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Entenda relações entre oposição venezuelana e paramilitares colombianos

Série de fotos do líder opositor Juan Guaidó com narco-paramilitares do grupo Los Rastrojos revela vínculos históricos
Michele de Mello
Brasil de Fato
São Paulo (SP)

Tradução:

As primeiras fotos entre o deputado autoproclamado presidente Juan Guaidó e dois líderes do grupo paramilitar colombiano Los Rastrojos, Jhon Jairo Durán Contreras, conhecido como “Menor”, e Albeiro Lobo Quintero, “Brother”, foram divulgadas pelo presidente da organização social Progresar, em setembro deste ano. Ambos foram detidos pelas Forças Militares da Colômbia por organização criminosa e tráfico de drogas.

Jairo Durán Contreras, o “Menor”, foi preso estado fronteiriço Táchira depois de ser encontrado ferido por uma disputa interna entre os Rastrojos. Enquanto Albeiro Lobo Quintero, o “Brother”, entregou-se numa operação na zona fronteiriça com a Venezuela chamada Guaramito.

No mesmo período, o presidente da Assembleia Nacional Constituinte, Diosdado Cabello, durante seu programa televisivo semanal “Con El Mazo Dando”, divulgou outra fotografia em que o deputado opositor venezuelano aparecia abraçado a Jonathan Orlando Zambrano García, “Patrón Pobre”, investigado por contrabando de combustível e chefe das células encarregadas de realizar sequestros na região de La Fría e Boca de Grita, no estado Táchira, fronteira entre Colômbia e Venezuela.

Guaidó também aparece posando com Argenis Vaca, “Vaquita”, acusado de homicídio, extorsão, narcotráfico e associação criminosa.

Série de fotos do líder opositor Juan Guaidó com narco-paramilitares do grupo Los Rastrojos revela vínculos históricos

infobae
Diego Rastrojo

Fotos públicas

Quando as fotos se tornaram públicas Guaidó disse que, quando cruzou a fronteira para o lado colombiano no dia 22 de fevereiro,  estava cercado de apoiadores, e não sabia com quem tomava fotos.

No entanto, a Força Armada Nacional Bolivariana (Fanb) prendeu, no início de setembro, o braço direito do paramilitar “Menor”, conhecido como “Nandito”, autor da primeira foto pública entre Guaidó e Los Rastrojos.  Era a peça que faltava.

Em sua confissão, “Nandito” detalhou todo o plano que ajudou Guaidó a cruzar a fronteira colombo-venezuelana para o Venezuela Aid Live  – festival de música milionário que celebraria a passagem dos primeiros caminhões de ajuda humanitária à Venezuela.

A operação

Em seu depoimento, o paramilitar colombiano Juan Posso Pedrozo, o “Nandito”, afirmou que no dia 21 de fevereiro uma funcionária do gabinete da governadora do estado Táchira (fronteira com a Colômbia),  Laidy Gómez, do partido Acción Democrática, repassou aos Rastrojos as indicações que recebeu de Roberto Marrero – assessor de Guaidó – sobre o trajeto do autoproclamado presidente.

No dia 23 de fevereiro, a equipe do deputado teria requisitado ao grupo paramilitar colombiano um carro com um motorista de confiança para parte da rota. Prontamente, Los Rastrojos atenderam ao chamado.

As fotos foram tiradas durante essa travessia de carro, em uma parada que durou cerca de 30 minutos. “Nandito” assume que seriam usadas logo depois do sucesso do golpe de Estado na Venezuela – que terminou fracassando –, para garantir livre acesso ao território venezuelano.

“Isso também está evidente com uma série de gravações que comprovam que um dos compromissos de Guaidó com os Rastrojos seria ceder a entrada pelo lago de Maracaibo, um dos territórios mais cobiçados pelo paramilitarismo porque é o território cobiçado pelo narcotráfico para poder transportar sua mercadoria para Europa”, afirma a analista política colombo-venezuelana Maria Fernanda Barreto.

Após o deslocamento no carro dos Rastrojos, Guaidó se encontrou com um helicóptero do governo colombiano que terminou o traslado.

“Obviamente o Estado colombiano está prestando um serviço à direita venezuelana, porque seu maior interesse agora é transnacionalizar seu principal negócio que é a guerra”, considera Barreto.

Los Rastrojos

Segundo a ONG Insight Crime, os Rastrojos são um grupo paramilitar colombiano que surgiu no ano 2002 a partir de uma disputa de território por dois paramilitares narcotraficantes: Wilber “Jabón” Varela e Diego Montoya, o “Don Diego”, quando ambos faziam parte do cartel do Norte del Valle – em referência à região do Valle del Cauca.

Varela havia solicitado a seu aliado Diego Pérez Henao, conhecido como “Diego Rastrojo”, para ajudá-lo a montar seu próprio exército.

A partir de 2006, o grupo expande sua atuação mais além da região pacífica colombiana e toma territórios em um terço dos 32 departamentos do país, incluindo Quindío, Risaralda, Caldas e, na fronteira com a Venezuela, La Guajira.

