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Entenda por que parlamentares democratas têm cobrado explicações dos EUA sobre interferências na Lava Jato

O pedido de explicações ao procurador-geral Merrick Garland chega tarde, mas pode continuar esmerilhando a operação
Gustavo Veiga
Página 12
Buenos Aires

Tradução:

Um grupo de 23 parlamentares democratas espera a resposta do procurador geral, Merrick Garland, para saber de que modo a principal potência mundial intrometeu-se nos assuntos internos brasileiros. 

A lupa posou-se tarde demais sobre as implicações daninhas para o Brasil na Lava Jato e no papel que desempenhou o Departamento de Estado dos EUA. Proscrito e encarcerado Lula, e destituída Dilma Rousseff, o ovo da serpente mostrou o que já se sabe. O acesso ao Planalto de um ex-militar que reivindica a ditadura, a tortura e cujo governo negacionista multiplicou as consequências da trágica pandemia. Agora um grupo de 23 parlamentares democratas espera a resposta do procurador-geral dos Estados Unidos, Merrick Garland, para saber como a principal potência mundial intrometeu-se nos assuntos internos brasileiros. O que parecia impossível com Donald Trump, aconteceu com Joe Biden.

Mas isso não quer dizer que tenham variado os interesses e a estratégia da Casa Branca para com o país que Jair Bolsonaro preside. Talvez possam vir a ser conhecidos mais detalhes secretos das ingerências de Washington na megacausa de corrupção que explodiu em 2014. Alguns dados foram divulgados faz tempo. Fazem parte do lawfare (lei e guerra, vamos chamar as coisas por seu nome) que acabou com a hegemonia do PT em outubro de 2018 e permitiu a chegada da ultradireita ao poder. 

O pedido de explicações ao procurador-geral Garland, dos representantes do Partido Democrata é uma derivação da carta que 77 deputados brasileiros enviaram a seus pares dos EUA em 2020. The Nation, um jornal progressista dos Estados Unidos, divulgou a solicitação de colaboração entre os parlamentares. 

Citando o grupo de 23 democratas – integrado por Alexandria Ocasio-Cortez de Nova York, Susan Wild da Pensilvânia, Ilhan Omar de Minnesota, Rashida Tlaib de Michigan, Raul Grijalva do Arizona e Jesús ‘Chuy’ García de Illinois, entre outros e outras – afirmou que estão preocupados porque “os recursos que deveriam ter sido destinados a uma importante legislação estadunidense dedicada a combater a corrupção possam ter sido utilizados indevidamente”. 

A carta a Garland foi assinada – além dos representantes do Congresso – por organizações sindicais dos Estados Unidos como a United Auto Workers, a United Food and Commercial Workers, e Retail, Wholesale and Department Store Union. Um sindicato automotriz, um de alimentos e o de trabalhadores de grandes empresas como a Amazon. Todos exigiram na semana passada que se torne pública a informação vinculada ao Departamento de Estado e sua intervenção na Lava Jato.

O pedido de explicações ao procurador-geral Merrick Garland chega tarde, mas pode continuar esmerilhando a operação

Reprodução: Outras Palavras
As irregularidades do processo conduzido pelo ex-juiz e ex-ministro do atual governo, Sergio Moro, continuam sendo ventiladas.

Lawfare

As irregularidades do processo conduzido pelo ex-juiz e ex-ministro do atual governo, Sergio Moro, continuam sendo ventiladas. Ainda que ainda sem consequências importantes como as que espera a sociedade brasileira pelos efeitos devastadores que teve o lawfare para sua democracia. 

A BBC News Brasil entrevistou o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Marco Aurelio Mello, que fez saber que caso fossem provados mais delitos cometidos pelo Poder Judicial na Lava Jato cairiam mais sentenças como a que encarcerou e proscreveu o ex-presidente Lula. Alguns dos fatos já são conhecidos e atribuíram aos Estados Unidos um papel protagonista. Um trabalho publicado na página do CELAG (Centro Estratégico Latino-americano de Geopolítica) pela politóloga argentina Silvina Romano em 28 de maio de 2017 indica que “a judicialização da política tem objetivos materiais claros. Sem necessidade de procurar muito, pode-se ver que a ‘árvore’ da corrupção pareceria estar tapando um bosque: a desmontagem da estrutura econômica brasileira”. 

O objetivo assim proposto pretendia muito mais do que investigar as práticas corruptas na multinacional brasileira Odebrecht. O texto da também pesquisadora do CONICET é rico em antecedentes do lawfare que sofreram os principais dirigentes do PT. Explica além disso que “parece claro que uma das motivações da espionagem foi a Petrobrás e o papel do Brasil no mercado mundial de hidrocarburos”. 

A ex-presidenta Rousseff foi espionada pela NSA (um órgão subordinado à CIA) e em 2013, seu ministro da Justiça Eduardo Cardozo qualificou o fato como “gravíssimo” e como uma “clara violação da soberania” brasileira.

Uma das agentes do FBI que trabalhou ombro a ombro com a Polícia Federal do Brasil e os operadores judiciais nesse país, a serviço do Departamento de Justiça dos EUA, é Leslie Backschies. 

Citada pela Associated Press em março de 2019, disse sem ruborizar-se: “Vimos presidentes derrubados no Brasil”. Também observou “muita atividade na América do Sul. Odebrecht, Petrobras… A América do Sul é uma região onde temos visto corrupção. Temos tido muito trabalho ali”. Nada novo, salvo o interesse unidirecional dos Estados Unidos na corrupção dos governos que não seguem como rebanho sua política hemisférica. 

Durante a Lava Jato – para a qual foi designada em 2014 – a integrante do FBI se familiarizou com a chamada República de Curitiba. Ela viajava para a capital de Santa Catarina com uma frequência parecida com a que Moro ia aos Estados Unidos. 

Já em julho de 1998 e com apenas 25 anos, o ex-ministro estrela de Bolsonaro participou do Programa de Instrução para Advogados na Escola de Direito de Harvard. Desde então nunca interrompeu suas viagens aos EUA. Em julho de 2016 e com a Lava Jato lançada à caça de corruptos, fez uma conferência em Washington DC sobre a importância dos meios de comunicação no apoio a investigações criminais. O desenlace de Moro no gabinete do atual presidente brasileiro é conhecido. Por seus bons ofícios, Backschies foi premiada com destino à cidade do sol, Miami. Desde 2019 está à frente da Unidade de Corrupção Internacional (UCI) do Burô Federal que Edgar Hoover, o chefe misógino e racista que o conduziu ao longo de quase 40 anos, tornou famoso. 

A política contínua de ingerências dos Estados Unidos na América Latina com fins comerciais tem um apoio na Foreign Corrupt Practices Act (FCPA) ou Lei de Práticas Corruptas no Estrangeiro, de 1977. É a ferramenta mais útil do Departamento de Justiça para sancionar outros estados quando são cometidos delitos econômicos fora da jurisdição dos EUA. 

É uma das precursoras – depois outras foram agregadas – na instalação do conceito de extraterritorialidade, tão exposto nas políticas de Washington em relação a Cuba e à Venezuela. Desde março de 2015 o FBI estendeu sua influência nas investigações sobre casos de corrupção fora de suas fronteiras. O do Brasil foi paradigmático e hoje recobra seu interesse no Capitólio. O pedido de explicações ao procurador-geral dos EUA pelos representantes democratas chega tarde, mas pode continuar esmerilhando a Lava Jato.

*Tradução de Ana Corbisier


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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