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Facilitado por China, acordo entre Irã e Arábia Saudita é decisivo contra hegemonia do dólar

Grandes exportadores do recurso como Venezuela, Iraque, Rússia e Líbia desejam ou já consideraram realizar transações em outras moedas
Marc Vandepitte
DeWereldMorgen
Bruxelas

Tradução:

Embora mal tenha aparecido nos principais meios de comunicação, o Irã e a Arábia Saudita alcançaram um importante acordo com implicações de longo alcance não só na região, mas muito além. É um importante passo no alinhamento das relações mundiais.

Depois de sete anos de distanciamento e relações muito tensas, Arábia Saudita e Irã puseram-se de acordo para restabelecer relações diplomáticas.

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No prazo de dois meses, os dois países reabrirão suas respectivas embaixadas e se comprometeram a respeitar a soberania do outro e a não interferir em seus assuntos internos. Em uma declaração conjunta, afirmam ainda que Riad e Teerã retomarão a cooperação em matéria de segurança.


A fratura

Irã, de maioria chiita, e Arábia Saudita, de maioria sunita, romperam seus laços em 2016, depois que manifestantes iranianos assaltaram a embaixada saudita em Teerã. Os manifestantes estavam indignados com a execução de um clérigo chiita por parte do reino saudita.

Irã em verde e Arábia Saudita em laranja. Mapa: GregRoquette, Wikimedia Commons / CC BY-SA 4.0

Arábia Saudita também acusou o Irã de apoiar os rebeldes hutíes no Iêmen, contra quem trava uma sangrenta guerra há mais de sete anos com o apoio dos Emirados Árabes Unidos e do Ocidente.

À margem desta guerra, em 2019 houve um brutal ataque com drones contra uma instalação petroleira saudita que paralisou temporariamente a metade da produção. Teerã foi acusada de orquestrar o ataque.

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Além da guerra no Iêmen, Irã e Arábia Saudita também se enfrentaram na Síria. Irã e Rússia apoiavam Assad, que retomou grande parte do país das mãos da oposição.

No outro lado estavam Arábia Saudita, Turquia e o Ocidente, que apoiavam os rebeldes jihadistas e as organizações terroristas que queriam derrubar Assad. Ambos os países apoiavam também formações rivais no Líbano.

No ano passado as tensões entre os dois países se intensificaram depois dos protestos massivos no Irã. Teerã acusou a Arábia Saudita de financiar os meios de comunicação que alimentaram os distúrbios.

Grandes exportadores do recurso como Venezuela, Iraque, Rússia e Líbia desejam ou já consideraram realizar transações em outras moedas

Xinhua
Acordo entre Irã e Arábia Saudita compõe um alinhamento de relações mundiais em que o Ocidente já não terá o monopólio do poder




O papel da China

A disputa parece agora resolvida. Nos últimos anos houve tentativas de mediação entre ambos países sob os auspícios do Iraque e de Omã, mas fracassaram. Este acordo contou com a mediação de Pequim. Portanto é uma vitória importante para a diplomacia , que Ilustra a crescente influência da China no Oriente Próximo.

No mês passado o presidente iraniano Ebrahim Raisi visitou Pequim e o presidente chinês, Xi Jinping, esteve em Riad em dezembro para participar de reuniões com Estados árabes do Golfo, ricos em petróleo. A China já tinha muito bons laços com o Irã e este acordo reforça os laços com a Arábia Saudita.

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O príncipe Faisal bin Farhan al-Saud, ministro saudita de Assuntos Exteriores, declarou no princípio de março: “A China é nosso maior sócio comercial. Também é o maior sócio comercial da maioria dos países. E esta é uma realidade com que teremos que contar. Para nós a China é um sócio importante e valioso em muitas áreas. Temos excelentes relações de trabalho em muitos setores”.

Também é notável o fato dos Estados Unidos não terem participado deste acordo, já que até há pouco Washington tinha uma grande influência no Oriente Próximo. Dá a impressão de que esta era acabou.


Implicações para o Irã

Este acordo poderia ter implicações de longo alcance, não só para a região como no âmbito internacional em geral. O Irã está reforçando sua posição e este acordo poderia ser um trampolim para um melhor diálogo e cooperação com outros Estados do Golfo, como Qatar e Emirados Árabes Unidos (EAU).

O acordo chega em um momento de aumento das tensões entre a República Islâmica e o Ocidente devido à venda de drones de combate para a Rússia, o desenvolvimento de seu programa nuclear e a enérgica repressão aos protestos no país.

Há muitas possibilidades de que se realizem investimentos sauditas no Irã, o que reduziria as tentativas do Ocidente de isolar economicamente o país mediante sanções. Também dará ao Irã mais força em suas negociações com o Ocidente, destinadas a alcançar um acordo sobre seu programa nuclear.

