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Escândalo sobre interceptações ilegais rondam Exército da Colômbia

Instituição executou um programa de espionagem informática que teve entre seus alvos jornalistas, políticos e sindicalistas
Masiel Fernández Bolaños
Prensa Latina
Bogotá

Tradução:

Outro escândalo sobre interceptações ilegais ronda o Exército da Colômbia, depois da revista Semana revelar que esta instituição executou um programa de espionagem informática que teve entre seus alvos jornalistas, políticos e sindicalistas.

Algumas unidades do Exército executaram durante vários meses um dos casos de espionagem mais delicados na história recente do país, disse a revista, no informe especial intitulado Arquivos secretos.

Entre fevereiro e os primeiros dias de dezembro do ano passado, as atividades de mais de 130 cidadãos foram alvo do que os militares chamaram de “perfilhações” e “trabalhos especiais”, afirmou.

De acordo com a resenha divulgada, nessas missões, por meio de ferramentas informáticas e de softwares, realizaram buscas e coletaram maciça e indiscriminadamente toda informação possível acerca de seus objetivos para elaborar informes de inteligência militar.

Telefones, endereços de residência e trabalho, e-mails, amigos, familiares, filhos, colegas, contatos, infrações de trânsito e até lugares de votação fazem parte destes perfis, acrescentou.

Semana informou que tem em seu poder dezenas destes documentos e que durante semanas entrevistou mais de 10 fontes, muitas das quais participaram desta operação que incluiu pelo menos 130 pessoas, entre jornalistas, ex ministros, funcionários da Presidência, generais, políticos, sindicalistas e outros.

Também esclareceu que esta espécie de espionagem informática ocorreu entre fevereiro e começo de dezembro de 2019 quando comandava o Exército o general Nicacio Martínez, que renunciou a seu cargo em dezembro (em meio a recorrentes escândalos que envolviam a instituição).

A revista enfatizou que nos arquivos aparecem vários integrantes do Coletivo José Alvear, alguns dos quais são os advogados de vítimas dos (chamados) falsos positivos (execuções extrajudiciais) ou avançam processos contra generais da reserva acusados dessas práticas.

Esses trabalhos também incluíram líderes do movimento sindical. É o caso de Humberto Correa, secretário de Direitos Humanos da Confederação Geral de Trabalhadores, em cujo arquivo estão documentadas, entre outros, suas viagens, assim como fotos de sua esposa e filho, acrescentou.

Também aparecem integrantes de alguns partidos políticos, como os senadores Gustavo Bolívar, Angélica Lozano e Antonio Sanguino, entre outros.

Adicionalmente, nas últimas horas o ministro da Defesa, Carlos Holmes Trujillo, informou a saída do Exército Nacional de 11 oficiais, o que foi atribuído a denúncias de irregularidades em trabalhos de inteligência.

Trujillo disse que “se afastaram do cargo 11 oficiais e um general brigadeiro, que solicitou a saída voluntária do serviço ativo”.

Instituição executou um programa de espionagem informática que teve entre seus alvos jornalistas, políticos e sindicalistas

Prensa Latina
por meio de ferramentas informáticas e de softwares, realizaram buscas e coletaram maciça e indiscriminadamente toda informação possível.

Perante instâncias internacionais

Depois de divulgadas as revelações, congressistas de oposição na Colômbia disseram que apelarão a instâncias internacionais.

Em uma carta dirigida ao presidente Iván Duque afirmaram que “de novo o país foi informado por um meio de comunicação, e não como resultado de investigações judiciais, de um gigantesco aparato criminoso que funcionou a partir do mais alto escalão do Exército”.

É evidente que os objetivos de “traçar perfis” e “declarar como alvos” estes cidadãos foram perseguir a oposição, censurar a opinião crítica, silenciar as denúncias das violações de direitos humanos, atentar contra a paz e pressionar magistrados das altas cortes, afirmaram.

Não temos notícia de que a responsabilidade nesta operação do ministro de Defesa de então, Guillermo Botero – que deixou o cargo em meio a numerosos escândalos – esteja sendo objeto de investigação penal ou disciplinar, observaram.

Pontuaram ainda que outro tanto ocorre com o diretor da Polícia, general Ascar Atehortúa, que está sendo investigado por atos de corrupção, mas continua ocupando seu cargo como se estes assuntos não merecessem retirada temporária ou definitiva.

Soubemos por meios de comunicação que líderes e membros do Centro Democrático (partido do governo) seriam os autores desta operação de espionagem e seriam destinatários da informação obtida, sem que até hoje tenhamos informação de sua posição sobre tão alarmante circunstância, enfatizaram.

Presidente, concluímos que seu “repúdio” diante deste novo caso de violações de direitos humanos é retórico. É evidente que esta nova situação, como muitas outras que têm ocorrido em seu governo, reafirma que não existem as mais mínimas garantias para a oposição política, afirmaram.

Na opinião dos congressistas, “esta nova operação criminosa, similar à prática das “chuzadas” (escutas e interceptações ilegais) que o país viveu nos governos do presidente Álvaro Uribe (2002-2010), mostra que na Colômbia o respeito aos direitos da oposição política é meramente decorativo, e que estamos diante de um governo autoritário”.

Nós lhe informamos que ante a ausência de resposta a estes repetidos fatos apelaremos não só a instâncias judiciais nacionais, como também enviaremos informação detalhada a instâncias internacionais encarregadas da proteção dos direitos humanos, disseram.

Persistentes escândalos

O certo é que, nos últimos meses, foram vários os escândalos que envolveram o Exército.

Um deles, descoberto no começo deste ano, acompanhou revelações sobre espionagem e interceptações ilegais a congressistas, juízes, jornalistas e defensores de direitos humanos.

A pesquisa, também realizada pela revista Semana, fez referência a um sofisticado sistema de interceptações utilizado pelo Exército por meio de dois dos escritórios de inteligência e contrainteligência, durante o segundo semestre de 2019.

De acordo com a informação divulgada, este sistema teria sido usado para espionar ilegalmente magistrados da Corte Suprema de Justiça, congressistas, governadores, jornalistas e defensores de direitos humanos.

A investigação assegurou que as operações se realizavam a partir de guarnições militares para evitar buscas-surpresa e vazamentos à imprensa.

Segundo a Semana, o uso ilegal de sofisticados equipamentos para espionar políticos, magistrados, generais e jornalistas teria precipitado a saída de Martínez do Comando do Exército.

Naquele momento, várias vozes asseguraram que o Governo tinha conhecimento do que fora divulgado pela revista.

Masiel Fernández Bolaños, Correspondente de Prensa Latina na Colômbia.

Prensa Latina, especial para Diálogos do Sul — Direitos reservados.

Tradução: Ana Corbusier


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Masiel Fernández Bolaños

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