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Foto: Gage Skidmore / Flickr

EUA agonizam: envio de R$ 490,4 bi para guerras é perigo global, mas reflete fim da era unipolar

Montante será enviado para Ucrânia, Israel e Taiwan, as pontas de lança da política de agressão dos EUA contra Rússia, Palestina e China
Pablo Jofré Leal
HispanTV
Santiago

Tradução:

Os EUA concederão um novo pacote financeiro e militar de 95 bilhões de dólares (equivalente a R$ 490,4 bilhões) para favorecer a política belicista dos regimes israelense, ucraniano e taiwanês.

Em 20 de abril, a Câmara dos Representantes dos Estados Unidos votou para conceder um novo pacote financeiro e militar de 95 bilhões de dólares para favorecer a política belicista dos regimes da Ucrânia, de Israel e de Taiwan, tudo isso sob a narrativa falsa de “ajuda à defesa”. Três dias depois, em 23 de abril, o Senado dos Estados Unidos deu seu aval para que essa cifra bilionária fosse finalmente aprovada, impulsionando e catalisando ainda mais os processos de guerra em três frentes de interesse para os Estados Unidos e seus aliados.

Refiro-me aos cenários de guerra e desestabilização no leste da Europa com a Ucrânia ao lado da OTAN contra a Rússia. No Oriente Médio, para promover a renovação de armas para o nacional-sionismo e intensificar o extermínio da população palestina. No caso da província chinesa rebelde de Taiwan, o objetivo é promover uma política de máxima pressão política, econômica e militar contra a República Popular da China. Os três mencionados, usados como testas-de-ferro e pontas de lança da política de agressão de Washington contra a Rússia, contra a Palestina e contra o gigante asiático.

Faltava apenas a aprovação e assinatura do presidente dos EUA, Joe Biden, o que foi feito nesta quarta-feira (24). Sem surpresas, visto que foi sua administração impulsionou essa nova entrega de dinheiro e material de guerra e conseguiu desbloquear a negativa republicana que bloqueou essa iniciativa por meio ano, forçando os grupos de pressão – lobistas – desses regimes favorecidos a extremar recursos e pagamento de favores para que os congressistas votassem a favor. O rio de dólares correu desenfreado, em benefício da guerra e da desestabilização no mundo.

Chuck Schumer, líder do partido Democrata no Senado dos Estados Unidos, afirmou com satisfação: “Finalmente, depois de mais de seis meses de trabalho árduo, os Estados Unidos enviam uma mensagem ao mundo de que farão todo o possível para salvaguardar a democracia.” A mensagem é clara, evidente e perigosa: o mundo deve esperar mais mortes, mais extermínio e mais perigo de uma guerra global. Uma mensagem sibilina e hipócrita, pois as perguntas são evidentes: que democracia pode ser mencionada pelo regime neonazista ucraniano ou pela entidade nacional-sionista israelense, que está há 76 anos em um processo de ocupação, colonização e extermínio do povo palestino? Democracia em Taiwan, apêndice estadunidense na Ásia? Por sua vez, Mike Johnson, líder do partido republicano na Câmara dos Representantes, explicou seu voto positivo sob a máxima “Para dizer claramente, prefiro enviar balas para a Ucrânia do que garotos americanos”. Como sempre foi na realidade, promover, preparar, financiar e incentivar guerras e depois esconder a mão.

O que foi mencionado é a expressão da brutal e criminosa política externa de Washington em relação ao mundo e aos conflitos que gera, incentiva, participa, financia e dos quais finalmente se beneficia suas multinacionais de energia, o complexo militar-industrial e tudo o que resulte em dinamizar a economia dos Estados Unidos, que floresce sob guerras e a morte de milhões de seres humanos: claro, fora do território dos Estados Unidos, porque uma coisa é falar de conflitos, mortes, dor, instabilidade global, até apelar para conceitos vagos e imprecisos como democracia, direitos humanos, mas não sofrer nem um arranhão em seu território. Não é à toa que o orçamento destinado à guerra dos Estados Unidos é bilionário, representando cerca de 40% de tudo o que é gasto em armas no mundo (uma cifra de 920 bilhões de dólares), que, somada aos números exibidos pelos países membros da OTAN, representam 53% de todo o gasto militar mundial, com 1,3 trilhão de dólares.

Os gastos militares globais atingiram 2,44 trilhões de dólares em 2023. Uma cifra que aumentou 6,8% em relação ao ano anterior e representou o maior aumento de um ano para outro desde 2009, de acordo com o relatório do Instituto Internacional de Pesquisa sobre Paz de Estocolmo – SIPRI – relatório que observa que os 10 países que mais gastaram em 2023 – liderados pelos Estados Unidos, China e Rússia – todos aumentaram seus gastos militares (1) O analista Xiao Liang, pesquisador do Programa de Gastos Militares e Produção de Armamentos do SIPRI, aponta neste cenário de gastos que “Todos os membros da OTAN, exceto três, aumentaram seus gastos. Além disso, onze dos 31 membros da OTAN atingiram ou até mesmo superaram a meta de 2% do PIB, o mais alto desde o fim da Guerra Fria. Também com a entrada da Finlândia e da Suécia na OTAN, presumimos que mais países alcançarão a meta e que os gastos globais dos países membros continuarão aumentando” (2)

Uma Organização do Tratado do Atlântico Norte que representa não apenas a maior porcentagem de gastos militares do mundo, mas também, por meio de seus complexos militares-industriais, promove o comércio de armas globalmente e uma política de corrida armamentista que continua aumentando o gasto em recursos em armas e menos em desenvolvimento social. Pela primeira vez desde 2009, os gastos militares aumentaram em todas as cinco regiões geográficas definidas pelo SIPRI, com aumentos especialmente significativos na Europa, Ásia e Oceania e Oriente Médio. “O aumento sem precedentes nos gastos militares é uma resposta direta ao deterioro global da paz e segurança”, afirma Nan Tian, pesquisador sênior do Programa de Gastos Militares e Produção de Armas do SIPRI. “Os estados estão priorizando a força militar, mas correm o risco de entrar em uma espiral de ação e reação em um cenário geopolítico e de segurança cada vez mais volátil”.

