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Evo Morales: Minha candidatura à presidência da Bolívia atende ao apelo de aliados e do povo

Anúncio do simbólico líder e atual dinâmica política boliviana reacendem uma série de questões sobre a democracia e a estabilidade política no país
George Ricardo Guariento
Diálogos do Sul
São Paulo (SP)

Tradução:

Neste domingo, 24 de setembro, o ex-presidente da Bolívia Evo Morales surpreendeu o país ao anunciar sua candidatura à presidência nas eleições de 2025, em um momento de crescente tensão com seu ex-aliado político, Luis Arce.

Em um comunicado divulgado nas redes sociais, Morales declarou: “Decidimos atender aos apelos de nossa base e de tantos irmãos e irmãs […], aceitando ser candidato à presidência de nossa querida Bolívia”. Ele justificou sua decisão afirmando que foi motivada pelos constantes ataques do governo, ao qual acusa de colocar sua vida em risco.

Morales, que ocupou o cargo presidencial entre 2006 e 2019, tornou-se o primeiro político boliviano a lançar oficialmente candidatura para as eleições de 2025.

No entanto, seu partido, o governista Movimento ao Socialismo (MAS), está programando um congresso para a próxima semana com o objetivo de formar uma comissão encarregada de organizar eleições primárias em dezembro ou janeiro, e assim determinar quais de fato serão os candidatos à presidência e à vice-presidência.

Anúncio do simbólico líder e atual dinâmica política boliviana reacendem uma série de questões sobre a democracia e a estabilidade política no país

Foto: Evo Morales – Reprodução/Twitter
A trajetória de Evo Morales é um reflexo da complexa e dinâmica política da Bolívia e da região

Arestas entre Evo e Arce

Nos últimos meses, Morales e a liderança do MAS têm travado uma série de trocas de acusações com membros do governo de Arce. O ex-presidente aponta que os ministros de Governo, Eduardo del Castillo, e de Justiça, Iván Lima, de liderarem esforços para minar sua imagem e envolvê-lo em escândalos de corrupção. 

A disputa interna no partido governista coloca em questão quem será o candidato oficial do MAS: Morales ou Arce. O atual presidente, no cargo desde novembro de 2020, afirmou que a possibilidade de sua reeleição ainda não está em discussão.

Cannabrava: Na Bolívia, militares não se metem na política pois Evo Morales expulsou os EUA

Na Bolívia, há um debate em andamento sobre a viabilidade de uma eventual candidatura de Morales, uma vez que a Constituição estabelece um mandato presidencial de cinco anos e permite apenas uma reeleição consecutiva.

O ministro Lima ressaltou que a decisão final sobre a elegibilidade de Morales deverá ser tomada pelo Tribunal Constitucional, o qual deverá esclarecer se a regra permite apenas uma reeleição ou se permite a um ex-chefe de Estado se candidatar novamente após o término de um mandato.

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O anúncio de Morales e a atual dinâmica política na Bolívia reacendem uma série de questões sobre a democracia e a estabilidade política no país, que ainda se recupera dos eventos golpistas que levaram à renúncia do ex-presidente em 2019 e a tomada do poder por Jeanine Áñez – após 11 meses substituída por Luís Arce, eleito de modo legítimo.

Evo Morales: a trajetória política do ex-Presidente da Bolívia

Evo Morales, uma figura icônica na política boliviana, deixou sua marca indelével na história do país ao se tornar o primeiro presidente indígena da Bolívia em 2006. Sua jornada política é marcada por desafios, triunfos e crises que moldaram não apenas a Bolívia, mas também a América Latina.

Nascido em 26 de outubro de 1959, em Isallavi, um pequeno vilarejo nos Andes bolivianos, Evo Morales cresceu como membro da etnia aimará. Sua experiência de vida como camponês de origens humildes influenciou fortemente sua visão política, que se baseava na justiça social, nos direitos dos povos indígenas e na luta contra a pobreza.

Morales começou sua carreira política como líder sindical dos cocaleros, produtores de coca, uma cultura tradicionalmente cultivada nas regiões andinas da Bolívia. Sua liderança sindicalista se destacou por sua habilidade em mobilizar comunidades rurais em busca de melhores condições para os agricultores de coca, ao mesmo tempo em que desafiava as políticas de erradicação da planta promovidas pelos Estados Unidos.

Em 2005, Evo Morales surpreendeu o mundo ao vencer as eleições presidenciais com uma plataforma progressista e de esquerda, representando o Movimento ao Socialismo – Instrumento Político pela Soberania dos Povos (MAS-IPSP). Sua vitória foi vista como um sinal de mudança na Bolívia, uma nação historicamente marcada por instabilidade política e desigualdade social.

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Durante seu governo, Morales implementou uma série de reformas sociais, incluindo a nacionalização de recursos naturais, como o gás e o petróleo, para aumentar a renda do Estado e financiar programas sociais. Ele também promoveu a inclusão de minorias étnicas e a adoção de uma nova Constituição em 2009, que reconhecia os direitos dos povos indígenas.

O governo de Morales foi fortemente marcado pelo assédio dos EUA. Uma das questões do embate era a política de guerra às drogas e de erradicação da coca financiadas por Washington, às quais o líder boliviano se opunha. Vale mencionar ainda as tensões envolvendo o lítio, riqueza em abundância na Bolívia que segue na mira do imperialismo estadunidense.

Evo Morales não rompeu com Estado colonial e patriarcal, mas a história o absolverá

Em 2019, quando Evo decidiu se lançar a um quarto mandato presidencial, a oligarquia e os militares bolivianos, em conluio com o governo de Donald Trump, articularam uma série de ações para criar uma convulsão social no país e provocar um golpe de Estado. Em novembro do mesmo ano, Evo Morales renunciou.

Em novembro de 2020, após um ano asilado entre o México e a Argentina, o ex-presidente retornou à Bolívia, em meio à vitória de Arce e de seu partido, o MAS-IPSP, nas eleições presidenciais. Mesmo não tendo concorrido à presidência, seu retorno marcou uma reviravolta na política boliviana e uma vitória simbólica para os movimentos de esquerda na América Latina.

A trajetória de Evo Morales é um reflexo da complexa e dinâmica política da Bolívia e da região. Sua liderança deixou um legado de avanços sociais, mas também de desafios. Sua história continua a ser um exemplo de como um líder de origem pobre e indígena pode alcançar a mais alta posição política em seu país, influenciando a agenda política e social em toda a América Latina.

George Ricardo Guariento | Jornalista e colaborador da Diálogos do Sul.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
George Ricardo Guariento Graduado em jornalismo com especialização em locução radiofônica e experiência na gestão de redes sociais para a revista Diálogos do Sul. Apresentador do Podcast Conexão Geek, apaixonado por contar histórias e conectar com o público através do mundo da cultura pop e tecnologia.

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