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EUA e Israel na areia movediça: o fracasso em Gaza e o fim da ordem imperialista mundial

Mesmo com tamanho aparato, o Estado sionista está perdendo a guerra, uma derrota ampla que vai muito além do território palestino
Eduardo Vasco
Diálogos do Sul Global
São Paulo (SP)

Tradução:

Já está muito claro que Israel não vai ganhar nenhuma guerra em Gaza. A vitória em uma guerra como esta, que é uma guerra imperialista, colonial e de invasão, não tem a ver com a devastação causada ao país atacado, mas com a dominação político-administrativa e a consequente estabilização desse domínio. Para vencer, Israel precisa afastar o Hamas do poder e aniquilar seu potencial de oposição, instalar um regime títere e pacificar a Faixa de Gaza – aos moldes do que a OTAN (EUA) fez no Kosovo. E a história já mostrou que isso é inviável em Gaza, pois desde 1948 o estado é de guerra sem fim (apenas com algumas desescaladas momentâneas) em todo o território da Palestina histórica.

Israel reúne as principais características de um invasor derrotado: crise política e econômica interna, despreparo e desmoralização do exército, oposição da opinião pública mundial e, por outro lado, a resistência ferrenha do inimigo. Sua situação é muito semelhante à dos Estados Unidos pós-1968 no Vietnã ou na segunda metade do período de ocupação do Afeganistão. A diferença é que esse cenário extremamente negativo é uma realidade já nos primeiros três meses de guerra (para não dizer desde o primeiro dia).

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No âmbito militar, as Forças de Defesa de Israel acumulam vexame atrás de vexame, demonstrando uma falta impressionante de preparação para o exército que sempre foi considerado um dos mais temidos do mundo: dispararam contra seus próprios cidadãos quando da ofensiva da resistência palestina em 7 de outubro (se é que não foi proposital), bombardearam seus próprios cidadãos que haviam sido capturados pelos palestinos em Gaza, mataram 30 de seus próprios soldados como resultado de “fogo amigo”, muitos militares em posição de comando são absolutamente inexperientes e ao menos 2.800 tiveram de receber tratamento psicológico por traumas de guerra.

Por seu turno, o inimigo está com a moral alta (as pesquisas de opinião mostram um aumento na já elevada popularidade do Hamas e uma crença dos palestinos na vitória) e, se os combatentes representam cerca de 10% dos 23 mil palestinos assassinados em Gaza, essas baixas não chegam a 5% do número de militantes armados da resistência. Israel emprega mais de 250 mil soldados da ativa e outros 200 mil reservistas na guerra, mas a quantidade de tropas conta pouco em uma guerra irregular e assimétrica como esta, contra algumas dezenas de milhares de guerrilheiros urbanos que podem aparecer a qualquer momento na frente de um soldado, saindo de túneis, casas, becos e buracos.

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Muitos soldados israelenses, despreparados e inexperientes, seguram seus fuzis borrando-se nas calças. Até agora, cerca de 180 militares de Israel foram mortos na invasão a Gaza, com o número de soldados feridos podendo chegar a 20 mil, segundo uma reportagem da Bloomberg. Embora as baixas fatais sejam pequenas se comparadas com as do adversário, são as maiores que Israel já teve nesse tipo de guerra contra a resistência palestina, o que levou o Washington Post a chamar de “histórica” a taxa de soldados israelenses mortos.

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Mesmo com tamanho aparato, o Estado sionista está perdendo a guerra, uma derrota ampla que vai muito além do território palestino

Montagem | Brasil 247
A dominação imperialista como conhecemos está claramente ruindo na nossa frente, e a um ritmo impressionantemente acelerado




“2023 foi o pior ano da história de Israel”

No âmbito político interno, “2023 foi o pior ano da história de Israel”, segundo o Haaretz, o principal jornal do país. O governo mais reacionário ideologicamente que Israel já teve, ainda mais do que as administrações anteriores de Benjamin Netanyahu, chegou ao poder como resultado de um acordo que indicou a opção do imperialismo americano por endurecer o regime do Estado fantoche e artificial diante de um cenário que já se sabia cada vez mais complicado para Israel, com o fortalecimento do Eixo da Resistência. A extrema-direita foi escolhida na falta de opções que pudessem estabilizar minimamente a situação política conturbada e garantir as posições dos EUA na região.