Os gastos militares da Ucrânia, sem levar em conta os enormes recursos fornecidos pelo ocidente, mostram que o país europeu oriental é o oitavo país que mais gastou em 2023, após um aumento de 51% nos gastos, atingindo 64,8 bilhões de dólares. Isso representou para a Ucrânia uma carga militar de 37% e representou 58% do total de gastos públicos. Uma cifra que hipotecou o futuro deste país, impulsionado em seu conflito por uma Estados Unidos e uma OTAN que os incentivam a gastar e gastar, transformando o regime de Kiev em um saco sem fundo, gravando as gerações futuras. Taiwan destinou 17 bilhões de dólares em despesas militares, às quais devem ser adicionadas as cifras entregues anualmente pelos Estados Unidos, que em 2024 significam um ingresso de 9,1 bilhões de dólares. No caso da entidade sionista, ela destinou 27,5 bilhões de dólares para suas operações militares, igualando a cifra autorizada por Washington este ano de 2024. O SIPRI observa que a entidade nacional-sionista aumentou seus gastos militares em 24% – o segundo maior aumento da região após a Arábia Saudita – atingindo os mencionados 27,5 bilhões de dólares em 2023. O aumento nos gastos se deveu principalmente à ofensiva exterminadora em grande escala em Gaza iniciada em outubro de 2023.

Neste cenário de bilhões de dólares destinados a armas, os conceitos de dor e morte são uma realidade trágica, expressa em milhões de seres humanos que morreram nas mãos daqueles que promovem o aumento do comércio de armas e que costumam falar de democracia, defesa dos direitos humanos e apelo à paz, mas uma paz que implica seu domínio. Um ocidente hipócrita que nos chama para comprar suas armas e assim desenvolver suas economias, que punem aqueles que se atrevem a enfrentar esse poder unipolar em declínio. Um ocidente desavergonhado que encoraja o conflito e depois usa as organizações internacionais como a ONU para impedir a punição de suas ações próprias de associações criminosas ilícitas, delituosas, cuja estratégia é amplificar essa doutrina do caos programado apresentada pelo sionista Paul Wolfowitz na queda da ex-União Soviética e que explica essa política que negou garantias de segurança à Rússia, o aumento das adesões à OTAN e o cerco de bases militares a essa federação russa e, acima de tudo, sob a liderança de Vladimir Putin, que ressurgiu das cinzas e hoje enfrenta esse ocidente mais próximo do nazismo do que de modelos de democracia.

Uma doutrina de Wolfowitz que se acreditava extinta, mas que hoje, no ano de 2024, está mais presente do que nunca, agonizante, dando chutes como um animal agonizante, mas atual e perigosa. Uma doutrina que, definida pelo analista político Paul Craig Roberts em um artigo intitulado “Por que a Terceira Guerra Mundial está à vista?”, nos ilustra. “Temos um poder global avassalador. A história nos designou como os guardiões do sistema internacional. Quando a União Soviética se desfez, algo novo nasceu, algo completamente novo, um mundo unipolar dominado por uma superpotência única sem rivais e com alcance decisivo em todos os cantos do mundo. Isso representa um desenvolvimento novo e surpreendente da história, que não era visto desde a queda de Roma. Nem mesmo Roma é um modelo adequado para o que hoje é chamado de Estados Unidos”. (3)

“O poder unipolar que a história deu a Washington deve ser protegido a todo custo”, destaca Roberts. Segundo o analista, a doutrina Wolfowitz, tornada pública em 1992, tornou-se a base dessa política neoconservadora de Washington. “Nosso primeiro objetivo é evitar o retorno de um novo rival, seja no território da antiga União Soviética ou em qualquer outro lugar, que possa representar para a ordem a mesma ameaça que anteriormente representava a URSS”, expressa o documento. “Este é o fator principal que forma a base da nova estratégia de defesa regional, e devemos fazer todo o possível para evitar que domine a região um poder hostil cujos recursos sob um controle consolidado seriam suficientes para gerar um poder global”.

O poder global explicado na mencionada doutrina de claro corte imperial-sionista, a partir do domínio de recursos energéticos, passagens marítimas, entre outros pontos relevantes. Isso, em clara referência à Ásia Ocidental e à política de máxima pressão exercida contra a República Islâmica do Irã, que serve como um claro referente e líder do eixo de resistência. O problema reside no fato de que essa visão e essa prática imperial-sionista estão cada vez mais em questão, seja pelo poder inegável da República Popular da China, pelo ressurgimento de uma Rússia poderosa e um eixo de resistência, que colocou em xeque o sionismo que já não pode desempenhar o papel de testa-de-ferro e cervo sedento de sangue que lhe foi atribuído pelos Estados Unidos e seus aliados. Mas não confiemos, a luta é longa e sustentada, os dólares e a carga de morte são uma realidade dolorosa, mas os sinais são fortes e positivos: o fim do sionismo e desse poder unipolar que tanto mal faz ao nosso mundo.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.

Pablo Jofré Leal Jornalista e escritor chileno. Analista internacional, Mestre em Relações Internacionais pela Universidade Complutense de Madrid. Especialista em temas principalmente da América Latina, Ásia Ocidental e Norte da África. Colaborador de várias redes de notícias internacionais. Criador do site de análise internacional ANÁLISIS GLOCAL www.analisisglocal.cl.

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