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Foto: Adam Schultz / Casa Branca

Enquanto felicita Sheinbaum, Biden ameaça fechar fronteira dos EUA com México

"Espero trabalhar de perto com a presidente eleita Claudia Sheinbaum no espírito de aliança e amizade", declarou Biden em um comunicado da Casa Branca
David Brooks, Jim Cason
La Jornada
Nova York

Tradução:

Beatriz Cannabrava

Nesta segunda-feira (3), presidente Joe Biden ligou para a doutora Claudia Sheinbaum para parabenizá-la e ao povo mexicano por sua “histórica” eleição, mesmo enquanto se preparava para emitir ordens executivas nesta terça-feira (4) para fechar a fronteira com o país vizinho, a menos que o governo do México mantenha o fluxo de pessoas que buscam atravessar sem documentos abaixo de 2.500 por dia.

“Espero trabalhar de perto com a presidente eleita Claudia Sheinbaum no espírito de aliança e amizade que reflete os laços duradouros entre nossos dois países”, declarou o presidente dos Estados Unidos em um comunicado da Casa Branca. “Parabenizo o povo mexicano por conduzir um processo eleitoral democrático nacional bem-sucedido, incluindo disputas por mais de 20 mil cargos nos níveis local, estadual e federal”.

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Esses cumprimentos foram repetidos por outros no governo de Biden. O secretário de Estado Antony Blinken declarou que “Os Estados Unidos parabenizam Claudia Sheinbaum por sua histórica vitória como primeira mulher presidente do México. Estou ansioso para continuar fortalecendo a sólida parceria entre os Estados Unidos e o México com a presidente eleita Sheinbaum”.

Deputados se manifestam

Na Câmara dos Deputados, o deputado republicano Mike McCaul, presidente do Comitê de Relações Exteriores, declarou: “Parabenizo o povo do México por outra eleição bem-sucedida… Tive a oportunidade de me encontrar com Claudia Sheinbaum no início deste ano e espero trabalhar com ela para iniciar um novo e mais próspero capítulo entre nossos povos”.

O deputado Joaquín Castro, o democrata de maior escalão neste comitê, também expressou seus parabéns, enfatizando que “este foi um momento histórico” no México. O deputado democrata Jesús Chuy García afirmou: “Parabéns à presidente eleita do México, Claudia Sheinbaum, por sua histórica vitória! Espero trabalhar juntos em uma relação bilateral sólida e orientada para o futuro que beneficie tanto os mexicanos quanto os americanos”. Outros deputados, incluindo Adriano Espaillat, Sylvia Garcia, Jimmy Gomez e Chrissy Houlahan, se juntaram à lista de políticos americanos que celebraram o processo eleitoral mexicano.

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Mas enquanto havia aplausos, alguns protocolares, outros mais sinceros, circulava a notícia de que nesta terça-feira o presidente Biden estava convocando prefeitos de algumas cidades na fronteira com o México para anunciar suas medidas executivas antecipadas que essencialmente fecharão a fronteira para imigrantes, suspenderiam proteções para solicitantes de asilo que supostamente são garantidas nas leis americanas e internacionais, e forçariam aqueles que tentarem cruzar a fronteira a retornar ao lado mexicano.

Enquanto isso

Funcionários do governo Biden repetidamente enfatizaram em comentários ao La Jornada seu apreço pelos esforços liderados pelo Presidente Andrés Manuel López Obrador para evitar que migrantes cheguem à fronteira norte, incluindo operações para deter e inspecionar trens e ônibus e até transportar imigrantes que chegam perto da fronteira de avião de volta para outras partes do México. O número de pessoas tentando cruzar a fronteira entre pontos oficiais de entrada sem documentos caiu significativamente dos níveis altos registrados em dezembro, mas a CBS News relata que em maio o número de pessoas indocumentadas encontradas pelas autoridades de fronteira americanas continua chegando a uma média de cerca de 3.800 por dia.

As novas medidas executivas permitirão que oficiais na fronteira americana rejeitem solicitações de asilo da maioria das categorias de migrantes – com exceção de menores desacompanhados, entre outros – se chegarem em um dia ou semana em que o número de pessoas que tentam cruzar sem documentos exceda 2.500. O número final que levaria a uma ordem de fechar a fronteira ainda não foi emitido, mas uma versão preliminar desta proposta contemplava o fechamento da fronteira se o número médio de pessoas indocumentadas tentando cruzar atingisse 5 mil em uma semana ou se em qualquer dia ultrapassasse 8.500.