O grande problema é que os fundamentalistas sionistas não querem estabilizar nada e suas soluções para a sobrevivência da colonização da Palestina não passam pela diplomacia – os ganhos com ela são parciais e demorados demais para seu gosto. Netanyahu e sua gangue entraram, assim, em choque com a tática estabelecida pelo imperialismo em Israel – e isso, como acabou ocorrendo, geraria uma instabilidade que poderia ser fatal. Por isso os EUA estão utilizando o Poder Judiciário para tentar retomar as rédeas da política israelense a fim de que essa divergência tática (que, inclusive, levou Netanyahu a se aproximar de Putin) seja dissipada.

Contra o sionismo, contra o antissemitismo, pela humanidade

As manifestações de rua, que no fundo expressam o enorme descontentamento de uma parte dos israelenses com a tática de Netanyahu e com a instabilidade gerada por ela, têm o apoio da CIA (como foi reportado pela imprensa norte-americana), porque, já no início de 2023, era possível presumir um destino desastroso para o regime sob a condução de Netanyahu. A Operação Tempestade de al-Aqsa veio para aprofundar essa crise política de uma maneira dramática. As divisões chegaram à alta cúpula governamental, com trocas públicas de farpas entre seus membros.

A Tempestade de al-Aqsa está desferindo duros golpes na economia israelense. A guerra consome 220 milhões de dólares diariamente, superando o orçamento anual para a segurança do Estado. O déficit orçamentário subiu de 2,6% do PIB em outubro para 3,4% em novembro e deixarão de ser arrecadados 20 bilhões de dólares no começo de 2024. Houve uma queda de 12% no mercado de ações, redução do consumo e da arrecadação de impostos e um abalo na confiança dos empresários e investidores.

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Milhares de trabalhadores estrangeiros fugiram de Israel desde outubro, enquanto o governo suspendeu o contrato de 100 mil trabalhadores palestinos e 20% dos trabalhadores israelenses foram convocados para a guerra – sendo 15% no setor de tecnologia, o carro-chefe da economia, despencando a arrecadação das empresas do ramo em 56%. Cerca de 900 mil pessoas (incluindo trabalhadores altamente qualificados de setores-chave da economia) chegaram a deixar seu trabalho devido à guerra, fora os 230 mil evacuados das fronteiras norte e sul. O governo está tendo de arcar com os custos dos deslocados e do salário dos reservistas convocados para o exército.

O porto de Eilat, o principal de Israel, praticamente não funciona mais desde o bloqueio do Mar Vermelho pelos houthis. Os corajosos iemenitas, com um simples movimento, atingiram o calcanhar de Aquiles do regime de ocupação da Palestina. Principalmente porque, além de agudizar a crise econômica dentro de Israel, está apertando fortemente o calo dos financiadores do genocídio promovido por Tel Aviv: as grandes potências ocidentais, controladoras do sistema econômico internacional.

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A BBC informa que as taxas de transporte marítimo chegaram a aumentar em até 250% para importadores do Reino Unido, porque os ataques contra navios de ou com destino a Israel que passam pelo Mar Vermelho e o estreito de Bab al-Mandab levaram as empresas transportadoras a evitarem esse trajeto, mesmo que não tenham vínculo com Tel Aviv. Assim, devem optar por rotas mais longas e, portanto, mais caras, repassando o prejuízo para seus clientes, que, por sua vez, repassam para os consumidores finais.

O mercado petrolífero mundial é um dos mais prejudicados. Na reta final de dezembro, o preço do barril de petróleo chegou ao pico de 80 dólares (Brent), o maior em dois meses. O novo ano começou seguindo a tendência de alta: na sexta-feira (05), a Brent fechou em quase 79 dólares o barril e a West Texas Intermediate em quase 74. Na esteira da corrida pelos trajetos marítimos, o Egito está aumentando a taxa da passagem pelo Canal de Suez em até 15% a partir deste mês, elevando drasticamente os custos de transporte de petróleo e contêineres. “As artérias pelas quais passa 90% do comércio mundial estão ficando bloqueadas”, lê-se em um artigo do The Telegraph.


