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Expostos ao coronavírus, garis trabalham com medo: "Tem muito lixo contaminado"

Serviço prestado pelos trabalhadores da coleta de lixo se torna ainda mais essencial em meio ao combate à pandemia de Covid-19

Lu Sudré
Brasil de Fato
São Paulo (SP)

Tradução:

Ao longo dos 15 anos trabalhando como gari na cidade de São Paulo, Carlos Nério Barbosa nunca imaginou que um dia sentiria tanto receio de ir para as ruas fazer a coleta de resíduos. Enquanto parcela do país está em quarentena, ele faz parte dos trabalhadores de atividades essenciais que não puderam paralisar seus serviços em meio à pandemia da covid-19.

Homenageados neste sábado (16), Dia Gari, os trabalhadores da categoria enfrentam uma situação delicada, já que acabam sendo mais expostos ao vírus neste momento. Seja por estarem nas ruas ou por trabalharem diretamente com a coleta de lixo nos municípios.

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Nério conta, em tom preocupado, que a solução que encontrou foi redobrar os cuidados com a higiene e com a proteção: Agora, as máscaras e o álcool gel acompanham as luvas, botas e uniformes usados todos os dias.

Serviço prestado pelos trabalhadores da coleta de lixo se torna ainda mais essencial em meio ao combate à pandemia de Covid-19

Divulgação/Comlurb
De acordo com a Comlurb, 59 trabalhadores da limpeza urbana do Rio testaram positivo para covid-19

“Estamos trabalhando sim mas com medo. A população na rua ajuda a gente, dá máscara e tudo, dá apoio moral. Mas tá difícil. Muito. Vamos pra rua, deixamos nossa família em casa e voltamos daquele jeito… com medo”, desabafa.  

a5ee075d a3b2 4c5e 83f2 9121fd11540dDurante a pandemia, o gari Carlos redobrou a atenção para se proteger da contaminação / Arquivo Pessoal

Trabalhador contratado por uma empresa terceirizada que presta serviços para a Prefeitura de São Paulo, o gari afirma que os Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) estão sendo disponibilizados da forma correta, o que alivia mas não some com a ameaça de ser contaminado pelo vírus.

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“Saímos de casa, oramos e pedimos pra Deus pra nunca acontecer o que tá acontecendo por aí. Mas se a gente não tiver na rua, é pior. Se não sairmos pra coletar, como é que vai ser? Como o pessoal vai ficar?”, questiona. 

A preocupação é compartilhada por Valdenise Brandão Ferreira, que trabalha há 11 anos na área de limpeza urbana do Rio de Janeiro. Hoje ela atua com a revitalização de ruas e parques no bairro do Recreio, mas já deixou sua marca na favela da Maré por meio de um projeto de reforma e recuperação de áreas coletivas e criação de jardins a partir da reciclagem, do qual muito se orgulha.

Se a gente não tiver na rua, é pior. Se não sairmos pra coletar, como é que vai ser? Como o pessoal vai ficar?

Para combater a pandemia, o álcool gel, a água e o sabão, assim como as máscaras individuais laváveis, equipamentos disponibilizados pela Companhia Municipal de Limpeza Urbana (Comlurb), são indispensáveis em seu cotidiano. O uso, inclusive, foi determinado como obrigatório pela empresa durante a jornada de trabalho, que foram reduzidas para 6h. 

“Eu tenho medo de pegar corona em qualquer instante que eu vou na rua. Sair na rua se tornou um risco, mas temos que sair, tem que trabalhar, Quando eu saio, vou toda equipada. Já saio com a máscara”, relata. Ela acrescenta que os garis têm higienizado escolas, ruas e áreas coletivas, visando proteger a população o máximo possível.

f69e098c 1219 42f1 8482 1040bc9601e4Valdenise criou um projeto de revitalização de vias públicas na favela da Maré, com o lixo produzido pela própria comunidade / Foto: Arquivo Pessoal

A preocupação de Valdenise com uma possível infecção não é à toa. De acordo com dados enviados pela companhia à reportagem do Brasil de Fatoaté o momento, 59 trabalhadores da limpeza urbana do Rio testaram positivos para covid-19. 

A Comlurb informa ainda que há 349 casos suspeitos de contaminação, 2 casos de óbito de empregados ativos e 5 casos de óbito de empregados que já estavam afastados do trabalho quando apresentaram sintomas. Atualmente o Rio de Janeiro é o terceiro estado com maior número de casos no país, com 19.467 pessoas infectadas.

“Ficamos reféns”

Morando no bairro do Campo Grande, zona oeste da cidade, Douglas Almeida deixa sua casa às 3h15 da manhã para iniciar a coleta na comunidade da Maré às 6h. Ouvindo o relato do número de mortes na favela aumentar todos os dias, ele lamenta ainda encontrar muitas pessoas desrespeitando o isolamento social. 

“Estamos trabalhando com todo cuidado. Máscara, luva, lavamos a mão, passamos água. E com medo também. Estamos em contato direto com o lixo e tem muito lixo contaminado.  Mas as pessoas, nas comunidades, não respeitam a quarentena. Ficamos reféns. Temos que fazer o trabalho e nos proteger o máximo possível”, conta ele, que trabalha há seis anos na coleta de lixo.

Ainda segundo Douglas, o perigo da contaminação é ainda maior porque a população não tem feito o descarte correto dos itens utilizados pra se proteger contra a pandemia. Ao invés de usar somente a luva, como normalmente é feito, ele e seus colegas usam madeiras e outros objetos para recolher os resíduos.

