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Estas foram as últimas palavras de Salvador Allende após atentado de 11 de setembro

"Tenho certeza de que meu sacrifício não será em vão, tenho certeza de que, pelo menos, será uma lição moral que castigará a felonia, a covardia e a traição"
Salvador Allende
Diálogos do Sul Global
Santiago

Tradução:

Nota da edição: Em 11 de setembro de 2001 um ataque terrorista realizado pela Al-Quaeda … em 11 de setembro de 1973 um ataque terrorista patrocinado pelos Estados Unidos colocava fim no governo revolucionário e popular de Salvador Allende no Chile. Diante da evidência de que suas Forças Armadas o haviam traído, o presidente decidiu se suicidar com a arma Kalashnikov que ganhou do ex-presidente cubano Fidel Castro. 

Eis o relato de Allende: 

9:10 A.M. Seguramente, esta será a última oportunidade em que possa me dirigir a vocês. A Força Aérea bombardeou as antenas da Rádio Magalhanes.

Anatomia de um golpe I: A história do 11 de setembro no Chile, por Paulo Cannabrava Filho

Minhas palavras não têm amargura, mas sim decepção. Que sejam elas um castigo moral para aqueles que traíram seu juramento: soldados do Chile, comandantes-em-chefe no cargo, almirante Merino, que se auto designou comandante da Armada, mais o senhor Mendoza, general rastaquera que ainda ontem manifestara sua fidelidade e lealdade ao Governo, e que também se autonomeou diretor-geral dos carabineiros (Polícia Militar).

Diante de tais fatos só me resta dizer aos trabalhadores: não renunciarei! Colocado num trânsito histórico, pagarei com minha vida a lealdade ao povo. E lhes digo que tenho a certeza de que a semente que entregamos à consciência digna de milhares e milhares de chilenos, não poderá ser cortada definitivamente. Têm a força, poderão nos avassalar, mas os processos sociais não se detêm nem com o crime, nem com a força. A história é nossa e quem a faz são os povos.

"Tenho certeza de que meu sacrifício não será em vão, tenho certeza de que, pelo menos, será uma lição moral que castigará a felonia, a covardia e a traição"

Wikimedia Commons
Salvador Allende

Trabalhadores de minha Pátria: quero lhes agradecer a lealdade que sempre dedicaram, a confiança que depositaram em um homem que só foi intérprete de grandes sonhos de justiça, que empenhou sua palavra em que respeitaria a Constituição e a lei, e assim foi feito.

Neste momento definitivo, o último em que eu posso me dirigir a vocês, quero que aproveitem a lição: o capital estrangeiro, o imperialismo, unido à reação, criaram o clima para que as Forças Armadas rompessem sua tradição, a que lhes ensinara o general Schneider e reafirmara o comandante Araya, vítimas do mesmo setor social que hoje estará esperando, com mãos alheias, reconquistar o poder para continuar defendendo suas prebendas e seus privilégios.

Anatomia de um golpe II: A história do 11 de setembro no Chile, por Paulo Cannabrava Filho

Dirijo-me à juventude, àqueles que cantaram e entregaram sua alegria e seu espírito de luta. Dirijo-me ao homem de Chile, ao operário, ao camponês, ao intelectual, àqueles que serão perseguidos, porque no nosso país o fascismo já esta há muitas horas presente; nos atentados terroristas, explodindo pontes, paralisando as ferrovias, destruindo os oleodutos e os gasodutos, ante o silêncio de quem tinha obrigação de atuar. Estavam comprometidos. A história os julgará.

Seguramente a Rádio Magallanes será silenciada e o metal tranquilo de minha voz já não chegará a vocês. Não importa. Seguirão escutando-a. Sempre estarei junto de vocês. Pelo menos a lembrança de mim será de um homem digno que foi leal com a Pátria.

O povo deve se defender, mas não se sacrificar. O povo não deve deixar-se arrastar nem metralhar, mas tampouco pode se humilhar. Trabalhadores de minha Pátria, tenho fé no Chile e seu destino. Superarão outros homens neste momento cinza e amargo em que a traição pretende impor-se. Fiquem vocês sabendo que, muito mais cedo que tarde, de novo abrirão as grandes alamedas por onde passe o homem livre, para construir uma sociedade melhor.

Viva Chile! Viva o povo! Vivam os trabalhadores!

Estas são minhas últimas palavras e tenho certeza de que meu sacrifício não será em vão, tenho certeza de que, pelo menos, será uma lição moral que castigará a felonia, a covardia e a traição.

Salvador Allende (11/091973)

Tradução: Beatriz Cannabrava


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

   

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