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Esposa de Assange, sobre apoio de Lula: "É um líder global e pode mudar os rumos da história"

"Acho que ele [Lula] entendeu, antes mesmo de experimentar a mesma sina, que Julian é um prisioneiro político, um prisioneiro geopolítico", afirma
Sara Vivacqua
DCM

Tradução:

Com exclusividade para o DCM, Sara Vivacqua entrevistou, em Londres, Stella Assange, esposa do jornalista e preso político Julian Assange.

Apesar de estarem juntos desde 2015 e terem dois filhos, Stella e Julian só se casaram no ano passado, numa cerimônia restrita na prisão de Bellmarsh, presídio de segurança máxima nos arredores de Londres, onde Julian se encontra encarcerado em regime solitário.

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Stella traçou paralelos entre a perseguição sofrida pelo presidente Lula e a de Julian Assange, discorreu sobre a necessidade da mobilização pública pela liberdade do marido e agradeceu ao presidente Lula por ter se tornado, há muito, uma voz que não se cala frente ao arbítrio dos EUA e do Reino Unido contra ele.

Filha de mãe espanhola e pai sueco, Stella Assange nasceu em 1983 em Joanesburgo, África do Sul. Estudou Direto na Universidade de Londres e tem mestrados em Direito de Refugiados pela Universidade de Oxford e em Direito Internacional, pela Universidade Complutense de Madri. Atualmente vive em Londres, com os filhos, e atua como advogada.

Segue um trecho da entrevista. A tradução é de Edward “O Doutrinador” Magro:

Diário do Centro do Mundo: Você vê alguma relação entre o caso de Lula e o caso de Julian e o que devemos esperar da corte britânica?
Stella Assange: É evidente que o processo contra Lula foi um processo político, foi um processo de lawfare como o de Julian, mas foi uma outra instância do lawfare. Antes das revelações sobre o caso da Lava Jato, era pouco usual o quanto o juiz Moro era citado nos meios de comunicação dos EUA. De repente, eles estavam falando muito sobre esse juiz e, claro, aquilo fazia parte do processo, quando vimos o que aconteceu, o que foi revelado sobre como os EUA estavam envolvidos no caso.

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"Acho que ele [Lula] entendeu, antes mesmo de experimentar a mesma sina, que Julian é um prisioneiro político, um prisioneiro geopolítico", afirma

Reprodução/Instagram
Stella: "Eu sou muito grata a Lula porque, quando ele fala, o mundo escuta"

No caso de Julian, já em julho de 2010, antes mesmo do primeiro mandado de prisão de Julian ter sido emitido pela Suécia, o Departamento de Estado dos Estados Unidos já trabalhava com seus aliados mais próximos na Europa dizendo a eles “encontrem uma maneira de parar esse cara”, “encontrem uma forma de abrir um processo contra ele”.

Mas o Departamento de Estado dos EUA, é claro, estava indicando a seus aliados para usar o sistema de justiça criminal como uma forma de promover seus objetivos políticos, nesse caso para silenciar Julian. E foi isso que vimos acontecer desde 2010, e o ataque a Julian ocorreu em muitas frentes diferentes: ataques políticos à sua pessoa, bloqueio financeiro do Wikileaks e uma frente através da qual os Estados Unidos usaram e abusaram do sistema legal e do sistema de justiça criminal para prendê-lo e tentar silenciá-lo.

Mas o material completo foi publicado, mesmo com Julian preso.
Naquele momento os Estados Unidos tentavam calá-lo pois já sabiam o que Julian e o Wikileaks iriam publicar sobre o Iraque e sobre o departamento de estado e, então, estavam tentando desesperadamente impedir que isso acontecesse. Prevendo o risco, o Wikileaks fez parcerias com outras publicações. Daniel Ellsberg [analista militar norte-americano que forneceu ao New York Times os Pentagon Papers – documentos do Pentágono com os crimes dos EUA na Guerra do Vietnã] tinha uma cópia de segurança, então, mesmo que algo tivesse acontecido, como de fato aconteceu, todo o material teria sido publicado.

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Quando Lula estava para ser preso, falando para uma multidão de apoiadores no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, ele disse “estou me entregando à prisão porque eles não podem mais me prender pois eu sou uma ideia, que pulsa no coração de cada um de vocês”. Eu costumo dizer que, enquanto a perseguição a Lula era autoritária, eu considero a perseguição a Julian totalitária, é uma outra escala. Não sei se você concorda com isso.
O caso de Julian é sobre o próprio Julian, é sobre a separação de nossa família, é sobre a sobrevivência de Julian, mas é também sobre princípios maiores que Julian e o Wikileaks incorporaram com ousadia, protegendo as atividades do jornalismo, lutando pelo direito das pessoas à verdade, de saberem que os governos que estavam cometendo crimes, que eles encobriam crimes de guerra, e claro, a divulgação era uma forma de responsabilizá-los por seus atos.

Se Julian continuar preso, sofrendo tortura, se permitirmos a fratura de todos esses ideais pelos quais lutamos tanto e por tanto tempo, e que são há muito tempo um ideal de princípios que alicerça o tipo de mundo em que queremos viver, então tudo isso desmorona.

Como você vê o empenho pessoal do Lula nesta luta?
Bem, eu gostaria de agradecer pessoalmente, do fundo do meu coração, ao presidente Lula por trazer repetidamente à pauta a defesa de Julian, por apoiá-lo por tanto tempo, há muito tempo, não apenas recentemente. Acho que ele entendeu, antes mesmo de experimentar a mesma sina, que Julian é um prisioneiro político, um prisioneiro geopolítico.

Julian tentou, e conseguiu de fato, trazer à tona a criminalidade e a corrupção que estavam sendo cometidas contra os povos do Iraque e do Afeganistão, e também a violação de princípios e acordos de longa data, por exemplo, em relação ao Brasil como você mencionou.

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Isso é crucial porque testemunhamos ao longo dos anos que Julian foi perseguido e maltratado, o sistema legal falhou em resistir à pressão política e que, em uma situação como essa, em um caso tão cruel como este, é preciso que pessoas na posição de Lula, não apenas em termos de influência política de Lula, mas também de posição moral, se manifestem, porque o ataque a Julian é realmente um ataque ao mundo democrático e impulsionará a triste mudança de um mundo em que os ideais democráticos prevalecem para um mundo em que eles serão desprezados. Isso significa dizer que estamos, como comunidade global, num momento no qual, se aqueles princípios de longa data, dos direitos humanos, da democracia, da liberdade ampla não forem respeitados e de fato desprezados, todo nosso edifício de vivência autônoma e livre desmoronará.

Eu sou muito grata a Lula porque, quando ele fala, o mundo escuta. A imprensa escuta quando ele a chama de covarde, pode ter certeza de que eles estão ouvindo e eles precisam ouvir, eles precisam ouvir na cara deles. Como Lula é um líder global, e não há dúvida disso, ele tem um tipo de liderança que muda o rumo da História, interfere na direção e possibilita uma nova realidade política. Eu acho que muitas pessoas ao redor do mundo, muitos governos e a imprensa estão ouvindo atentamente o que Lula está dizendo.

Sara Vivacqua | Diário do Centro do Mundo
Tradução: Edward “O Doutrinador” Magro


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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Sara Vivacqua

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