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Espinoza: Com invasão de trumpistas, Capitólio foi cenário de espetáculo digno de Mussolini

O episódio foi duramente comentado. E se prestou para a burla e o escárnio. O que aconteceu nos Estados Unidos podia haver tido outro desenlace
Gustavo Espinoza M.
Diálogos do Sul
Lima

Tradução:

Há 100 anos, em 1920, assomou no mundo um fenômeno inédito:  o fascismo. Foi a resposta do Grande Capital, atemorizado pelo levante dos povos, após a vitoriosa insurreição na Rússia, ocorrida em 1917.

Foi uma maneira de conter o que se via chegar: a derrubada de um sistema de exploração que havia apostado a uma guerra generalizada para salvar sua crise, sem conseguir. Em 1918, efetivamente, no mundo sobravam as armas e os desempregados, mas faltava o trabalho e sobretudo a justiça. 

O remédio apareceu como se fosse ditado pelo diabo: a superexploração dos povos e o chicote para castigar milhões. 

A primeira expressão do fascismo surgiu na Europa central, às margens do Danúbio. Foi o grito de guerra dos poderosos para afogar em sangue a República Húngara dos Conselhos, nascida em 1919 por iniciativa do Conde Karoldy e de Bela Kun. O Almirante Horty esteve à frente da ação. As águas do lago Bálaton se tingiram de vermelho com o sangue dos assassinados. 

Depois, a iniciativa se estendeu à Bulgária balcânica. Ali, o governo da União Agrária dirigido por Alexander Stambolinski havia disposto uma reforma agrária que eliminou o grande poder sobre a terra e inaugurou um sistema mais justo para os camponeses.

O dispositivo foi considerado intolerável pela classe dominante, que recorreu a dois militares sinistros: o general Tzankov e o coronel Valkov organizaram um Golpe de Estado que afirmou o Poder da Seção III do Ministério do Interior, e que exterminou os adversários de seus planos. 

Estavam dispostos – e o disseram – a matar a metade da Bulgária se fosse necessário; mas, sobretudo, lhes interessava restaurar o afetado poder dos proprietários de terra. No meio não houve razões, mas sim balas. 

Mas foi na Itália onde o fascismo alcançou maiores dimensões. A Marcha sobre Roma, em 28 de outubro de 1922, foi um episódio destinado a quebrar a débil resistência de uma monarquia acossada. 

Um rei assustado e pressionado pelo capital financeiro aceitou nomear como seu primeiro-ministro a Benito Mussolini, que deu início a uma nova etapa. Em 1932, a vitória de Hitler nos territórios germanos, deu ao fascismo uma conotação mundial. 

Com outra denominação – Nazismo – as forças idealizadas pelo Grande Capital cumpriram a mesma tarefa. Foram os anos do domínio pardo, que puseram o mundo à beira do holocausto. A II Grande Guerra foi um episódio aterrorizante, mas o fascismo foi abatido. 

O episódio foi duramente comentado. E se prestou para a burla e o escárnio. O que aconteceu nos Estados Unidos podia haver tido outro desenlace

CBS News
O que aconteceu nos Estados Unidos em 6 de janeiro podia haver tido outro desenlace.

Depois de 1945 perfilou-se um novo período da história. E deu a impressão de que a humanidade havia conseguido livrar-se definitivamente desse monstra abominável. Mas não. O fascismo havia sido vencido, mas não estava morto.  Renasceu a partir de 1947. A Guerra Fria e o Macartismo foram duas de suas peças de recuperação. E o anticomunismo desenfreado seu sustento ideológico. 

Agora vimos levantar a cabeça no coração do Império. Washington foi o cenário de um espetáculo que deixou sem palavras a muita gente. Donald Trump – erguido como um senil Mussolini- ordenou a Marcha sobre o Capitólio com a ideia de recuperar um poder que o eleitorado lhe tirara em novembro.  

O episódio foi duramente comentado. E se prestou para a burla e o escárnio. Mas isso não é o que corresponde. 

Em 1920, ninguém levou a sério o Almirante Horthy, nem os militares búlgaros que assassinaram seu povo. Dois anos depois, muitos riam parodiando o Duce. E outros, anos depois, tampouco levaram a sério o cabo austríaco que, em nome do “Espaço Vital” buscou a expansão da Alemanha. Os anos converteram os risos em lágrimas. E depois, as lágrimas em sangue. Não esqueçamos. 

O que aconteceu nos Estados Unidos em 6 de janeiro podia haver tido outro desenlace. E há razões para supor que foi preparado para um final diferente. Isso explica a tolerância policial. O que aconteceu é que faltou força para cumprir o propósito. Porque a arma decisiva do fascismo é essa: a força. 

Trump não é um louco. É um homem plenamente consciente e que sabe o que faz. Perdeu por 306 a 232 no Colégio Eleitoral. E por mais de 7 milhões de votos no eleitorado, contra Joe Biden. Mas proclama sua “vitória” como Guaidó, Jannine Añez, Keiko, ou Merino. Está em seu jogo. 

Mediante a força, o fascismo conseguiu recuperar posições em distintos confins do planeta: no Brasil dos militares de 64 que derrubaram Goulart; no Uruguai de junho de 73, no Chile de Pinochet; na Argentina de Videla. 

Aqui mesmo, tivemos uma paródia que ainda ensaia voo; o regime neonazista de Alberto Fujimori. E mais recentemente, a tentativa de golpe frustrado do passado 9 de novembro. 

Um valoroso jornalista assassinado em 8 de setembro de 1944 na prisão de Pankrak –Julius Fucik- nos disse “Homens do mundo, Velai! O fascismo está vivo! E é claro que está. 

*Colaborador de Diálogos do Sul de Lima, Peru. 


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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Gustavo Espinoza M. Jornalista e colaborador da Diálogos de Sul em Lima, Peru, é diretor da edição peruana da Resumen Latinoamericano e professor universitário de língua e literatura. Em sua trajetória de lutas, foi líder da Federação de Estudantes do Peru e da Confederação Geral do Trabalho do Peru. Escreveu “Mariátegui y nuestro tiempo” e “Memorias de un comunista peruano”, entre outras obras. Acompanhou e militou contra o golpe de Estado no Chile e a ditadura de Pinochet.

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