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Entrevista com Gina Vargas, referência do feminismo e anticolonialismo peruano

Mulheres na política não me representam por serem mulheres, mas pelo tipo de lutas e mudanças que defendem, observa a socióloga
Nelson Rubio
La Komuna
Lima

Tradução:

Gina Vargas é uma feminista internacionalista anticapitalista e anticolonialista. Em sua juventude, estudou alguns anos no Chile, aderiu ao socialismo chileno, voltou ao Peru, fugindo do fascismo de Pinochet. No Peru, é uma das fundadoras da já, hoje, institucionalizada na subjetividade das mulheres ativistas como ‘as floras’. Refiro-me à ‘sociedade civil’ Flora Tristán.

A contribuição de Gina Vargas é, digamos, ter feito desta instituição civil um ‘sementeiro’ de saberes diversos e vontades feministas. Gina Vargas é, pois, uma referência do feminismo peruano e o representa em eventos e espaços internacionais. Algo, talvez tão relevante, é sua militância cultural com o conceito da “colonialidade/descolonialidade do poder”, de Aníbal Quijano.

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Se não me engano, amiga de Aníbal, que já pertence ao que chamarei a ilustração histórica peruana. Gina Vargas é pois, esta mulher feminista radical que ‘pensa’ e age, levando consigo a semente transgressora da necessidade de um movimento feminista peruano que aprofunde seu caráter de movimento feministicamente crítico e que revolucione o ‘sexto’ sentido do pensar a crítica da crítica da filosofia da Praxis, em uma sociedade peruana, que está, a meu modo de ver, não em crise, e sim, movendo-se no desenlace da longa colonialidade/descolonialidade do poder, e que ingressou, inevitavelmente, na hegemonia do poder global. 

É por isso que me interesso por entrevistar Gina Vargas, feminista e militante de um movimento feminista peruano. Este movimento tem e assume uma árdua tarefa, porque será mover-se dentro da matriz interna dos limites impostos, já não da colonialidade e sim da Hegemonia (in land-online) do poder global. É dentro deste Poder hegemônico Global que se situa o Peru. 

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Confira a entrevista

Nelson Rubio | Qual é, digamos, o estado da evolução do feminismo e/ movimento feminista no Peru? Te faço esta pergunta, porque observei, que mulheres feministas, declaradas, por elas mesmas, ocuparam e/ou ocupam posições em instituições públicas, Universidades, no Congresso etc.; tivemos duas feministas, digamos, militantes, a Prefeita e Ministras da Mulher, Susana Villarán e, ultimamente, Diana Miloslavich, e nada menos, escolhida pelo Presidente Pedro Castillo. Poderíamos estar, talvez, constatando a existência, mais que de feministas anônimas, de um movimento feminista?
Gina Vargas | A primeira coisa é esclarecer que para mim a existência de um movimento, neste caso o feminista, não se mede pela quantidade de cargos políticos ou de representação que obtenha. Ter mulheres em postos de decisão é sem dúvida uma conquista democrática, estimulada sem dúvida pelas feministas, mas isso não o define como movimento.

A participação de mulheres como Diana Miroslavich em um momento em que o Ministério da Mulher ameaçava ser transformado em Ministério da família, foi sem dúvida uma decisão político-pessoal valiosa, mas não foi uma decisão dos feminismos. 

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Pelo contrário, para mim o que define como tal o movimento feminista são as rebeldias, transgressões, mobilizações, pressões sobre os poderes públicos e privados, a articulação de suas lutas, a amplitude de suas conexões e alianças com movimentos democráticos etc.

E, dentro de tudo isso, também as negociações, disputas, presenças no Estado. Porque são movimentos contestatários não só em relação aos direitos das mulheres, ou aos acertos patriarcais existentes, e sim em relação às outras múltiplas formas de opressão que vivem – vivemos – as mulheres (de classe, etnia/raça, dissidência sexual, idade etc.) confrontando abertamente, não só o patriarcado como o capitalismo (não só o neoliberal) e a colonialidade, tão presente e maligna em nossas sociedades. 

Esta “aliança escandalosa” como dizem as economistas feministas que continua nos controlando e oprimindo, é a que os feminismos do Peru (e da América Latina) querem transformar. 

Assumir esta perspectiva é também reconhecer que as ações e reflexões dos movimentos sociais são também políticas; a politização da vida cotidiana, a politização do mal estar das mulheres no privado e no público, as lutas contra o racismo, sexismo, gêneros binários, as lutas pela defesa e ampliação da democracia, por novos conteúdos cidadãos, as lutas antiextrativistas etc. são expressão disso. 

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Hoje o movimento (s) feminista (s) é plural e diverso em rostos, etnias, classe, sexualidade, gênero, residência geográfica, idades etc. São feministas urbanas, rurais, indígenas, afroperuanas, jovens, de diversidades sexuais e transexuais, com dinâmicas e demandas próprias, com diferenças de poder (em uma diversidade tingida de desigualdade, como é o país) e com processos de articulação. 

Por isso, nos feminismos não estão integradas só as visíveis, como também – principalmente – as que você chama de “anônimas” que se organizam e lutam em todas as regiões do país. As mobilizações contra o governo cívico militar atual, que é quase ditatorial, têm ampla participação de mulheres e de mulheres feministas.  