No entanto, em 2008, Diego Rastrojo mata Wilber Varela e assume a liderança do grupo. A partir de então Los Rastrojos começam a avançar no controle dos departamentos de Santander e Norte de Santander, na Colômbia, conforme demonstra o mapa abaixo.

Em 2012, três dos seus principais líderes foram presos, um deles Diego Montoya, conhecido como ‘Don Diego’, em território venezuelano. Dessa forma, o grupo passou a operar com várias células autônomas, sem uma liderança nacional clara, mas mantendo sua presença nos departamentos de Norte de Santander, Valle del Cauca e Nariño.

Segundo a organização de direitos humanos Progresar, depois de duas semanas da revelação das fotos dos líderes de Los Rastrojos com Guaidó, 16 pessoas foram mortas. 

Grupos irregulares e ajuda humanitária

Além das fotografias que comprovam a relação direta de Guaidó com grupos paramilitares colombianos, outros membros do partido Voluntad Popular confirmam que essa relação se expressa em toda a organização desse grupo da extrema direita venezuelana.

Lilian Tintori – líder da ONG Rescate Venezuela e esposa do líder do Voluntad Popular, Leopoldo López, que esteve lado a lado com Guaidó na tentativa de golpe do dia 30 de abril – afirmou em uma palestra na cúpula Concórdia das Américas que sua ONG trabalha com ajuda de paramilitares para distribuir “ajuda humanitária”.

Literalmente no vídeo, Tintori diz “quem nos ajuda a ter acampamentos humanitários em cada estado do país são os grupos irregulares”. Mais tarde, tal qual Guaidó com as fotografias, Tintori tratou de maquiar sua declaração, dizendo que foi um “deslize”.

Intercâmbio paramilitar

A Venezuela compartilha 2219 km de fronteira com Colômbia. O paramilitarismo é um fenômeno histórico na Colômbia, fruto de mais de 50 anos de conflito armado.

“Nenhum conflito respeita fronteiras. O conflito colombiano, lamentavelmente, teve uma extensão aos países vizinhos. Venezuela não está acostumada a esse tipo de criminalidade. É uma delinquência organizada, com treinamento, armamento e disciplina militar”, afirma Luís Britto García, historiador, dramaturgo e escritor venezuelano.

Os paramilitares, como já sugere o nome, sempre estão associados a militares da ativa e da reserva, são exércitos irregulares privados.

Assim como as milícias que atuam nas maiores favelas do Rio de Janeiro, os paramilitares controlam o transporte, a circulação de pessoas, os serviços em geral, como venda de gás e água, cobrando propina e atuando como Estado, onde falta estrutura e políticas públicas.

Carabobo, Zulia, Yaracuy, Falcón, Anzoátegui, Bolívar e Monagas seriam os estados venezuelanos com presença paramilitar no início dos anos 2000, segundo o livro “Invasão Paramilitar”, do historiador Luis Britto García. No entanto, já foram identificados grupos irregulares também no estão Táchira e Amazonas.

“O paramilitarismo está presente onde existem economias ilegais, com interesses das grandes transnacionais. No caso da Venezuela, uma dessas economias ilegais que o paramilitarismo colombiano utiliza, porque o necessita, é o tráfico de combustível”, agrega a analista Maria Fernanda Barreto.

A gasolina é necessária não só para transportar a mercadoria do narcotráfico, mas também para produzir a cocaína a partir da pasta de coca. Por isso o contrabando de combustível está diretamente vinculado ao tráfico de drogas.

Colômbia é o maior produtor de cocaína do mundo. Segundo a ONU, em 2017, foram cultivados 171 mil hectares da planta de coca, que representava 70% do consumo mundial da droga. 

Enquanto a Venezuela tem as maiores reservas de petróleo do mundo. Um litro de gasolina custa 1 bolívar – a moeda local. Isso significa que com R$ 1,00 seria possível comprar 4850 litros do combustível, considerando o câmbio atual. Como Venezuela e Colômbia compartilham a maior zona fronteiriça do mundo, o negócio do contrabando para os grupos delitivos parece perfeito.

As rotas de contrabando de combustível podem ser por terra – cruzando as fronteiras com a Colômbia, pelos estados Zulia, Táchira, Amazonas, Apure, Barinas, Bolívar – ou pelo mar rumo ao Caribe, Estados Unidos ou Europa, atravessando os estados de Sucre e Delta Amacuro.

Para o historiador Britto García, o paramilitarismo sempre está vinculado à criminalidade ou à política. No caso de estados como Bolívar, Amazonas e Delta Amacuro, pouco povoados e ricos em minérios, o paramilitarismo também se associa ao garimpo e outras formas de mineração ilegal. É o que ilustra o mapa abaixo.

Operação Daktari

Não é de hoje que o governo bolivariano denuncia planos golpistas formulados pela oposição unida aos paramilitares e oligarquia colombiana. No golpe de Estado contra o presidente Hugo Chávez, em 2002, já havia sido alvo de denúncia o apoio de grupos irregulares colombianos aos setores opositores venezuelanos.