O que já é ruim vai ficar ainda pior

“O comércio global poderá ter um 2024 sombrio”, prevê o mesmo artigo. O seu autor, um ex-oficial da marinha britânica chamado Tom Sharpe, recorda que, “historicamente, a Marinha Real foi o garantidor da segurança marítima” e que, “hoje, este papel cabe à marinha dos EUA, e é um papel cuja sua falta de combate no Mar Vermelho sugere que está cada vez mais cansada de assumir”.

Talvez não seja exatamente cansaço, mas impotência. A operação naval anunciada pelos EUA para desbloquear o Mar Vermelho desmoronou antes mesmo de começar, com vários países aliados dos americanos pulando do barco (com o perdão pelo trocadilho). A marinha americana, praticamente sozinha, ainda não teve coragem de realizar nenhuma ofensiva contra as posições dos houthis, responsáveis pelo que o Wall Street Journal chamou de “a ameaça mais significativa à navegação global em décadas”.

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A pior notícia para os americanos é que Bab al-Mandab e o Mar Vermelho – cujo fechamento já foi o suficiente para sangrar Israel e seus criadores – podem ser apenas o começo de uma hemorragia fatal. O Irã e seus aliados ainda têm muitas cartas na manga, como o bloqueio do Mediterrâneo, do Estreito de Ormuz e de outras passagens vitais. Por exemplo, por Ormuz passa cerca de metade do carregamento mundial de petróleo e o fechamento desse estreito causaria a quebra do mercado petrolífero e financeiro, segundo os analistas. “As fundações do sistema comercial global estão tremendo”, comenta Sharpe.

Há previsões de que um bloqueio completo do Mar Vermelho poderia custar 10 milhões de dólares por dia a Israel, enquanto a entidade sionista não encerrar seu genocídio em Gaza. E, com este continuando ao longo de 2024 (como já reconhece o próprio Netanyahu), os custos da guerra deverão ser iguais a 10% do PIB de Israel. O Ministério das Finanças estima que, caso ela dure até fevereiro, isso vai custar 14 bilhões de dólares – quase triplicando o déficit orçamentário. Economistas consultados pelo Washington Post preveem uma contração econômica para este ano e estimam que os prejuízos para a economia israelense serão piores do que os causados pela pandemia do coronavírus.


A crise de Israel é a crise dos EUA

Mesmo com todos os seus esforços de guerra, Israel está perdendo para o Hamas e a resistência palestina. Se essa derrota fosse apenas em Gaza, já seria um desastre. Mas ela é mais ampla. Os Estados Unidos não queriam uma expansão do conflito para outras frentes, mas ela já é uma realidade. Surgem informações de que EUA e Israel já admitem que estão se preparando para uma guerra aberta no Oriente Médio. Além dos houthis no Mar Vermelho, as bases americanas já sofreram mais de 120 ataques na Síria e no Iraque e o que começou com uma troca de mísseis no sul do Líbano já evoluiu para um confronto mais amplo com o Hezbollah.

Alguns soldados que estão se borrando diante do Hamas provavelmente sairiam correndo dos 100 mil efetivos e dos 150 mil mísseis do Hezbollah que estão apontados para o território palestino ocupado. O Hezbollah tem uma infraestrutura imensamente maior que a do Hamas e já derrotou Israel duas vezes, em 2000 e em 2006. Os oficiais americanos estão muito preocupados, segundo o Washington Post, porque uma guerra aberta contra o Hezbollah custaria muito caro a Israel, que não seria bem-sucedido na empreitada.

