado do impacto negativo acumulado por décadas de gigantescos gastos militares, das guerras sem fim e da desmesurada sobre expansão imperial em todos os rincões do planeta, assim como dos consequentes desbalanços e crescentes desigualdades geradas pela globalização neoliberal no seio dessa sociedade. 

No imediato, alguns fatos recentes presumivelmente devem melhorar a Biden suas possibilidades de gestão e para impulsionar em alguma medida seu programa legislativo. Entre eles se destaca em primeiro lugar a perda pelo Partido Republicano de sua maioria no Senado e as muitas fissuras que existem em seu seio, catalisadas durante o catastrófico final do governo de Donald Trump.

Apesar disso, cabe esperar que o magnata dedicará parte de seu tempo a entorpecer a gestão do novo Presidente. Trump devia ter abandonado o governo, mas o peso latente dos 74 milhões de estadunidenses que votaram por ele está aí. Seguirão sendo um tremenda base política, com tendências de rechaço às elites de Washington e ao status quo, desestabilizadora e potencialmente manipulável para projetos políticos de direita. O que agora chamamos de trumpismo permanecerá embora a figura de Trump ficará prejudicada definitivamente, em maior ou menor medida, ou desacreditada por sua implicação na inédita revolta levada ao seio do Capitólio. 

Recentemente alguns conotados políticos republicanos estiveram abandonando a nave conduzida por Trump, mas principalmente o fazem medindo consequências com vista a herdar eventualmente seu manto. Não podem desligar-se muito de sua agenda sem alienar o eventual apoio das dezenas de milhões que seguem fervorosamente ao ex-Presidente. 

Aparte da não desprezível extensão e arraigo dos grupos violentos de direita, a agenda xenófoba e de rechaço às elites políticas e financeiras que Trump explorou continua sendo uma vertente extremamente popular entre suas amplas bases de apoio. São muitos os que a seguem, dentro e fora das instituições. Se augura uma iminente batalha sobre o futuro rumo do Partido Republicano e até sua eventual divisão, o que poderia a médio prazo gerar sequelas e até pôr em dúvida a continuidade do sistema bipartidário oligárquico. 

A vitória eleitoral e a correlação de força internas não constituem um claro mandato.

Pese a toda confusão do processo eleitoral estadunidense e do determinante impacto do dinheiro empregado, não há dúvida de que Joseph Biden foi eleito em 2020 em grande medida pelo rechaço massivo à figura de Donald Trump, ademais debilitado pela crise econômica e sanitária justamente logo antes das eleições. Em milhões de pessoas se impôs a habitual fórmula de votar pelo menos ruim. 

Não se produziu a anunciada e esperada onda azul (pró-democrata). A vitória de Biden foi relativamente estreita em vários estados, reduziu-se a maioria democrata na Câmara de Representantes e embora assume um predomínio funcional no Senado, este órgão que por sua natureza é eminentemente conservador, ficou dividido com suas cadeiras repartidas em partes iguais, com 50 senadores de cada partido. Sua vantagem é bastante reduzida e frágil, principalmente quando tanto democratas de direita como republicanos liberais poderiam se unir, ocasionalmente, ao partido contrário na votação de medidas alheias às suas preferencias. Isso torna complexa a projeção do programa legislativo. 

Mais da metade dos estados da União têm governadores e/ou legislaturas dominadas pelos republicanos. Preocupa o papel que pode desempenhar a Corte Suprema e o corpo judicial em distintas instâncias, todos de clara tintura conservadora.

Dado o papel de Trump como catalisador de muitas das rupturas do país, Biden fez sua campanha enfatizando que, por um lado, ia reverter as políticas direitistas de Trump enquanto, ao mesmo tempo, prometia a muito difícil tarefa de restabelecer a unidade na nação e governar para todos os estadunidenses, independentemente de sua cor partidária. 

