Pesquisar
Pesquisar

Entenda por que Maduro concedeu induto a mais de 100 anti-chavistas na Venezuela

Os indultos concedidos foram bem recebidos pelos europeus, mas convém ao antichavismo responder histericamente contra as medidas do venezuelano
Franco Vielma
Diálogos do Sul
Caracas

Tradução:

O quadro político na Venezuela está apresentando uma evolução acelerada durante estes dias, agora, mediante o indulto que o presidente Nicolás Maduro tem concedido a mais de 100 dirigentes e ativistas anti chavistas que têm sido libertados, ou estavam sendo procurados pela justiça venezuelana, e inclusive alguns que se declaravam “perseguidos” sem causas penais contra, alguns, no exterior.

Dando por entendidos os detalhes desta medida, é evidente que o chavismo novamente assinala criar zonas de distensão com os opositores, sob uma consigna de “reconciliação”, mas o objetivo é mobilizar o maior número de voluntários antichavistas possíveis para as próximas eleições do parlamento.

A réplica da estratégia de diálogo com os opositores, tal como a que foi executada em 2017, nesta vez tem novas particularidades. Aconteceu por trás dos bastidores, há fatores envolvidos externos ao país, concorre em meio a um férreo bloqueio econômico e ameaças bélicas frontais e a crise de partidos é transversal e profunda, por uma fragmentação quase total da oposição, o que dificulta a consolidação de acordos com uma parte deles.

O chavismo, por outra parte, tem dividido sua opinião. Por um lado há respaldo e, pelo outro, espanto e indignação.

Para Maduro a aposta é superior e se inspira nos resultados que essa estratégia gerou em anos anteriores, o que lhe dá viabilidade política. Explicaremos o assunto de forma panorâmica.

Os indultos concedidos foram bem recebidos pelos europeus, mas convém ao antichavismo responder histericamente contra as medidas do venezuelano

Foto: Manaure Quintero
Roberto Marrero, da equipe de Juan Guaidó acusado de terrorismo, foi um dos perdoados pelo governo venezuelano

O saldo das distensões anteriores

Em 2017, a Venezuela estava à beira de uma guerra civil e a oposição, na plenitude de seu ímpeto, prometia atingir Miraflores, ameaçando a estabilidade nacional e tentando quebrar a institucionalidade.

O chavismo elegeu a Assembleia Nacional Constituinte (ANC) para preservar a institucionalidade, mas houve diálogos abertos e fechados com a oposição. Seus dirigentes, ao se verem afundados em uma estratégia de golpe fracassado, tiveram que manobrar seu retorno para a política. Exigiram que se desmantelasse a ANC, Maduro não cedeu, embora o fizesse em outros itens, como a libertação de criminosos detidos.

Esses diálogos apaziguaram o país, foram combinadas eleições consecutivas, e o cenário pré-bélico e de alta instabilidade foi diluído em eleições regionais e municipais que o chavismo capitalizou de forma indiscutível, outorgando ao chavismo uma governança que era impensável durante os primeiros meses deste ano.

A oposição, que de maneira formidável tinha ganho as eleições parlamentares de 2015, e que se via unida na violência de 2017, foi desarticulada. A catástrofe foi primeiramente narrativa, pois prometeram um golpe e se domesticaram em diálogos ao ver que seu golpe fracassou. Seus seguidores, decepcionados, os abandonaram. Seguidamente, o naufrágio se traduziu em votos e os resultados já os conhecemos.

Aquela estratégia, de diálogos, liberações e eleições, teve outros desencadeamentos a médio e longo prazo. O pior saldo que obtiveram foi sua divisão, que tem perdurado, apesar da coroação imaginária de Guaidó em 2019.

O restante da história já conhecemos, com os norte-americanos capitaneando abertamente o que Mike Pompeo declarou que era muito difícil unir: a oposição venezuelana.

