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Exército venezuelano e paramilitares da Colômbia estão em guerra há 10 dias na fronteira entre países

Confronto na fronteira já deixou seis mortos, causou 12 prisões e mais de 3 mil foram obrigadas a abandonar suas casas

Michele de Mello
Brasil de Fato
Caracas

Tradução:

A fronteira sul que divide a Colômbia e a Venezuela arde há 10 dias em uma troca de fogo entre grupos irregulares colombianos e a Força Armada Nacional Bolivariana (Fanb). O ministro de Defesa, General Vladimir Padrino López, afirmou que são grupos paramilitares vinculados ao narcotráfico que cruzam a fronteira para “gerar terror” no lado venezuelano, atacando com explosivos e armas largas bases militares, sedes da companhia elétrica (Corpoelec) e da estatal petroleira Pdvsa.

Histórico das agressões
Maduro denuncia movimento de tropas irregulares da Colômbia para a Venezuela

A zona de conflito compreende uma área de 10 mil km² entre o estado venezuelano de Apure e o departamento colombiano de Arauca. O conflito começou no dia 20 de março, quando a Fanb identificou a presença de paramilitares colombianos no território venezuelano. Até o momento, seis homens foram mortos, 12 presos e 27 pessoas estão sob investigação em um tribunal militar na Venezuela.

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Dois militares venezuelanos morreram em combate e outros 20 terminaram feridos. Além dos enfrentamentos, esses grupos armados colombianos colocaram minas no território venezuelano para buscar ampliar seu controle sobre a zona.

Confronto na fronteira já deixou seis mortos, causou 12 prisões e mais de 3 mil foram obrigadas a abandonar suas casas

Prensa Monagas
Força Armada Nacional Bolivariana patrulha a fronteira com a Colômbia para impedir avanço de grupos irregulares colombianos

Maduro acusa Iván Duque

No último domingo (28), o presidente Nicolás Maduro assegurou que os grupos irregulares são acobertados pelo governo Iván Duque para gerar uma situação de conflito armado. O ministro de Relações Exteriores, Jorge Arreaza, declarou que a Colômbia mobilizou tropas oficiais para dar proteção aos paramilitares.

Já o ministério das Relações Exteriores da Colômbia defende que são guerrilheiros apoiados pelo governo venezuelano, sem apresentar provas. Segundo a chancelaria, 3,1 mil venezuelanos migraram para várias cidades do departamento de Arauca por conta do confronto. 

Relação com narcotráfico

De acordo com reportagens de meios de comunicação colombianos e venezuelanos, a região de Arauca é disputada por vários grupos armados e pelo narcotráfico. Dissidências das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), a frente de combate 10 e o grupo a mando de “Gentil Duarte” são os grupos que medem forças para controlar a zona.

d676a13b 1fdb 4d3a 8e2b 46cd901d5a57De acordo com a chancelaria colombiana, mais de 3 mil venezuelanos foram obrigados a migrar por conta do conflito armado. / Prensa Táchira

“Gentil Duarte” teria relações com o grupo narcotraficante mexicano Cartel de Sinaloa, o que lhe teria conferido maior poder econômico e maior poder de fogo.

Além disso, reportagens investigativas de meios colombianos identificaram que o piloto de avião da campanha do ex-senador Álvaro Uribe Vélez e do presidente Iván Duque já havia trabalhado para o Cartel de Sinaloa.

10462afa 6ded 4c2c ac60 8d668e5e65e2Ex-senador Álvaro Uribe Vélez, padrinho político do presidente colombiano Iván Duque, contratou o mesmo piloto do Cartel de Sinaloa, um dos maiores grupos narcotraficantes do México. / La Nueva Prensa 

Segundo as próprias autoridades colombianas, atualmente os principais operadores do tráfico de drogas e compradores de cocaína na Colômbia são os cartéis mexicanos que vendem diretamente aos Estados Unidos.

A Comissão Bicentenária Orinoco Magdalena, composta por militantes do partido Comunes (antigo partido FARC), reiterou em comunicado que não há relação dos conflitos com seu partido: “Nenhuma fora revolucionária será útil ao imperialismo, nem às oligarquias binacionais”.

d702ab7f 857f 48ab 9c90 b6113c3fcce1Procurador geral da Venezuela revela fotos que comprovam apoio de grupo paramilitar à travessia ilegal de Guaidó por fronteira colombo-venezuelana, em fevereiro de 2019. / Divulgação

Responsabilidade para proteger

O Executivo colombiano insiste em que a onda migratória no estado Apure foi gerada por excessos cometidos pelas forças armadas venezuelanas e não pela ação dos paramilitares.

O discurso de crise humanitária é novamente defendido por Iván Duque e pelo ex-deputado venezuelano Juan Guaidó, que nmasi uma vez sugere a ativação do mecanismo Responsabilidade para Proteger (R2P) na Venezuela. O R2P defende que os países da Organização das Nações Unidas (ONU) devem intervir em nações em que o Estado deixa de cumprir seu papel na proteção dos cidadãos.

4c657df1 09aa 49b1 a437 bfbeb7b8edc5Tropas militares fazem segurança de centros de distribuição de energia no estado venezuelano de Apure, depois de explosões. / Ceofanb

Para o Executivo venezuelano trata-se de mais uma tentativa de gerar distúrbios para justificar uma ação internacional.

Desde 2019, a Venezuela denuncia na ONU a existência de acampamentos paramilitares no lado colombiano, próximo a sua fronteira. Em maio de 2020, os envolvidos na Operação Gedeón também relataram em depoimentos à justiça venezuelana que realizaram o treinamento em acampamentos paramilitares do lado colombiano da fronteira.

No começo de fevereiro de 2021, a Fanb divulgou que derrubou oito acampamentos e encontrou uma aeronave sem matrícula na região fronteiriça.

A Venezuela assegura que pedirá assessoria das Nações Unidas para desarmar as estruturas paramilitares na fronteira com a Colômbia.

Michele de Mello, jornalista Brasil de Fato

Edição: Rebeca Cavalcante


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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