Esta pergunta parte de um fato político do momento: o Peru tem pela primeira vez uma mulher como Presidenta. Você acredita que basta ser uma mulher Presidenta, faz a diferença, para considerar este fato como relevante, por exemplo, para promover mudanças reais de demandas existentes das mulheres, e em favor do feminismo? Há dois Ministérios, da Mulher e da Cultura, que poderiam ser dois canais políticos propositivos para atender a estas demandas.
Um corpo de mulher não garante, nem de longe, um pensamento transformador e democrático de mulher. Muitas vertentes feministas rejeitam assumir que o biológico é o que sela nossa identidade e nossas práticas políticas.

Estamos confrontando opressões, discriminações, e, muito grave, naturalizações da discriminação e da violência contra as mulheres. Por isso, tratamos de alimentar uma nova subjetividade que se sustenta em assumir que as lutas não são só pelos direitos específicos, muito importantes, certamente, mas sim pela mudança radical do sistema atual, para conseguir inclusive que estes direitos específicos sejam realmente reconhecidos e implementados.

As mulheres têm o direito de ser eleitas, nomeadas representantes, aceder a cargos políticos institucionais, porque isso é democrático, esta é a luta pela “paridade”. Mas elas não me representam por serem mulheres, senão pelo tipo de lutas que defendem e pelas mudanças que propõem.

Desta perspectiva, não cabe festejar que tenhamos hoje no Peru a primeira mulher presidenta da história. Pelo contrário, seu exemplo nos serve justamente para deixar claro que as mulheres podem ser tão ruins ou piores do que os homens.

Como fundadora e trabalhadora da instituição Flora Tristán, e, no meu entender, fundadora e/ou promotora do movimento feminista no Peru, considera que existe uma esquerda socialista feminista?
A esquerda neste momento está em crise, como todo o país, o próprio sistema político e toda sua classe política: sem partidos reais, sem lideranças democráticas claras, com escandalosos níveis de corrupção, com organizações e políticas não só conservadoras, como neofascistas.

Sabemos que não é uma crise conjuntural, e sim radical, histórica, que se expressa de forma brutal desde a ditadura de Fujimori (1990-2000) e que continuou, por exemplo, com 5 presidentes da República em 6 anos (desde 2016), a maioria deles presos por corrupção, outros em vias de extradição, ou em prisão domiciliar; um deles suicidou-se para não ser preso. 

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Neste panorama, a esquerda tendeu a privilegiar a dimensão eleitoral da democracia, de acesso ao Estado, descuidando sua amplitude e extensão para a vida social, pessoal, cotidiana. Mas é mais grave. Um setor que se autodenomina de esquerda, que levou Castillo à presidência do país, tem tradição profundamente conservadora, que gerencia a corrupção, que faz alianças com a direita para frear os avanços democráticos: eliminar a educação sexual nos colégios, terminar com a reforma universitária, são alguns exemplos.

Também são exemplos iniciativas que ainda não prosperaram mas que estão à espreita: propor a mudança de Ministério da Mulher para Ministério da Família, condenar o aborto terapêutico (existente no Peru desde 1926), parte evidente das agendas das direitas, e que hoje são assumidas pelos que se definem de esquerda. 

E a esquerda democrática, que não tem esses vícios fundamentalistas nem de corrupção, está em um momento de desconcerto e desorientação. Há sem dúvida mentes lúcidas, há impulso, acompanhamento, apoio às mobilizações, mas há mais dispersão que conexão que potencialize a capacidade de proposta, para além do protesto. 

Voltando aos feminismos, afirmo que no Peru posicionam-se no amplo horizonte das esquerdas, e a partir dali disputam com o Estado, a institucionalidade, mas também com partidos e movimentos não só das direitas como também das esquerdas, exigindo terminar com o pensamento único, que vislumbra o futuro a partir de um só olhar, a partir de interesses particulares, a partir do que consideram únicas verdades. É um horizonte que aspira, como dizem os zapatistas, à possibilidade de alimentar outros mundos possíveis.  O que significa que hoje é a expressão de um horizonte socialista – feminista de novo perfil.

Acredita que seria relevante a organização de um Partido Político Feminista que dispute as eleições, sobretudo hoje, que o Peru, que, em meu entender, está em uma crise social e política, da qual não poderá sair se não se educam as mulheres e os homens, para que “pensem como feministas”? O homem peruano, salvo exceções, não está, nem minimamente capacitado para propor uma transformação qualitativa da sociedade e da política; só será posível quando, pensar como feminista. Observe os homens do Congresso atual, não há um, não digo dois, que pense como feminista. O patriarcado, além de corrompido, é coletivo.
Existem partidos feministas em muitas partes do mundo. Eu não sou partidária disso, ainda que respeite aqueles que acreditam que vale a pena. Para mim a estratégia fundamental é ser uma força política em movimento, a partir da sociedade, do cotidiano, do territorial e do global.

Um partido feminista não transforma os homens em feministas, nem sequer em democráticos. Avançar para desterrar o machismo requer educação diferente, iguais direitos, fortalecer as autonomias das mulheres para que se apropriem de suas vidas, para que elas mesmas rompam o que hoje se chama de “a outra pandemia”: aquela obscura, naturalizada, inexistente aos olhos da sociedade, apesar de sua terrível existência: a violência contra os corpos das mulheres. 

As outras mudanças, urgentes, correspondem aos próprios homens: a revisão de sua masculinidade patriarcal. Hoje, na maioria dos países da América Latina, e em nível global, existem organizações e grupos de homens que discutem, refletem, propõem masculinidades alternativas, que buscam desterrar o poder patriarcal e machista de seus corpos, suas emoções, seus comportamentos. Isso é sem dúvida um tremendo salto adiante.

Nelson Rubio | La Komuna
Tradução: Ana Corbisier


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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Nelson Rubio

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