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Foto: Matthew Bradley / Flickr

Encruzilhada: EUA são capazes de resolver crises que provocaram no país e no mundo?

De autonomia perigosa da CIA a guerras em Gaza e Ucrânia, país está imerso em problemas que impactam drasticamente a geopolítica global
Gustavo Espinoza M.
Diálogos do Sul Global

Tradução:

Beatriz Cannabrava

Mike Pompeo, homem forte do entorno do ex-presidente Donald Trump (2017-2021), e ex-diretor da Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos, e depois, Secretário de Estado, disse que não há muito tempo, sintetizando a função que havia cumprido: “Eu era o diretor da CIA. Mentimos, enganamos, roubamos, assassinamos. Tínhamos cursos de formação completos”.

Quando Pompeo foi nomeado chefe da entidade, organizações de Direitos Humanos de seu país expressaram suas reservas e disseram que ele não merecia confiança “porque era favorável à espionagem massiva e aos líderes estrangeiros, e por sua opinião referente a Edward Snowden de que deveria ser julgado e finalmente condenado à morte”. Ademais, ele mesmo se encarregou de explicar que queria uma CIA “mais desapiedada e implacável”.

O drama dos Estados Unidos é que, à medida que a crise do sistema de dominação capitalista se agrava e os problemas internos no país do norte aumentam, o peso da CIA vai tomando corpo, e sua orientação política perfila cada vez mais o comportamento da Casa Branca. Hoje, por exemplo, não são os governos dos Estados Unidos e Israel os que discutem a crise de Gaza, mas sim a CIA e o Mossad. Eles analisam o futuro de uma guerra que tem pendente a humanidade.

Como consequência disto, pode-se assegurar que não são os políticos os que mandam na lógica imperial, mas os militares, quando não são os que têm a última palavra. Nesse cenário, até o discurso da Casa Branca se torna mais agressivo, temerário e irresponsável.

Não obstante, os analistas asseguram que a CIA tem três problemas que incidem severamente em seu comportamento. Falam assim dos objetivos da organização, dos métodos que usa e da impunidade da qual gozam seus quadros operativos no mundo, dado que não têm que prestar contas a ninguém por seus atos. Eles decidirão – em conivência com o Presidente dos Estados Unidos – se haverá paz ou guerra na Ucrânia, vida ou morte em Gaza, acordos e violência no mar Vermelho.

Tradicionalmente se costumava dizer nos Estados Unidos que cinco republicanos mais cinco democratas somavam dez bandidos. E em boa medida, isso é certo. Os dois grandes conglomerados partidários se assemelham tanto entre si que deveriam surgir facções no interior de cada um deles para justificar certas diferenças que aludem mais às formas de expressão do que ao conteúdo. Em essência, uns e outros dizem o mesmo, só que o fazem de maneira distinta para manter a imagem de uma “democracia” que – se mirarmos bem a coisa – devora a si mesma.

E os líderes de ambos conglomerados – Joe Biden e Donald Trump – se preparam para competir nas eleições nacionais previstas para o dia 5 de novembro próximo. Embora se ataquem inclusive agressivamente, cada vez está mais claro que ambos representam os interesses das grandes corporações e que elas se jogam pela preservação do sistema. Esta confrontação é a que hoje tem os Estados Unidos ante uma encruzilhada.

Claro que, no plano mais amplo, esta encruzilhada tem muitas expressões variadas. A situação da Ucrânia é uma delas. Nos Estados Unidos, inclusive um setor da Grande Capital parece ter chegado à conclusão de que a guerra que hoje se trava nesse solo carece em absoluto de perspectiva. E por isso os Republicanos se recusam a dar passe a novos créditos em benefício do regime de Zelensky. Além disso, a mandatária receptora dessa “ajuda” a usa para seus próprios fins e os de seus próximos, porque para eles a guerra também é um negócio.

E a encruzilhada aqui é maior, porque os ucranianos já não querem lutar. Então a Otan busca desesperadamente soldados de outros países. Mercenários, não – eles já os usaram sem maior resultado. E esses “combatentes” estavam ali por dinheiro, e não necessariamente para “seus herdeiros”, mas para eles mesmos. Por isso querem “fazer a guerra”, mas, além disso, viver. E fogem quando a morte lhes bate à porta.

A “saída”, então, é conseguir soldados profissionais que estejam dispostos a ir até o fim – onde os achar? Nos países da Otan. A frase soa bem, mas o contraste vem quando se desce à terra e se choca com a realidade. De que países? Os soldados da França estão provavelmente dispostos a morrer pela França; mas, pela Ucrânia? Por que motivo? E isso funciona para os soldados de cada país. No fundo, essa “causa” não é a sua. Os Estados Unidos na encruzilhada.

Mas ela é maior ainda se temos em conta que enviar soldados de um país determinado à Rússia equivale a declarar guerra à Rússia. E isso terá seu preço. Não é verdade? Quem está disposto a assumi-lo? Quem haverá de proteger a população da França em uma guerra contra a Rússia? E o que haverá de ocorrer nos outros países?

Para os Estados Unidos, o principal “gonfaloneiro” da guerra, o tema implica uma encruzilhada a mais. Mas a ela se soma o que acontece em Israel, onde Netanyahu assoma cada vez mais empenhado em uma guerra que não tem saída e que perfila nitidamente o rosto neonazista do regime sionista de Israel. Agora, nem Washington o pode justificar. Além disso, 30 mil mortos não é uma anedota bélica. É, simplesmente, um genocídio.

E a esta encruzilhada se soma o Mar Vermelho, e a Síria. Também Iraque e Líbia. Mas, além disso, a América Latina, onde a Casa Branca “maneja” torpemente governos tão obtusos e medíocres como os que subsistem na região. Enquanto isso, em sua tumba de Harleigh, em Camden, Nova Orleans, W Whitman há de seguir cantando: “Indolente e ocioso, convido a minha alma – Me deixo estar, e miro um talo de erva de verão”.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.

Gustavo Espinoza M. Jornalista e colaborador da Diálogos de Sul em Lima, Peru, é diretor da edição peruana da Resumen Latinoamericano e professor universitário de língua e literatura. Em sua trajetória de lutas, foi líder da Federação de Estudantes do Peru e da Confederação Geral do Trabalho do Peru. Escreveu “Mariátegui y nuestro tiempo” e “Memorias de un comunista peruano”, entre outras obras. Acompanhou e militou contra o golpe de Estado no Chile e a ditadura de Pinochet.

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