É de conhecimento que o chavismo teve que calibrar na política profunda seus custos, articulando estratégias e aplicando, contra muitas probabilidades, concessões no tabuleiro do político, isso sim, sempre exercendo sua posição de domínio e estabelecendo-se em seu centro de gravidade política. Para o chavismo, o diálogo funciona como mecanismo político e, hoje, de forma indiscutível, continuamos sendo beneficiários dos resultados dessa estratégia de 2017.

Os elementos hoje no tabuleiro:

Os movimentos que hoje vemos têm do lado antichavista Henrique Capriles, que agora resultou ser um articulador dos partidos e, além disso, das liberações e indultos que ocorreram. Isto não provém do nada. Capriles assumiu o rascunho do que Guaidó deixou esfriar por ordens norte-americanas, que é a folha de rota de Oslo a Barbados.

Recentemente, Josep Borrell, a cargo da diplomacia europeia, afirmou estar dialogando com o chavismo e a oposição a possibilidade de criar “novas garantias eleitorais”, precisamente para que parte da oposição hoje, somada à estratégia da abstenção, compareça às eleições.

As possibilidades de que o G3 (o G4 sem Vontade Popular) compareça às eleições foram incrementadas, precisamente desde que a Conferência Episcopal Venezuelana (CEV) chamou os antichavistas a assumir uma estratégia diferente à abstenção e à resignação, estratégia demonstradamente fracassada em 2005. Isto não aconteceu de forma fortuita, os deslindes táticos do antichavismo têm um nível de profundidade tal que o clero reapareceu em sua função de ator político precisamente para se afastar de Guaidó. Tanto as gestões de Borrell, como a postura da CEV, não são para nada inconexas.

Todos estes movimentos no tabuleiro incluem uma proposta de intenções e interesses além do aparente e das frases ocas. No antichavismo acontece um aprofundamento de seus antagonismos e acontece justamente agora, a tomada como carniça dos restos de Juan Guaidó.

Estes eventos ocorrem com Capriles tentando estabelecer-se como líder de uma oposição cativa e paralisada, e, por outro lado, com María Corina Machado batendo a porta na cara de Guaidó para tentar consolidar-se como a favorita dos estadunidenses, ou, pelo menos, assim tentou antes que Elliott Abrams se referisse ao seu “realismo mágico” em um curtíssimo prazo.

Na disputa interna do antichavismo é Capriles quem tem mais probabilidades de se estabelecer. Sabemos desde maio que está trabalhando nisso. É quem lida com a fúria dos opositores furibundos, está assumindo os custos, perseguindo um objetivo maior.

Porém, Capriles não é ingênuo, nem age sozinho. Conta, por trás dos bastidores, com o apoio de outros antichavistas que não querem aparecer como dialogadores na cena aberta, pois são fatores que entendem o custo político disso, mas que entendem também o imprevisível resultado de manter-se fora do rodeio eleitoral.

Quando os estadunidenses decidiram declarar antecipadamente nulas as próximas eleições na Venezuela, declararam que a “presidência” de Guaidó na AN e, consequentemente, do país, seria por “prazo indeterminado”. Torna-se evidente que muitas forças do antichavismo não querem perpetuar a presidência imaginária de Guaidó, muito menos querem ser dominados por Leopoldo López, que desde a embaixada espanhola pretende manter Guaidó como controle remoto para comandá-los.

Os deslindes táticos do antichavismo também se inclinam em direção a interesses econômicos, ao ponto que somente um grupo de deputados do séquito de Guaidó é o beneficiado da continuidade da atual situação, de uma oposição que se projeta no exílio e que capta recursos no exterior, enquanto uma oposição interna fica relegada.

Convém ao antichavismo responder histericamente contra os indultos. Temos visto isso pelas reações de vários dos beneficiários e suas omissões. É lógico que o façam, especialmente os que dizem que desconhecer os indultos passa por continuar desconhecendo Maduro

Não querem se expor em público como domesticados, nem querem diminuir na agenda para dar mais vida a Guaidó e ao seu fluxo de dólares americanos. É assim que esse outro fator no tabuleiro tem pleno sentido.