Al Jazeera informa que existe a possibilidade de a Arábia Saudita pôr freio a sua emissora por satélite Irã International, com sede em Londres, popular no Irã por estar do lado dos manifestantes.


Implicações para a Arábia Saudita

Também a Arábia Saudita se beneficia com o acordo. O país está há oito anos imerso em uma guerra contra os rebeldes hutíes do Iêmen do Norte apoiados pelo Irã. Até agora as tentativas de acabar com esta guerra mediante negociações a portas fechadas com os hutíes em Omã fracassaram.

A Arábia Saudita espera que o Irã possa dar uma contribuição construtiva às negociações com os hutíes e acabar com os ataques de drones e mísseis hutíes sobre o reino saudita.

Península Arábica. Mapa: NordNordWest, Wikimedia Commons / CC BY-SA 3.0 DE

Este acordo, que deixa completamente de lado os Estados Unidos, mostra também a nova determinação da Arábia Saudita de levar a cabo uma política exterior independente do Ocidente. No passado esta dependência foi muito intensa.

No final da Segunda Guerra Mundial o presidente Franklin Roosevelt chegou a um acordo com Ibn Saud da Arábia Saudita para que as transações de petróleo fossem pagas unicamente em dólares, em troca de proteção militar e política. Como resultado, o reino saudita era muito dependente de Washington, tanto econômica como militarmente.

Dado o equilíbrio de poder naquele momento, tratava-se de um trato favorável ao reino. Mas a ascenção da China e a relativa queda dos Estados Unidos mudaram profundamente este equilíbrio de forças, de modo que a dependência dos Estados Unidos já não é tão grande.

Não é por acaso que as tradicionalmente sólidas relações entre Riad e Washington tenham esfriado recentemente. No princípio de outubro de 2022, por exemplo, houve um grave enfrentamento entre os dois países.

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O Presidente Biden mostrou-se indignado com a decisão da Arábia Saudita de reduzir a produção de petróleo em dois milhões de barris diários. Esta redução fez subir os preços mundiais do cru, o que teria ajudado a Rússia, segundo exportador mundial de petróleo, a prosseguir sua guerra na Ucrânia apesar das sanções internacionais.


Outras implicações na região

Além da guerra no Iêmen, Irã e Arábia Saudita também se enfrentam no Líbano e na Síria. A melhora das relações entre Teerã e Riad poderia garantir o aparecimento de compromissos nestes países. Segundo Al Jazeera, “este acordo pode levar à criação de uma melhor situação de segurança na região. Tem muita influência nestes países”.

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O acordo também poderia beneficiar os palestinos. Irã é um dos principais defensores da causa palestina. Nos últimos anos Israel tentou isolar Teerã na região e este acordo significa um duro golpe nesse sentido, debilitando a posição de Telavive. Já não resta muito da “aliança regional” contra o Irã.


Implicações para os Estados Unidos

A posição dominante dos Estados Unidos se baseia em grande parte no dólar como divisa mundial e isto só é possível porque o petróleo é vendido em dólares. De fato, os países que querem importar petróleo são obrigados, por esta razão, a estabelecer reservas em dólares em bancos estadunidenses.

Por um lado, isto dá aos Estados Unidos possibilidades ilimitadas de pagar os déficits de seu governo imprimindo dinheiro e, por outro, pode congelar ou confiscar ativos de outros países com que tenha disputas políticas, como ocorreu com Irã, Venezuela, Afeganistão e agora a Rússia.

Esta vantagem exorbitante e seu poder financeiro dependem de que o petróleo seja pago em dólares. E isso é precisamente o que é questionado cada vez mais. As sanções contra a Rússia depois da guerra da Ucrânia só farão acelerar este processo.

Rússia e Arábia Saudita representam juntas uma quarta parte das exportações mundiais de petróleo (em dólares). A Rússia já está pedindo que o gás seja pago em rublos e não em dólares.


Fim do domínio do dólar

Se acontecer o mesmo com o petróleo, e Arábia Saudita e outros países se somarem, acabará o domínio do dólar, com o que os Estados Unidos perderão muito poder e influência. Países como Venezuela e Irã desejam isso há tempos. E outros países, grandes exportadores de petróleo, como Iraque e Líbia, já consideraram isso no passado.

Se este fato chegar a ocorrer, o dólar perderia seu status como divisa chave ou, como um diretor do Instituto para a Análise da Segurança Global declarou ao Wall Street Journal, “se retirarmos este tijolo do muro, o muro começará a desmoronar”.

O acordo entre o Irã e a Arábia Saudita não foi manchete nos grandes meios de comunicação convencionais. Mas uma coisa é certa, trata-se de uma etapa extremamente importante e um passo mais no alinhamento de relações mundiais em que o Ocidente já não terá o monopólio do poder.

Marc Vandepitte | DeWereldMorgen
Tradução do Espanhol: Ana Corbisier


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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Marc Vandepitte

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