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Entenda a disputa e as alianças da direita pelo poder no imperialismo do século 21

Os objetivos não se reduzem a obter votos através da participação política. Seus propósitos estão focalizados em dominar a sociedade e o Estado
Yazmin Bárbara Vázquez Ortiz
Diálogos do Sul Global
São Paulo (SP)

Tradução:

A ação da direita que enfrentamos é a expressão das particularidades que adquire a disputa multidimensional pelo poder no imperialismo do século XXI, em meio do que se tem denominado como “deslizamento da concentração da riqueza e do capital à concentração do poder político”.

Neste contexto os objetivos da Direita não se reduzem a obter votos através da participação política. Seus propósitos estão focalizados em dominar a sociedade e o Estado, inclusive além da força política que esteja no governo. Ganhar as bases sociais, subjetividades, imaginários, espaços de organização e participação social-políticos, territórios, espaços institucionais, assim como os de governo local e nacional, constituem-se em metas que transcendem a outrora intenção ou aposta de ganhar votos para ocupar posições de poder. 

Os objetivos não se reduzem a obter votos através da participação política. Seus propósitos estão focalizados em dominar a sociedade e o Estado

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A aliança entre organizações e partidos de Direita no nível regional, hemisférico e transnacional

Em função de tais objetivos, os níveis de organização que tem implantado a Direita revelam os resultados graduais de um processo contínuo, acumulativo, de articulação das elites de poder e seus respectivos instrumentos de dominação em dois níveis:

  • O Primeiro, referido à aliança entre organizações e partidos de Direita no nível regional, hemisférico e transnacional

  • O Segundo, que revela as relações que se estabelecem entre a Direita, o capital transnacional e os governos imperiais

Do primeiro nível, a União Democrática Internacional (anos 80), a União de Partidos da América Latina (anos 90) e a Organização Democrata Cristã para a América Latina (ODCA) constituem exemplos dos enlaces entre partidos de direita dos Estados Unidos, Europa e América Latina. Enlaces que têm sido funcionais para construir estratégias de dominação e subversão político-ideológicas, que só são ajustadas segundo os contextos histórico-concretos, mas apresentam muito elementos de base em comum. Por exemplo, operam através de espaços onde se integram:

  • Primeiro: o exercício analítico para a desconstrução das bases teóricas da ideologia das forças de esquerda (especialmente do marxismo).

  • Segundo: a caracterização e classificação de cada um dos partidos de esquerda em função de descaracterizá-los, junto à campanha midiática contra seus governos e líderes. 

  • Terceiro: e como alternativa, o chamado à formação de movimentos cidadãos ou partidos despidos de ideologia, nutridos a partir de universidades, acervos de pensamento, igrejas, como atores efetivos da mudança para o “progresso” e a “democracia”.

  • Quarto: A promoção de ações de protesto social que, através de manuais ou vídeos incluem orientações precisas para cada caso: protestos contra governos, votação em processos eleitorais, entre outros. 

No segundo nível de articulação, as Redes de Intervenção implantadas na América Latina desde os anos 80 do século XX, mostram as inter relações que se estabelecem entre atores governamentais e não governamentais estadunidenses, atores vinculados aos objetivos desse país na região e atores latino-americanos dos entornos nacionais onde intervêm, influem, cooptam processos de gestão de desenvolvimento, trabalhando o conteúdo das mudanças que a direita promove em uma diversidade de espaços e sujeitos que multiplicam os alcances de sua ação. 

A estas Redes se integram atores governamentais e não governamentais dos Estados Unidos para dar assistência, financiar em países da região comunidades, governos locais e nacionais. As ações da Agência Internacional para o Desenvolvimento (USAID), da Fundação Nacional para a Democracia (NED), do Centro Internacional da Empresa Privada (CIPE), dirigidas ao empoderamento comunitário e à promoção de acadêmicos para incidir na projeção de estratégias de desenvolvimento de governos nacionais e locais é uma amostra disso. 

No mesmo sentido, destaca-se a inserção de acadêmicos e acervos de pensamento que estudam nossas sociedades e constroem fórmulas de mudança sob medida para cada caso, assim como de instituições financeiras regionais ou internacional para financiar e consolidar a orientação técnica dos mesmos (BID, FMI, BM).

As corporações transnacionais também têm estado presentes nestas redes. Sua incidência tem se revelado na diversidades de espaços nos quais desenvolve sua ação como parte da legitimação ideológica e política das mudanças propostas, desde a construção da opinião pública pelas corporações midiáticas, até o fortalecimento da cultura do empreendimento, do empoderamento produtivo, com a participação de corporações como Walmart em “Modelos de Desenvolvimento Rural”.

Durante o governo de Donald Trump, e desde os avanços conseguidos pela direita hemisférica nas administrações de Barack Obama, foi promovida, como parte do esquema de intervenção, a implantação de uma rede de Governos engrossada por aqueles países nos quais a direita foi retomando o poder executivo. A partir dela foi articulado o Grupo de Lima em função de isolar diplomaticamente a Venezuela, um instrumento também aplicado contra Cuba na década de 60 do século XX e ao qual recorre, juntamente com o uso de instrumentos financeiros aperfeiçoados nas guerras econômicas e do bloqueio no século XXI, como método de asfixia diante da resistência mostrada à implementação combinada de todos os demais mecanismos de intervenção já mencionados.