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Essas medidas, baseadas na mesma legislação que foi utilizada pelo então presidente e agora candidato presidencial Donald Trump para limitar a imigração, quase certamente serão questionadas nos tribunais, já que defensores dos direitos dos imigrantes consideram as medidas ilegais. Vários desses defensores especularam que a Casa Branca adiou o anúncio de suas novas medidas até depois das eleições do último domingo no México.

Milhares de mexicans votaram nos EUA

No último domingo (2), longas filas de eleitores, algumas com mais de 6 mil pessoas, mostraram um comparecimento que aparentemente surpreendeu os funcionários do Instituto Nacional Eleitoral (INE) ao longo do dia e levaram a longas esperas em alguns dos 20 consulados nos EUA. O Instituto Nacional Eleitoral, encarregado de administrar o voto no exterior, relatou que 223.961 cidadãos mexicanos foram registrados ao redor do mundo, a esmagadora maioria nos Estados Unidos, onde 157.227 se inscreveram.

Em Nova York, a fila para ingressar no consulado se estendeu por mais de seis quadras, onde imperou a calma apesar das queixas cada vez mais ferozes sobre a longa espera e a falta de informações por parte das autoridades eleitorais. “Estou aqui desde as 8 da manhã e mal estou me aproximando da entrada”, comentou uma mulher que estava acompanhada de seu filho depois das 16 horas. Muitos protestaram, temendo que não conseguiriam emitir seus votos depois da longa espera.

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“A principal reclamação foi a falta de pessoal, falta de organização e falta de comunicação”, afirmou Gilda Ontiveros, observadora eleitoral pela organização nacional Fuerza Migrante em entrevista ao La Jornada. Ela apontou que as pessoas nas filas não tinham informações sobre o processo, onde se posicionarem e se conseguiriam votar, foi “como um telefone estragado”. Acrescentou que, entre outras questões detectadas, “o consulado abriu tarde, algumas das urnas não funcionaram no início… e deixaram entrar primeiro pessoas que estão apenas de passagem por Nova York e não vivem aqui”, mas destacou que os idosos e pessoas com deficiência foram atendidos com prioridade.

Em Washington, centenas esperaram para entrar no consulado mexicano na capital dos Estados Unidos, alguns desfrutando da comida mexicana oferecida por um “food truck” que estacionou em frente à entrada do consulado. Diferentemente de algumas outras cidades, os eleitores nas filas mantiveram a calma em um ambiente familiar, com crianças e conversas animadas durante a espera em um processo mais bem organizado. Em Chicago e Los Angeles, também foram relatadas longas filas de votantes onde os participantes demonstraram paciência diante de um processo que, opinavam muitos através dos meios sociais, poderia ter sido mais eficiente.

Votação inédita

Esta é a primeira vez que é oferecida aos mexicanos no exterior a oportunidade de votar pessoalmente em uma eleição presidencial nos consulados – antes, só era permitido fazer isso por correio ou via eletrônica. Foram reservadas cerca de 1.500 cédulas adicionais para aqueles que não se inscreveram antes do fechamento do registro.

Apesar do entusiasmo expresso pelos que foram votar e dos líderes da comunidade mexicana indicando que o número de compatriotas inscritos aumentou significativamente, o mais notável é que representam um número muito reduzido do total da população mexicana residente nos Estados Unidos, estimada em 10,7 milhões.

Os cidadãos mexicanos no exterior puderam escolher candidatos à Presidência, ao Senado, ao cargo de chefe de Governo da Cidade do México, governadores em Chiapas, Guanajuato, Jalisco, Morelos, Yucatán e Puebla, além de deputados migrantes na Cidade do México e Oaxaca, e uma representação proporcional em Jalisco.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.

David Brooks Correspondente do La Jornada nos EUA desde 1992, é autor de vários trabalhos acadêmicos e em 1988 fundou o Programa Diálogos México-EUA, que promoveu um intercâmbio bilateral entre setores sociais nacionais desses países sobre integração econômica. Foi também pesquisador sênior e membro fundador do Centro Latino-americano de Estudos Estratégicos (CLEE), na Cidade do México.

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