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Evo Morales: "O embaixador do Brasil participou do golpe contra o meu governo”

Depois da Página/12 publicar a série de voos do avião presidencial da Bolívia para o Brasil, o ex-mandatário assegurou que existem provas da participação do governo de Bolsonaro na ditadura de Jeanine Áñez
Felipe Yapur
Página 12

Tradução:

Sua afirmação foi feita depois da Página/12 publicar o domingo passado o detalhe dos 25 voos que o avião presidencial da Bolívia realizou a partir do dia seguinte ao golpe a várias cidades do Brasil. 

Morales sustenta que esta atitude do Brasil está de acordo com o que pretende o governo dos Estados Unidos para a  América Latina. De toda forma, antecipa que o MAS e seus candidatos triunfarão nas eleições de 6 de setembro. 

Pagina 12 – Página/12 publicou no domingo uma série de viagens feitas pelo avião presidencial de seu país, o FAB001, para o Brasil, um dia depois que o senhor foi obrigado a renunciar. Que leitura fez disso?

Evo Morales -Eu renunciei justamente para evitar o derramamento de sangue e os enfrentamentos. Isso foi no dia 10 de novembro lá pelas cinco ou cinco e meia da tarde. Foi lá, no Trópico de Cochabamba. E minha informação oficial, confirmada e reconfirmada, é que às 6:30 se reuniram Waldo Albarracín, ativista da direita, com a gente de Carlos Mesa, Fernando Camacho, Tuto Quiroga, a Igreja Católica, o embaixador do Brasil e o da União Europeia. Isso foi no domingo e ali disseram que a Áñez ia ser a presidenta. Mesa é o responsável pela designação da Añez. No dia 11, quando   eu tentava sair do trópico para o exterior, ainda não havia presidenta, embora dissessem que ela ia ser, mas não havia presidenta nem presidente. Então, eu  pergunto por que essa viagem do 001 quando não havia presidente. Então, como é que a embaixada do Brasil participou da reunião no domingo, depois de uma hora de minha renúncia, onde disserem que Áñez ia ser a presidenta. Pois eu me pergunto para que, falando do embaixador do Brasil, ele pede os voos a duas cidades desse país. Como os militares simplesmente vão dispor do 001? Então, eu imagino e pode ser que imagine mal, que seguramente alguém ia trazer dinheiro, muito dinheiro para as Forças Armadas ou para a polícia. Necessitavam ter dinheiro disponível e meter bala, como fizeram nos dias subsequentes. E de acordo com a informação que vocês deram, nos dias do massacre depois do golpe, houve muitas viagens ao Brasil. 

Depois da Página/12 publicar a série de voos do avião presidencial da Bolívia para o Brasil, o ex-mandatário assegurou  que existem provas da participação do governo de Bolsonaro na ditadura de Jeanine Áñez

Reprodução: Winkiemedia
Evo Morales cedeu entrevista ao site Página/12.

Então, o governo do Brasil participou de maneira efetiva no golpe de Estado contra o senhor?

Sim, totalmente. E não somente nesse dia, no dia seguinte foi igual, houve participação da embaixada do Brasil em uma reunião com Mesa, com Quiroga, com Camacho não sei, mas esses personagens junto com alguns hierarcas da Igreja católica, foram atores do golpe de estado. 

Está se referindo à reunião na qual se decidiu que fosse Áñez a presidenta e que foi feita na Universidades Católica? 

Exatamente, foi nessa universidade, no próprio domingo à tarde. Na segunda-feira à noite confirmaram. 

Por esses dias, perguntaram ao presidente Jair Bolsonaro pela situação na Bolívia e ele negou que existisse um golpe de Estado.

Sim, é mais uma prova clara. Apesar de ter ganhado as eleições no primeiro turno, as Forças Armadas buscaram terminar com o meu mandato. Portanto, tudo o que aconteceu com policiais é golpe, golpe, golpe. Outra coisa teria sido que deixassem terminar minha gestão em 22 de janeiro, mas não quiseram. Há documentação que demonstra que eu ganhei as eleições, que não houve fraude como acusou a OEA. Evo Morales ex presidente da Bolívia / Reprodução: Adrián Pérez O senhor disse que naquela reunião onde se decidiu que fosse Áñez a presidenta também participou o embaixador da União Europeia. Também eles participaram do golpe? 

Seu embaixador, porque no dia seguinte, segunda-feira, esse mesmo embaixador esteve mandando mensagens aos participante do MAS onde os chamava para fazer uma mesa de diálogo. Isso está totalmente demonstrado. 