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A alta cúpula militar israelense parece ter percebido que não adianta executar um genocídio em Gaza e, ao lado da chacina contra civis, resolveu (depois de três meses!) tentar cortar a cabeça da fera. O assassinato do número dois do Hamas, Saleh al-Arouri, em um ataque seletivo em Beirute, comprova que o massacre de mais de 20 mil pessoas em Gaza é pura crueldade e não tem como alvo o Hamas, mas sim a população indefesa. Ao bombardeio no sul da capital libanesa somam-se a eliminação em Damasco de Sayyed Reza Mousavi, conselheiro sênior do Corpo de Guardas Revolucionários do Irã e coordenador da aliança militar com a Síria; Hussein Yazbek, um líder do Hezbollah no sul do Líbano e a morte de Hajj Mushtaq Talib al-Saidi, alto chefe militar das Forças de Mobilização Popular iraquianas, por ataque americano a partir de uma base militar no Iraque. O atentado reclamado pelo Estado Islâmico em Kerman, que matou quase 100 iranianos, coincidiu com a sequência de assassinatos promovida por Israel e EUA e, obviamente, deve-se suspeitar de seu envolvimento.

Contudo, ao invés de significarem vitórias importantes para Israel, esses feitos só fizeram aumentar as hostilidades contra os sionistas. Esses ataques estão inflamando ainda mais os ânimos anti-americanos no Iraque e no Líbano. O Irã disse que vai responder ao assassinato de Mousavi e ao ataque em Kerman e até mesmo o governo iraquiano, pressionado pela sua população e pelos grupos da resistência armada, declarou abertamente que vai acelerar a retirada da presença militar dos EUA.

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Um outro fator preocupante para Israel são os dois milhões de palestinos que vivem dentro dos territórios ocupados. Se as frentes em Gaza, Cisjordânia, Síria, Iraque, Líbano, Iêmen e, possivelmente, Irã, poderiam destruir a entidade sionista por fora, os palestinos dentro de Israel poderiam implodir essa colonização. E certamente eles são influenciados pelos sentimentos antissionistas e anti-imperialistas exalados das frentes da resistência. Se as guerras coloniais dos EUA são realizadas a milhares de quilômetros de distância de seu território, Israel não tem esse privilégio: ele mesmo é como um parasita que só existe dentro ou próximo dos territórios conquistados ou que busca conquistar. Sim, Israel está dentro da Palestina, fazendo com que uma derrota como a que se apresenta tenha consequências sem precedentes para a própria existência do Estado-parasita.

Os americanos tentam apaziguar a situação para não se afogar ainda mais na areia movediça, mas ao mesmo tempo continuam alimentando a máquina genocida de Israel. Washington envia 3,8 bilhões de dólares em apoio militar anual aos israelenses, além de vender centenas de milhões de dólares de bombas, mísseis e cartuchos. Para 2024, já foi aprovado um financiamento de mais 14 bilhões de dólares e, no final de dezembro, o governo anunciou que venderia 147,5 milhões de dólares adicionais em munições e outros equipamentos militares, com a justificativa de que “existe uma emergência que requer a venda imediata ao Governo de Israel”.

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Fica claro que o único beneficiado por uma guerra aberta e generalizada no Oriente Médio é a indústria bélica norte-americana, que, no entanto, é o setor mais poderoso do regime imperialista do país. E é ela quem dá as cartas em Israel, jogando lenha na fogueira dos fundamentalistas de Netanyahu, assim como faz na Ucrânia. Para os falcões da indústria militar dos EUA, quanto mais guerras, mais lucros. 

Só que, mesmo despejando bilhões de dólares na máquina genocida de Israel, pintada pela propaganda como uma das mais modernas e tecnológicas do mundo, estão perdendo a guerra. A fragilidade militar israelense ficou descoberta com sua incapacidade de conter a Tempestade de al-Aqsa. Assim como o Hamas viu a enorme crise política e social em Israel como uma oportunidade de ouro para iniciar a operação de 7 de outubro, o Irã certamente está vendo o fracasso militar israelense como uma oportunidade de ouro para desencadear a guerra final de libertação regional. Este é o momento de maior fraqueza de Israel em toda a sua história, ao mesmo tempo em que a resistência contra a entidade usurpadora está mais forte do que nunca.