Isso lhe representa agora uma camisa de força. O presidente deverá mover-se entre duas águas contrapostas: entre seu pretendido cortejo com setores republicanos que o apoiaram, e em sentido contrário deverá evitar alienar-se da combativa ala progressista do Partido Democrata, dos seguidores de Bernie Sanders e da tradicional base do partido entre os trabalhadores, os afro-americanos, os ambientalistas e outros.

Nas semanas prévias à posse se fez evidente que é a elite tradicional a que está no comando. A maior parte dos escolhidos para integrar o gabinete e os mais importantes cargos favorecem a ela. No momento se observa bastante desconhecimento e menosprezo para com o setor progressista. 

Biden é um consumado político da elite oligárquica que ascende ao cargo com a notável gravitação de uma classe de multimilionários doadores do Silicon Valley e de Wall Street. Ele era o mais conservador entre os aspirantes a nominação presidencial democrata nas recentes eleições. Deverá governar um país em declive, com muitas rupturas, e durante um longo período de recessão econômica e tensões fiscais. Governará com o Partido Democrata dividido e no qual conciliar as diferenças com a ala progressista lhe propõe um desafio para não afastar outros setores de sua coalizão e evitar um descalabro nas eleições parlamentares de 2022. 

Manter a continuidade do capitalismo neoliberal e da taxa de lucro empresarial será uma preocupação central da política econômica da Administração Biden, segundo em parte à influência do setor financeiro, dos gigantes da tecnologia de ponta, das transnacionais e do establishment democrata.

No plano interno, apesar dos enormes níveis de endividamento e do aumento intocável do orçamento militar, há uma marcada necessidade de maior gasto federal em atenção médica, ajuda para os desempregados e para as empresas, e apoio para os governos estaduais e locais com problemas. Estima-se que dado o nível de desigualdade existente e o baixo dinamismo da economia, Biden poderia tentar suavizar o fio das políticas de corte neoliberal mediante a manipulação monetária, sem abandonar a orientação geral neoliberal característica das esferas que controlam o Partido Democrata. 

Inclusive depois de superada a pandemia, é provável que ele tenha que enfrentar uma debilidade econômica persistente e uma necessidade desesperada de maior investimento público. Com toda a segurança seguirá a massiva injeção na economia de dinheiro fiat, de grandes emissões de papel moeda sem respaldo real, o que incrementaria a médio prazo os riscos para a estabilidade do dólar e da própria economia. 

Vários analistas de peso consideram como anacrônicas e pouco sustentáveis as políticas centristas ortodoxas que provavelmente serão adotadas pela administração Biden, dadas as crescentes fraturas e tendências contrapostas no país e a erosão da credibilidade do neoliberalismo. O próximo período de governo Biden bem poderia ser um mero intervalo na trajetória de contínuo ascenso e empoderamento das posições de extrema direita no país. 

Em matéria de política exterior seguramente haverá mais espaço para o multilateralismo, para a diplomacia e para certa acomodação com seus aliados, ao mesmo tempo que dará continuidade à pretensão dos Estados Unidos de recuperar sua primazia e dominação global mediante a ameaça e a força. É sobretudo nessa esfera em que o novo mandatário nominou alguns notórios neoconservadores e liberais intervencionistas. Com Biden será incrementado o orçamento militar, se manterão as tropas no Oriente Médio e, em um marco geopolítico adverso, se persistirá em uma linha dura com a China. Os Estados Unidos continuarão sendo o maior exportador de armas e se poderiam esperar novas intervenções militares e subversivas no exterior. 

À primeira vista, Biden se vê favorecido em iniciar sua gestão quando sucede a um governo como o de Trump que gerou tanta polêmica, tanta polarização e um medíocre desempenho em um período no qual se aguçaram as divisões no país. No entanto, as muitas expectativas geradas com respeito a uma nova administração poderiam agir contra ele em um breve prazo. 

Fernando M. García Bielsa


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

   

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