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Entenda como neoliberalismo quase destruiu economia do México

Temos que prestar atenção nas operações de desestabilização e difamação iniciadas pelos Estados Unidos contra o governo de Lopes Obrador
Paulo Cannabrava Filho
Diálogos do Sul
São Paulo (SP)

Tradução:

Gosto muito dessa frase, ela é o título de um livro reportagem magistral do John Reed, jornalista, autor de outro livro magistral — os 10 dias que abalaram o mundo — em que relata a queda da monarquia russa e a tomada do poder pelos bolchevistas.

Temos que prestar atenção no México e nas operação de desestabilização e difamação iniciadas pelos Estados Unidos contra o governo de Lopes Obrador, campanha que encontra apoio nas oligarquias locais e na mídia hegemônica de Nossa América. A mídia brasileira tornou-se especialista em difamar tudo o que seja contra a dominação econômica dos Estados Unidos.

Agora a crítica se aproveita do fato de Lopes Obrador não ter massacrado a população de Sinaloa e soltado o jovem Ovídio Guzmán, filho de Joaquin Guzmán, el Chapo, um dos grandes do tráfico de drogas, dos mais procurados pela polícia dos Estados Unidos.

Lopes Obrador, o presidente mexicano, soltou o rapaz porque a população inteira de Sinaloa se insurgiu e exigiu a libertação. O presidente preferiu atender a demanda popular do que mandar o exército ou as forças de segurança produziram um morticínio.

Está certo ele. O que importa é a vida humana. O México está convulsionado por uma guerra civil que tem causado dezenas de mortos todos os dia. A luta é para construir a paz, e é isso que o novo governo está fazendo.

As soluções têm de ser estruturais, estrategicamente arquitetadas. 

Veja que difícil é a situação do México.

Os Estados Unidos, desde que formulou a Doutrina Monroe, em 1823, quer incorporar as Américas do polo norte ao pólo sul, em outras palavras, do Canadá à Patagônia, incluindo as ilhas caribenhas.

A custa de milhões de vidas, tentou incorporar Cuba, não conseguiu e a submete a um cruel bloqueio; incorporou Porto Rico, Panamá, e com o poder dos canhões, a custa da vida de milhões de mexicanos, incorporou mais da metade do território mexicano.

Temos que prestar atenção nas operações de desestabilização e difamação iniciadas pelos Estados Unidos contra o governo de Lopes Obrador

Wikimedia Commons
Revolução Mexicana ilustração

México se insurgiu em 1910 contra essa situação. Sob o comando de Pancho Villa e Emiliano Zapata desalojaram do poder uma oligarquia vendida e iniciaram a primeira grande revolução social do século XX. Uma Revolução anti-oligárquica e anti-imperialista.

México construiu uma economia forte e estável nacionalizando e estatizando o petróleo e mantendo o modus de produção comunitária dos povos originários que garantiram por séculos Segurança Alimentar. A propriedade coletiva das terras, do plantio e da colheita.

Com isso preservaram a imensa variedade de milho, por exemplo, que constitui a base da alimentação desde antes da invasão dos europeus. Esses povos originários do que os geógrafos chamam de Meso-América se consideram filhos do milho ou filhos da terra. Faz sentido: terra e milho são sinônimo de vida.

O Partido Revolucionário Institucional – produto da Revolução de Outubro de 2010, dominou o México por mais de meio século. É inegável que os líderes do partido se corromperam no poder, e o quebrantamento do PRI levou a divisão das forças democráticas com a formação da vários partido, dificultando cada vez mais a governabilidade.

A partir dos anos 1980, com o Consenso de Washington, a imposição das doutrinas neoliberais na condução das economias, tem início a destruição de tudo aquilo que caracterizava o México, com ênfase na cultura, que é o cerne do povo mexicano. Não se esqueçam que modus de produção é cultura.

Salinas de Gortari foi para o México o que foi um Menen para Argentina, um Fernando Henrique para o Brasil, um Fujimori no Peru, o Pinochet no Chile. Cada um a sua maneira, não só foram contra o processo histórico como trataram de reverter a própria história, fazendo seus países voltarem décadas de atraso, e, o pior, a submissão aos Estados Unidos.

Salinas de Gortari quase que liquidou com os ejidos, terras devolutas (propriedade da Nação) utilizadas para a agricultura comunitária, ao permitir a entrada de latifundiários ianques com suas grandes plantações de soja, milho e a criação intensiva de porcos. Veja o crime. Milho transgênico das transnacionais, a contaminar e destruir a riqueza da diversidade ecológica do milho.

Os novos invasores, esses agricultores criaram uma situação que o México se viu privado de seu principal alimento, a tortilla de maíz, com que fazem os tacos, o arroz-feijão lá deles.

Não é atoa que por toda parte se ouve falar: esos gringos de la chingada tienen que irse. La chingada se diz para as mães que não prestam. É o pior dos xingamentos.

Isso porque esse povo, indígena e mestiço têm na carne as cicatrizes do que foi o sofrimento de seus ancestrais desde a invasão praticada pelo europeus – Espanha, França, Inglaterra, e depois as invasões praticadas pelos gringos.