Estamos em contato direto com o lixo e tem muito lixo contaminado.

“Encontramos, muitas vezes, seringas e máscaras descartáveis pelo chão. O lixo revirado. Então temos que trabalhar com o máximo possível de atenção. Desde quando começou a pandemia, temos encontrado máscaras, frascos de álcool. Esse tipo de lixo aumentou muito. Descartam em qualquer lugar”, critica.

1b9cfcd3 f0da 4cad 8b84 c2392fda1559Douglas trabalha como gari há 6 anos na Favela da Maré / Arquivo Pessoal 

Assim como para Nério e Valdenisa, o jovem também se adapta à rotina de chegar em casa e se livrar da roupa antes mesmo de entrar pela porta. Sua principal preocupação é em evitar a infecção dos seus dois filhos pequenos.

“Para mim, é um dos piores fatores do momento. Além de me infectar, levar pra dentro de casa. Não dá pra saber, os sintomas demoram pra aparecer, ainda mais pegando condução e tudo mais”, diz. “Às vezes quando chego, meus filhos vêm querer dar um beijo e não dá. Dói no coração, mas tudo por causa dessa proteção. Tem que se proteger pra não levar pra dentro de casa e não se infectar. É complicado”.

Temos encontrado máscaras, frascos de álcool. Esse tipo de lixo aumentou muito. Descartam em qualquer lugar. 

Heróis anônimos

Moacyr Pereira, presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Empresas de Prestação de Serviços de Asseio, Conservação e Limpeza Urbana de São Paulo (Siemaco), ressalta que os trabalhadores da categoria merecem um reconhecimento ainda maior neste momento. 

“Eles fazem coleta de lixo da saúde, vão nos hospitais. Se o armazenamento de lixo não for bem feito, é risco iminente de contaminação. E eles vão em casas de saúde, clínicas veterinárias, que estão abertas e funcionando. O material, as agulhas, têm que ser bem armazenados. Os trabalhadores de coleta de risco tem um risco iminente de infecção”, explica.

“É o momento da população valorizar cada vez mais o trabalho desse pessoal. Eles estão ajudando a salvar vidas. Todos os trabalhadores essenciais”, defende o sindicalista. 

Pereira comemora que, em meio ao cenário preocupante, via de regra, as empresas estão fornecendo os EPIs aos trabalhadores. “No começo foi difícil pela dificuldade de demanda do mercado, mas hoje, pelo que chegou ao meu conhecimento, não tive informações que as empresas não estão respeitando o direito dos trabalhadores e não fornecendo EPI”.

O Siemaco solicitou dados sobre trabalhadores da limpeza urbana infectados pela covid-19 ao Sindicato das Empresas de Limpeza Urbana no Estado de SP (Selur), mas ainda não recebeu retorno. 

A reportagem do Brasil de Fato, por sua vez, questionou a Autoridade Municipal de Limpeza Urbana, mas não obteve resposta até a publicação da matéria.

Eles fazem coleta de lixo da saúde, vão nos hospitais. Se o armazenamento de lixo não for bem feito, é risco iminente de contaminação. 

Ana Angélica Rabello, coordenadora do Sindicato dos Trabalhadores em Limpeza do Estado da Bahia (Sindlimp-BA), também exalta os profissionais que estão arriscando suas vidas neste momento, em nome do bem coletivo.

“A pandemia veio pra chamar a atenção de todo mundo, mas também é uma oportunidade de aproveitar, nesse Dia do Gari, e dizer a eles que tenham força. Dizer obrigado por estarem cuidando da gente, não só nos dias comuns, mas mais ainda nesse momento de covid-19. Obrigada por estarem na linha de frente. Estamos torcendo pra que passe logo e que eles saiam ilesos”, declara. 

Tirando o pessoal da saúde, estamos em segundo lugar. 

O gari Douglas Almeida se orgulha do trabalho da categoria e compartilha da opinião de que, sem a atuação de seus colegas em todo Brasil, a situação seria ainda mais grave.

“Estaria mil vezes pior. Acho que até o risco de contaminação estaria mil vezes pior. É a limpeza urbana, a coleta domiciliar, a varredura. A higienização, não só do lado de fora das comunidades mas também dentro, nos bairros, nos becos. Tirando o pessoal da saúde, estamos em segundo lugar”, diz, seguido por um riso.

Proteção

Para ajudar os trabalhadores, os sindicalistas reforçam que a população não deve fazer o descarte das máscaras nas vias públicas e tomar o máximo de cuidado com a dispensa no lixo comum. O ideal é sempre colocar os objetos descartáveis em um saco, para que os garis fiquem menos expostos ao vírus, caso haja contaminação.

Medidas de proteção também tem sido tomadas pelo próprio poder público em alguns estados. Assim como a Comlurb, no Rio, a Autarquia de Melhoramentos da Capital (Comcap), que atende os serviços de coleta de resíduos e limpeza pública em Florianópolis, afastou trabalhadores acima de 60 anos, seguindo determinação do governo estadual.

Além dos 175 empregados afastados inicialmente, sob decisão judicial de 20 de abril, os afastamentos passaram a incluir todos diabéticos e hipertensos, chegando a 387 pessoas. Seguindo protocolos municipais, as rotinas também foram alteradas pela Comcap para combater o contágio. Apenas a coleta convencional de rejeitos se manteve normalmente. A coleta seletiva (recicláveis) foi suspensa e voltou a ser retomada gradativamente no final de abril.
 

Edição: Rodrigo Chagas


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

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