Por último, mas não menos importante, está a inserção das forças militares neste esquema. O Comando Sul, por exemplo, promove desde o ano de 2017 a implantação de uma “Rede de Redes”, articulando as já existentes, como modo mais efetivo para enfrentar os desafios dos Estados Unidos na região e neste ano, 2019, destacam-se os pronunciamentos de altos chefes de suas forças militares sobre o objetivo que perseguirão: Valores, Ideias e Ideais. Quais podem ser as implicações de tais objetivos? Serão, entre outras, que se potenciem as forças militares latino-americanas como objetivo de cooptação para que encarnem um papel protagônico em caso de a mudança ser necessária? 

Para estes propósitos, enfocados em cooptar valores, ideias e ideais, já foram ensaiadas pelo menos três importantes Linhas de Ação com resultados de efetividade provada por esta direita hemisférica com raiz global. As duas primeiras que referiremos são: 

  • A disputa de sentidos, enfocada para as bases racionais e éticas da orientação da conduta humana, da construção das apostas individuais, familiares e sociais em termos de projetos de vida e sociedade. 

  • A evangelização para promover o conservadorismo como via de influência político-ideológica.

A partir delas, a instalação de um modelo racional pró-neoliberal, utilizando o melhor do discurso e das práticas da esquerda, refundadas para servir aos interesses do capital, consolida o sistema através da dominação cultural.

E para fechar o esquema de dominação e subversão político-ideológica, a terceira linha de ação, talvez a mais sutil; o sequestro, a tomada de instituições, leis, políticas públicas, formas de governo, para institucionalizar a dominação político-ideológica e a subversão com base cultural. Uma linha de ação a partir da qual se promovem ajustes em leis e instituições a fim de inabilitar ou reprimir por “vias legais” líderes e movimentos sociais que não resultem convencidos, cooptados através dos modos antes esboçados. 

Desta forma a direita trabalha combinando sedução com coação, conforme se requeira, para eliminar de forma radical qualquer oposição, presente ou potencialmente futura. 

Os alcances que têm tido sua ação se referem de uma parte, à capacidade para apropriar-se de imaginários, reconstruí-los e articular diferentes grupos e organizações da sociedade civil a seus modelos de gestão e processos de disputa pelo poder, especialmente através da ação territorial, real e virtual. E de outra, à capacidade mostrada para cooptar os espaços de organização e participação política da sociedade através do ajuste de leis que têm enfraquecido a ação de sindicatos e partidos políticos como a reforma trabalhista e eleitoral. Nessa mesma direção, o fortalecimento institucional de tribunais constitucionais têm sido funcional para frear programas de tipo social desde governos de esquerda ou para inabilitar politicamente seus líderes.

Por último, é  importante destacar os meios implementados para dominar o Estado através do suposto aperfeiçoamento das formas de governo, que com o objetivo declarado de potenciar redes de colaboração entre governo e sociedade civil, privilegiam a inserção de grêmios empresariais, e acervos de pensamento que respondem aos interesses destas redes, na construção de modelos de gestão de importantes programas sociais, potenciando assim o uso de matrizes racionais e instrumentos técnicos, supostamente efetivos para obter segurança, progresso e democracia no nível social. Desta forma, não importa se a força de esquerda está no poder executivo, o conveniente e efetivo desde as matrizes teóricas do capitalismo global pode sequestrar o rumo do projeto político, econômico-social se não houver um pensamento crítico articulado aos programas de transformação que contribua para decantar e ajustá-los. Para concluir, diante da capacidade de ação mostrada por essa direita hemisférica com nexos transnacionais, e em função de atender aos desafios da esquerda para enfrentá-la, algumas perguntas podem ajudar a reflexão.

Como fazer ao chegar ao poder executivo em Estados com uma institucionalidade tomada pela direita e pelo capital, ajustada para cumprir seus interesses, se queremos transformar em benefício social? 

Como fazer para reconstruir o tecido social de base, para ter as forças necessárias para mudar tudo o que deva ser mudado e poder governar, especialmente junto ao povo?

Como recuperar a promover a subjetividade da esquerda. Os valores e uma racionalidade adequada para garantir em todos os níveis e espaços o êxito da ação? 

E por último: Como fazer todo o anterior diante das forças da Direita Hemisférica, do Capital transnacional-Global e dos Governos Imperiais articulados para impedi-lo? 

Diante dessas interrogantes as forças de esquerda também têm um processo acumulativo de pensamento e ação que através da história tem ido mostrando as vias possíveis. E sobretudo, uma grande reserva de conhecimento acumulado na práxis dos povos, partidos e governos que lutam cada dia diante do avanço do capital. A esquerda tem todo o necessário para construir um grande acervo de pensamento e ação social. 

* Yazmín Bárbara Vázquez Ortiz é Professora e Pesquisadora do Centro de Estudos Hemisféricos e sobre os Estados Unidos da Universidade de Havana. Membro do Grupo de Trabalho sobre os Estados Unidos da CLACSO

Trabalho apresentado no Encontro Anti-imperialista de Solidariedade pela Democracia e contra o Neoliberalismo, Havana, Cuba, 1-3 de novembro de 2019.

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.

Yazmin Bárbara Vázquez Ortiz

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