Em resumo, o neoliberalismo quase que conseguiu destruir a economia do México.

México sobreviveu construindo economias paralelas ou alternativas, fundadas na informalidade, ou seja, fora do controle do fisco, como dos camelôs, contrabando, venda de petróleo e gasolina furtados e, claro, tráfico de drogas, de armas e até de gente.

Foi contra isso que o México se insurgiu novamente. Uma insurreição pacífica, com o povo em massa nas ruas exigindo comida e direitos. Uma insurgência pelo voto que colocou Lopes Obrador no poder.

O Amlo, como carinhosamente o chamam, fez campanha prometendo livrar seu povo da opressão do neoliberalismo, fazer a economia funcionar para a Nação, não mais uma economia para enriquecer os ricos e marginalizar o resto da população.

Temos que concordar que o que levaram destruindo durante 40 anos você não recupera do dia pra noite.

Os que foram eleitos com Lopes Obrador entenderam seu recado e o momento atual.

O primeiro ato do Congresso Nacional foi rebaixar o salário dos legisladores, diminuir o número de pessoal empregado e acabar com as mordomias.

Isso é que é fazer economia de gasto público sem demagogia.

Primeiro ato do Executivo foi pelo mesmo caminho. Eu estava lá quando o presidente colocou em leilão centenas de carrões, motos e iates importados das mais badaladas marcas. Hoje ministros e funcionários utilizam quando necessários automóveis de uma frota comum para todo o governo.

Podem achar que são cosméticos mas são simbólicos, tem caráter educativo, sem dúvida, e da credibilidade às intenções anunciadas pelo governo.

O cerne do problema está em reverter o modelo econômico, excludente, discriminatório, racista que privilegia o capital, por um novo modelo que seja inclusivo, fraterno, que gere emprego e segurança, que respeite a cultura milenar desse tão sofrido povo.

A insurgência desse novo México tem a ver também com a revolta do povo com a fome.

Colocar a economia do México no eixo do desenvolvimento que priorize o bem estar da população contraria muitos interesses: dos banqueiros e financistas, dos latifundiários exportadores, das oligarquias corruptas alijadas do poder, da nova burguesia que se enriquecer com o tráfico ou na especulação financeira.

Es a sínteses do problema mexicano definido pelo nada democrático Porfírio Díaz… Pobre México, tan lejos de dios y tan cerca de Estados Unidos.

Desde o primeiro dia do governo de Amlo Estados Unidos começaram a conspirar e a mandar seus agentes desestabilizadores. Fazem isso a vida inteira e no mundo.

Amlo não têm como romper com o Nafta, o livre comércio com EUA e Canadá. Se fizer quebra. Com o roubo e comércio ilegal de combustível já quase conseguiu superar. Já com o tráfico, a questão é muito delicada porque conseguiram criar uma narco-estado paralelo cuja economia é tão importante como a economia formal. Tem que criar um estado econômica e militarmente mais forte que o narco-estado. Isso leva tempo e tem em sentido contrário a atuação desestabilizadora de Estados Unidos.

O importante, realmente importante, é que nesse novo México Insurgente é a vida humana que importa. Com o povo o governo de Amlo haverá criar as condições necessárias para superar isso. É sem dúvida uma estratégia de longo prazo.

Sou um apaixonado pela cultura mexicana, milenar. Acompanho de perto o que lá ocorre e recebo informação direta enviada por meus amigos e a imprensa local. A relação é antiga.

Cadernos do Terceiro Mundo nasceu em Buenos Aires, teve que fugir para não ser massacrado pelos comando de caça aos comunistas (qualquer estrangeiro) foi para o México. Lá, ao lado do Centro de Estudos do Terceiro Mundo da Universidade Nacional do México, a revista se consolidou e alcançou seu auge com edições em espanhol, português e inglês, distribuída nas Américas, claro, na África, na Ásia e na Europa onde tinha uma sede e imprimia a revista que se distribuía na África.

Diálogos do Sul é herdeiro de tudo isso. É a continuidade de Cadernos por outras mídias, agora eletrônicas, pois seria impraticável manter e distribuir um meio alternativo como antes nos dias de hoje.

Para oferecer o melhor sobre o México fizemos um acordo com o jornal diário La Jornada, um jornal que não tem o rabo preso com o sistema financeiro nem com governos, mas que está sempre ao lado desse México Insurgente.

É isso, pessoal. Com Diálogos do Sul você fica sabendo o que realmente acontece no México, do ponto de vista das reivindicações do povo, uma grande parte indígena e camponesa, e dos trabalhadores urbanos, todos sedentos por terra, trabalho e pão.

Fiquem conosco. Ajudem-nos a manter esse jornalismo que não mente, não esconde nada, diz tudo o que é preciso dizer, e busca os porquês dos dos fatos.

*Paulo Cannabrava Filho é editor de Diálogos do Sul

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Paulo Cannabrava Filho Iniciou a carreira como repórter no jornal O Tempo, em 1957. Quatro anos depois, integrou a primeira equipe de correspondentes da Agência Prensa Latina. Hoje dirige a revista eletrônica Diálogos do Sul, inspirada no projeto Cadernos do Terceiro Mundo.

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