Segundo Barreto, aquele era considerado um ano chave pelo paramilitarismo para iniciar a tomada do território da Venezuela, justamente pelo sequestro de Chávez e tentativa de golpe em abril. Como pano de fundo, empoderando esses grupos, figurava a chegada à presidência da Colômbia de Álvaro Uribe Vélez, atualmente senador pelo partido Centro Democrático, que carrega uma série de denúncias de ter relações com o tráfico de drogas e com grupos paramilitares.

“Há uma série de registros de compra de terras fronteiriças do lado venezuelano por empresários colombianos. E para manter a ordem das sua propriedade e dos trabalhadores, que muitas vezes enfrentam condições de super exploração, criam seus próprios grupos armados que acabam exercendo controle sobre esses territórios. Foram se instalando e dominando setores da economia, por meio da criação de empresas de segurança, cassinos, casas de jogos e transporte, fundamental para seus negócios”, conta Britto García.

Também em maio 2004, o presidente Hugo Chávez revelou durante um dos seus programas “Alô Presidente” uma operação de golpe de Estado com apoio colombiano. As forças armadas venezuelanas encontraram 153 paramilitares colombianos na fazenda Daktari, município de El Hatillo, grande Caracas. A ideia era assassinar o presidente Hugo Chávez, provocar uma guerra e justificar uma intervenção militar por conta da violência gerada pelos paramilitares colombianos.

Muitos deles eram menores de idade, depois de descoberto o plano, a maioria foi extraditada para Colômbia.

Denúncia ONU

Durante a 74ª Assembleia Geral das Nações Unidas, a vice-presidenta da Venezuela, Delcy Rodríguez apresentou as coordenadas geográficas de três acampamentos de grupos armados irregulares, que estariam sendo treinados para uma futura invasão no território venezuelano. Os acampamentos estariam em Santa Marta, Riohacha e Maicao, três cidades da zona caribenha colombiana – e próximas a duas bases militares dos EUA na Colômbia: a base naval de Cartagena de Índias e a base aérea de Malambo.

A denúncia sugere que, apesar do fracasso das operações de entrada à força no território venezuelano, no dia 23 de fevereiro, com supostos caminhões de ajuda humanitária, a oposição venezuelana, vinculada a políticos colombianos, ainda estaria disposta a iniciar um conflito armado na fronteira colombo-venezuelana.

Para Barreto, as táticas usadas são as mesmas entre todos os setores envolvidos na tentativa de tomada do poder. “No dia 23 de fevereiro, vimos todos os atores juntos: a delinquência venezuelana coordenada com paramilitares colombianos e dirigidos por Wilcar Hernández, um venezuelano que viveu em Mérida e agora é fugitivo da justiça, que há muito tempo dirigia as guarimbas [atos violentos opositores em 2014 e 2017] na zona andina. Ele também coordenava a incorporação de jovens através do uso da droga para que se tornassem dependentes e militantes dessa oposição mais violenta”, denuncia.

De acordo com um relatório “The Military Balance 2019”, do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (Isis), o número de soldados das forças armadas colombianas é o segundo maior da América Latina, com 293,2 mil efetivos, perdendo apenas para o Brasil, que tem 334,5 mil soldados. A Venezuela ocupa o quarto lugar com 123 mil militares.

Apesar de a correlação de forças ser, aparentemente, favorável à Colômbia, a opção de iniciar uma guerra convencional contra a Venezuela parece ter sido descartada, tanto por conta da falta de apoio da Organização dos Estados Americanos (OEA) e do Grupo de Lima, assim como pelas denúncias internacionais,

Além isso, Maria Fernanda Barreto e Luís Britto García coincidem que há uma série de vantagens no empenho de métodos não convencionais.

“A vantagem é disfarçar a guerra. Uma das razões do porquê se origina o paramilitarismo é justamente para disfarçar as ações da direita colombiana sobre a população, invisibilizá-las, camuflá-las, para que ninguém tenha responsabilidade penal pelos assassinatos e massacres que realizam esses grupos paramilitares. É o que a direita venezuelana quer trazer para cá. Nesse modelo de guerra irregular também deve-se considerar um fator financeiro fundamental para a direita venezuelana e colombiana, que é o narcotráfico”, comenta Barreto.

Para o historiador Britto García o combate à corrupção e a esses grupos armados deve ser constante. Por isso, a Força Armada Nacional Bolivariana (FANB) realizou durante o último mês os “exercícios Venezuela: Soberania e Paz 2019” para proteger a zonas limítrofes da nação. Além disso, o presidente Nicolás Maduro anunciou no dia 9 de outubro, que iriam manter situação de alerta laranja na fronteira com a Colômbia.

No entanto, para Maria Fernanda, não basta a força militar, mas também é necessário povoar essas regiões. “O Estado venezuelano deveria lançar uma política de povoamento das fronteiras. Devem ser as comunas que estão localizadas mais próximas às zonas fronteiriças que devem assumir junto com a FANB e as Brigadas Bolivarianas o controle territorial das fronteiras. Acredito que esse é o único modo para conter a invasão paramilitar na Venezuela”, finaliza a analista.

Edição: Rodrigo Chagas

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
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