Crises

A crise de Israel é a crise dos EUA, e vice-versa. Não apenas o Irã, mas também seus aliados de China e Rússia percebem essa fragilidade – e estão esfregando as mãos. A humilhação para os talibãs foi a comprovação para o mundo de que o imperialismo americano já não é mais o mesmo de antes e que está em queda livre. Após ela, os EUA não conseguiram fazer nada contra a Rússia e agora estão tentando evitar uma expansão da guerra pelo Oriente Médio – e, se for preciso, poderiam rifar Netanyahu, como já fizeram inúmeras vezes na história com seus peões desastrados. A dominação imperialista como conhecemos está claramente ruindo na nossa frente. E a um ritmo impressionantemente acelerado: Afeganistão em 2021, Rússia em 2022 e Palestina em 2023.

A crise de popularidade de Joe Biden está diretamente relacionada com isso. Ele não é unanimidade nem mesmo dentro do establishment americano. Ao invés de estabilizar o país e retomar a sua dominação mundial, fez o contrário, tendo essas três derrotas históricas ocorrido nos três primeiros anos de seu mandato – algo inédito, pelo menos desde o final da Segunda Guerra. Não surpreenderá se Biden for derrotado nas eleições deste ano. Trump não perdeu nem um pouco de sua popularidade, mesmo com as perseguições sofridas, e, como ocorreu em 2016, uma parte significativa dos grandes capitalistas poderá apoiá-lo, dado que o governo Biden está sendo um desastre para a maioria deles. Mas, infelizmente para eles, agora, mais do que nunca, está valendo o velho ditado: se correr, o bicho pega; se ficar, o bicho come. A crise estrutural e histórica é irreversível. O máximo que pode acontecer é estancar levemente o sangramento para reduzir o volume da hemorragia desse corpo doente e agonizante que é o sistema imperialista mundial. Uma contradição é que, embora para os mais poderosos dos EUA as guerras signifiquem mais lucros, em termos de interesses do conjunto do regime guerras simultâneas em diversas frentes não são viáveis – pelo contrário, são uma hecatombe.

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A expansão da guerra na Palestina poderá levar simplesmente à destruição do Estado artificial de Israel. A situação só não se transformou ainda em uma insurreição generalizada porque a resistência armada palestina, libanesa e iraquiana deve estar sendo aconselhada pelo Irã (e por China e Rússia) a não optar ainda pelo tudo ou nada, o que prejudicaria os Estados da região (muito comprometidos com o Ocidente, mas também aliados importantes dessas potências regionais) e poderia precipitar, a seu ver, uma guerra mundial que, embora potencialmente enterre de vez o regime imperialista que os oprime, também abalaria as estruturas de seus próprios regimes políticos internos.

Como consideram os estrategistas da Casa Branca e do Pentágono, Israel é um pilar da dominação dos EUA na política mundial. Ele é resultado da necessidade das potências imperialistas lideradas pelos EUA de dominarem o que o geopolítico norte-americano Halford J. Mackinder chamou de “heartland”. Já tendo os mares sob o seu controle, como lembrou Tom Sharpe e como Alfred T. Mahan estabeleceu como condição para a dominação do mundo, os EUA precisavam controlar aquela região do Oriente Médio para assegurar o seu controle de todo o sistema global. Por isso Israel não pode ser perdido, porque é esse preposto que garante o controle do “heartland”. Se for perdido, o “eixo do mal” (Rússia, China e Irã) é quem dominará essa região, o que significa o fim de um dos mais fundamentais pilares da atual ordem mundial pós-1945.

Estamos vendo que a dominação dos mares também está grandemente enfraquecida com a impotência de desbloquear o Mar Vermelho dos houthis, rebeldes que sequer controlam todo o pequeno e miserável Iêmen. A queda de Israel levará, mais cedo do que tarde, à queda inevitável dos Estados Unidos como potência hegemônica. E a queda dos EUA como potência hegemônica só pode levar ao desmoronamento completo da ordem imperialista internacional, que verá cada vez mais acontecimentos dramáticos como os do Afeganistão (2021), Rússia (2022) e Palestina (2023) nos próximos anos.

Eduardo Vasco | Jornalista especializado em política internacional


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.

Eduardo Vasco Jornalista, trabalhou como enviado especial no início da intervenção russa na guerra da Ucrânia e escreveu o livro "O povo esquecido: uma história de genocídio e resistência no Donbass".

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