Que participação teve o governo dos Estados Unidos? O Brasil trabalhou para os Estados Unidos? 

Bem, essa é a direita americana que se expressa no grupo de Lima e na Aliança do Pacífico, que obedece aos mandatos dos Estados Unidos. Esta aliança é a que reativou as políticas do consenso de Washington e a ALCA. Em sua declaração constitutiva, a Aliança do Pacífico é tudo privatização, privatização, privatização. Então, esse é um grupo que permite enfrentar a Celac, a UNASUL, essa é a linha dada pelos Estados Unidos e onde não se pode ter controle democraticamente do país, essa conspiração, essa agressão, é intervenção e golpe de Estado. Portanto, Bolsonaro e companhia trabalham para os Estados Unidos. 

O então presidente Mauricio Macri fez o mesmo tipo de declaração que Bolsonaro. Crê que a Argentina teve uma participação similar à do Brasil?

Eu, por razões do asilo não posso realizar comentários sobre a política da República Argentina. Peço desculpas.  

Entendo. Surgiu também a informação de que ao mesmo tempo que se produziam esses voos também se compravam munições não letais do Brasil. Pode haver relação?  

Há que investigar isso, mas conheço muito bem o avião presidencial e não creio que tragam aí esse tipo de material, No entanto, conto que alguns oficiais das FFAA me disseram que nesse voos levaram dinheiro. Entendo que durante a resistência ao golpe traziam dinheiro. Agora, uma das viagens, que foi feita entre 30 de abril e 7 de maio, onde viajaram familiares da Áñez, ficaram vários dias, mas aí levaram dinheiro, não sei quanto, mas graças ao oficial, aos militares patriotas, confirmamos que levaram dinheiro. Não sabem quanto é.

Estão fugindo com o dinheiro como se soubessem que não terão muito mais tempo no poder?

Assim é, assim se entende. Por outra parte, na semana passado foi criada uma unidade de segurança e defensa aos signatários de estado que se maneja de maneira reservada e confidencial. Olhe, inclusive depois que transcendeu que houve voos ao Brasil, foi trocado o pessoal da Casa Militar, o chefe também. 

Houve uma purga?

Sim, claro! Houve uma purga e agora esse militar seguramente ficará ressentido. E isso vai se destapar em qualquer momento. Está sendo mudado o papel das FFAA porque não há razões para criar um grupo totalmente reservado, secreto, confidencial. Então, o que querem ocultar? Estes não são gastos reservados como houve em tempos de governo neoliberal. Mas olhe um outro dado. Na semana passada foram fechadas duas embaixadas e reduzidos três ministérios, entre eles Esportes e Cultura. Esporte é integração e também é saúde. Reduzem Cultura porque não querem que recuperemos nossa identidade, nossa forma de viver, nossas vivências. Olhe, eles querem um país sem história nem memória. Haviam sido destinados fundos adicionais para Cultura, 100 milhões de pesos bolivianos por ano, mas agora destinam para este grupo especial militar uns 500 milhões de bolivianos. Fazem tudo como exige o FMI, ter um Estado mínimo.

O que está fazendo o governo de Áñez para combater o coronavirus?

Na minha forma de interpretar e ver desde aqui, talvez eu esteja equivocado, mas a ditadura de Áñez, Camacho e Carlos de Mesa tem dois delitos profundos: dois genocídios. Mataram com armas, já têm mais de 35 mortos à bala. O segundo: por falta de presença do Estado durante a quarentena, matam de fome, e durante a quarentena não puseram equipamento, respiradores, nada, nada, nada. E isso é outro genocídio, atentar contra a vida, tem duplo genocídio o governo de facto da Bolívia. 

Em que estado se encontra o processo eleitoral? Por causa da pandemia foram postergadas as eleições de 3 de maio e gora se fala em setembro.

Sim, a pandemia postergou as eleições. Está consensuado entre todos os candidatos mas, no fundo, a linha a política norte-americana é que não haja eleições. Querem que continuem estes e além do mais querem fechar a Assembleia para manejar tudo com decretos-leis como se manejava nas ditaduras. Até pretendem pôr em vigência a anterior Constituição e desconhecer a atual. Mas estamos seguros de que vamos triunfar. De toda forma, estão acontecendo coisas suspeitas com as FFAA, que há três semanas, na cidade de La Paz e em El Alto meteram uns 35 tanques de guerra. Isso é muito suspeito.

* tradução: Vanessa Martina

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Felipe Yapur

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