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Enquanto Fujimori apareceu agressiva e prepotente, Castillo ganhou força após primeiro debate presidencial no Peru

Foi a primeira vez na história social do país que tivemos esse confronto de ideias em uma modesta localidade do interior do país
Gustavo Espinoza M.
Diálogos do Sul
Lima

Tradução:

Finalmente, e contra qualificados prognóstico da “grande imprensa”, no sábado, 1º de maio, ao meio-dia, aconteceu na Praça de Armas de Chota, a mais de 650 quilômetros ao norte de Lima, o primeiro debate presidencial proposto pelo professor Pedro Castillo.

Objetivamente poderíamos considerar que a realização do debate foi em si mesmo uma vitória do candidato presidencial do Peru Livre.  

Pela primeira vez na história social do Peru, um confronto de ideias entre aspirantes à Magistratura Suprema da Nação se faz em uma modesta localidade do interior do país, e não nos iluminados salões de um Centro de Convenções da untuosa capital.

Por primeira vez também Chota –uma quase esquecida província de Cajamarca localizada na serrania peruana – esteve virtualmente no centro do interesse nacional.

Foi a primeira vez na história social do país que tivemos esse confronto de ideias em uma modesta localidade do interior do país

Reprodução: Twitter
O professor Pedro Castillo durante sua campanha no Peru

Políticos, jornalistas, analistas nacionais e estrangeiros, e agências informativas de diversos países correram pressurosos – e em muitos casos atemorizados – à praça principal da cidade convertida em uma ágora política há quase 35 dias das eleições nacionais previstas para o próximo 6 de junho. 

Há apenas cinco dias ninguém pensava que este debate aconteceria. Inclusive 24 horas antes, se presumia que a localidade chotana seria cenário de algum fato lutuoso, que opacaria completamente o evento. Nada aconteceu. 

A disciplina do povo confirmada pela presença de numerosos “ronderos”, a participação austera da Polícia Nacional, a educação da multidão, a ponderada conduta dos condutores do debate e a solvência das autoridades locais liderada pelo burgomestre e ex-congressista Werner Cabrera, confluíram para garantir a seriedade de um encontro que emudeceu todas as críticas. 

Nenhum ato hostil, nenhuma provocação, alterou o encontro que cativou o interesse de milhões de peruanos que acompanharam atentamente os pormenores de um debate que não pareceu improvisado e que serviu para conhecer melhor o perfil dos candidatos à chefatura do Estado. 

Talvez uma única circunstância que se poderia sublinhar como negativa foi o demora evidente da candidata da Força Popular. Keiko Fujimori chegou com mais de 30 minutos de atraso, e o fez deliberadamente para “fazer-se esperar” como costumam agir as pessoas que se sentem “superiores” àqueles que as esperam. 

E claro, nessa linha, queixou-se lamentosamente por ter que “vir até aqui” para encontrá-lo. Poderia haver dito “até este último rincão do mundo” se não se houvesse autocensurado. Mas a expressão espontânea de seu desgosto e mal-estar, ficou clara para todos. 

O confronto de ideias podia haver sido melhor. Nenhum dos dois pareceu suficientemente preparado e assistido para responder cabalmente a todos os pontos do debate. Mas isso foi bom: confirmou que os aspirantes ao governo não são sábios que conhecem tudo, mas simples pessoas que usam seus recursos para persuadir seus eleitores. 

Por um lado, uma veterana nessas lides, formada em Universidades dos Estados Unidos, ex-parlamentar e três vezes candidata à Presidência da República; e por outro, um professor de curso primário, docente de uma escola próxima, convertido em líder sindical, agricultor e “rondero” por circunstâncias da vida, catapultado como o candidato de maior opção por sua proximidade com as aspirações legitimas de seu povo. 

No intercâmbio de ideias e alfinetadas, Pedro Castillo resultou mais solvente. Pareceu fresco, autêntico espontâneo; enquanto Keiko pareceu molesta, agressiva, prepotente e alambicada. No final das contas, o docente ganhou mais simpatia dos que acompanharam o evento.

Talvez por isso, não apareceram as “pesquisas” que costumam ser apresentadas no fim dos debates e que nos dizem “quem ganhou” na ocasião. Os meios preferiram não passar pela vergonha de admitir que uma vez mais, eles perderam e o povo ganhou. 

Pedro Castillo podia haver tirado mais proveito do encontro? Sem dúvida que sim. Quando foi tratado o tema da educação, por exemplo, devia sublinhar que sua tarefa era devolver aos professores do Peru o que o fujimorismo lhes arrebatou na “década dantesca”: a estabilidade no posto de trabalho, a nomeação, a dignificação docente, o respeito à carreira de magistério, o direito aos reajustes salariais. 

Mas, além disso, aludir à luta pela qualidade do sistema educativo, pauperizado pela orientação mercantilista que converteu a educação em um negócio altamente lucrativo, como foi – e continua sendo – a linha geral do fujimorismo na matéria. 

Mas haverá tempo, sem dúvida, para incidir neste e em outros temas de verdadeiro interesse nacional. Mas o essencial foi dito: a luta está colocada entre aqueles que querem perpetuar um “modelo” antinacional, e os que buscam um caminho melhor que responda realmente à vontade abnegada e solidária dos peruanos. 


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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Gustavo Espinoza M. Jornalista e colaborador da Diálogos de Sul em Lima, Peru, é diretor da edição peruana da Resumen Latinoamericano e professor universitário de língua e literatura. Em sua trajetória de lutas, foi líder da Federação de Estudantes do Peru e da Confederação Geral do Trabalho do Peru. Escreveu “Mariátegui y nuestro tiempo” e “Memorias de un comunista peruano”, entre outras obras. Acompanhou e militou contra o golpe de Estado no Chile e a ditadura de Pinochet.

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