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Estudantes se organizam para boicotar precariedade do ensino remoto no país

"O resultado dessa política alheia à realidade é uma educação faz-de-conta, onde os professores fingem que ensinam e os alunos fingem que aprendem"
Redação Esquerda Diário
Esquerda Diário
Florianópolis (SC)

Tradução:

O EAD nas escolas públicas brasileiras tem sido um caos para os professores, estudantes e demais trabalhadores da educação. São inúmeros fatores materiais e subjetivos que impedem hoje a maioria dos estudantes de assistirem às aulas EAD, como vemos no Piauí, onde apenas 9% dos alunos acessam as aulas online. E mesmo aqueles que acessam, reclamam constantemente nas redes sociais de não estarem conseguindo aprender a matéria. Como ficará o aprendizado do ano letivo para os 39,4 milhões de estudantes em instituições públicas brasileiras?

Por falta de solução por parte dos governantes, que inclusive insanamente querem retornar às aulas presenciais em alguns estados mesmo em meio aos 100 mil mortos por Covid-19, alguns estudantes de diversos estados do país já estão se organizando para reprovar propositalmente de ano. Em entrevista para a BBC, jovens da rede pública de Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Ceará, Mato Grosso, Rio de Janeiro, São Paulo e Paraná afirmam não estar conseguindo aprender sozinhos em casa e que o ano letivo está perdido.

Uma estudante do terceiro ano no estado de Minas Gerais, Júlia Almeida, publicou um vídeo no seu Instagram explicando “Por que vou reprovar em 2020”, que teve amplo alcance nas redes, com estudantes compartilhando do mesmo sentimento. No twitter há manifestações de jovens que vão no mesmo sentido, como “Se eles não cancelarem essas aulas, eu vou reprovar de propósito. Não dá mano, tá impossível estudar via internet”; “Sim, eu não tô fazendo as atividades online para reprovar de propósito e ter um terceiro ano de verdade”; “Prefiro reprovar de propósito e refazer o 3º do que passar e não saber nada”.

“No caso, não seria reprovar, seria fazer mesmo o segundo ano. A gente não está fazendo o segundo ano, nem sei o que a gente está fazendo. Todos os meus amigos estão com dificuldade, todos reclamam, ninguém está entendendo nada das matérias”, afirma estudante da rede pública de Montes Claros, em Minas Gerais.

"O resultado dessa política alheia à realidade é uma educação faz-de-conta, onde os professores fingem que ensinam e os alunos fingem que aprendem"

Caert.org
"É meio complicado falar como estão sendo as aulas, porque não estamos tendo aulas"

Esses comentários comprovam que é impossível repensar um modelo educacional excepcional e minimamente eficiente em meio a pandemia sem consultar os estudantes e professores. Isso porque o EAD foi imposto pelas secretarias sem nenhum tipo de diálogo com os trabalhadores da educação, aqueles que estão nas escolas diariamente, convivendo com a realidade das escolas públicas brasileiras.

O resultado dessa política alheia à realidade são inúmeros professores despreparados para atuar em EAD, resultando em uma educação faz-de-conta, onde os professores fingem que ensinam e os alunos fingem que aprendem. Assim se sentem 83,4% dos trabalhadores da educação.

“É meio complicado falar como estão sendo as aulas, porque não estamos tendo aulas. Existe uma aula de 20 minutos na televisão, só que é a mesma coisa que nada, não dá tempo de introduzir a matéria. Distribuem atividades, mas não conseguimos fazer porque não temos auxílio”, diz uma estudante do ensino público de Belo Horizonte.

Alguns estudantes defendem inclusive o cancelamento do ano letivo para todos, como um dos entrevistados que afirma “O governo joga atividades para nós e pede para fazermos. Mas você não aprende nada. Ninguém aprende nada” e completa “Não vou pagar de bom samaritano e dizer que se fosse para a escola aprenderia tudo. Eu não aprenderia tudo, mas aprenderia muito mais do que com o sistema de EAD”. Como podemos ver, a maturidade dos estudantes supera em muito a do próprio presidente Bolsonaro, que afirma “vamos tocar a vida” em meio a uma das maiores crises da história, no exato momento em que alcançamos a marca de 100 mil mortos.

O ENEM é uma das maiores preocupações dos estudantes do ensino médio, já que o exame se manteve, sendo adiado apenas 60 dias da data original, período de tempo completamente insuficiente para quem está perdendo um ano letivo inteiro. Se o ENEM, juntamente das provas de vestibular das Universidades, já é um filtro social e racial que impede todos os anos milhares de jovens de acessar o ensino superior, com a pandemia esse sonho torna-se cada vez mais distante. Os estudantes reclamam do aumento da desigualdade entre o ensino público e privado, como afirma uma estudante que precisa seguir trabalhando e não consegue tempo para o precário EAD: “Eles (estudantes de escolas privadas) têm preparação o ano todo, auxílio o ano todo, simulados. A gente não tem toda essa preparação, ainda mais agora.”

“Eu não entendo nada com EAD. Não tenho suporte para estudar sozinha em casa. Passei a vida inteira estudando com professor do meu lado na escola. E aí, agora, do nada isso (…) Sinto falta de aprender coisas novas e de fato entender o conteúdo. Agora só fico ansiosa porque não consigo entender aquilo. Tento procurar reforço no YouTube e também não entendo, não pego nada”, comenta uma estudante da rede pública do Rio Grande do Sul.

Redação Esquerda Diário


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
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