São fatores que temem ser avassalados pelos antichavistas que irão às eleições, portanto, temos que entender essas narrativas, não como ataques unidirecionais a Maduro: são também ataques aos que dialogam e vão ao rodeio eleitoral.

Tática e estratégia:

Um dos princípios fundamentais em qualquer guerra é o reconhecimento do adversário. Vejamos essa afirmação em profundidade. O reconhecimento do adversário não deriva somente do reconhecimento de sua existência e de suas forças e fraquezas, mas das gravitações e condições que ele e o contexto impõem. O exercício da política seria muito fácil se pudesse ser feito somente a partir de golpes na mesa e nas vísceras, mas não é. Fazer política Real (com R maiúscula) demanda analisar custos, às vezes muito altos, para reajustar o tabuleiro.

Os indultos que foram concedidos foram bem recebidos pelos europeus, os quais estão em um claro deslinde da agenda americana para a Venezuela. Isso implica a ruptura dos consensos entre eles e EUA e abre possibilidades superiores para um reconhecimento das próximas eleições.

Rompem-se abertamente os consensos opositores, criados artificialmente ao redor de Guaidó. A realidade e o término do atual período parlamentar atingem o antichavismo, tal como é inevitável o lapso de hoje até janeiro. Perante Guaidó, suas estratégias fracassadas e uma invasão norte-americana que não acaba de chegar, é evidente que esse descalabro empurra irremediavelmente vários partidos à política. Isso torna indispensável as distensões que hoje têm apoio no aquecido quadro político.

O chavismo tem como objetivo, no tático, que mais setores do antichavismo concorram às eleições para dar-lhes legitimidade, para assim manobrar sua denúncia para o desmantelamento do bloqueio integral contra o país, para assim reconstituir a institucionalidade e fortalecer o espaço parlamentar como componente da governança, que seriam seus objetivos estratégicos.

Ao dar casa em lugar de prisão a Juan Requesens, que participou da tentativa de magnicídio de 2018, torna-se evidente que o próprio Maduro é quem mais cede para atingir um objetivo superior. É quem mais sacrifica suas posturas, em detrimento de seu próprio direito à justiça, para ir a favor de uma regularização do quadro político nacional, para ir a novos consensos e para continuar sedimentando o bloqueio e os fatores adversos que tentam desmantelar a nação a partir do exterior.

Como poucas vezes, estes eventos demandam um nível superior de entendimento, sem arroubos e sem vísceras ao ar, assumindo que a política venezuelana, por sua complexidade, tem nos ensinado que não há eventos fortuitos, muito menos, gratuitos. Que na política tudo é uma aposta e que para apostar temos que colocar as cartas na mesa.

Se lembrarmos, desde 2017 temos conhecimento de que as distensões serviram para ganhar terreno, em ocasiões cedendo “muito”, mas ganhando muito mais. Isto nos faz supor que podem vir mais anúncios, alguns difíceis de engolir e até mais difíceis de digerir. Mas tudo isso é também parte do quadro de excepcionalidade política que lidamos. Os cálculos, os eventos, a tática e a estratégia definem os saldos políticos, e estes ainda estão por serem vistos.

Publicado originalmente, em espanhol, em: https://medium.com/@misionverdad2012/táctica-y-estrategia-una-lectura-de-los-nuevos-indultos-presidenciales-en-venezuela-eb5f8c0853ed


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

Veja também

 


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Franco Vielma

LEIA tAMBÉM

Petro-Colombia
Petro reage a ataques de guerrilheiros contrários ao acordo de paz: "Não toleraremos"
Milei
"Barbárie" e "desequilíbrio emocional": Petro e Fernández criticam nova selvageria de Milei
José Raúl Mulino
Eleição no Panamá simboliza crise sistêmica que atinge democracia "representativa"
Vox-Abascal-Milei
Xenofobia e delírios ultradireitistas: Vox reúne asseclas em Madri