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Fome no Peru revela contraste perverso, cheio de injustiças e iniquidades do neoliberalismo

Há centenas de anos vem acontecendo isso; Fazem anúncios milhares de vezes, dizendo-nos: esperem que o país está melhorando, “já virá a fartura”
Juan Verástegui Vásquez
Diálogos do Sul Global
Lima

Tradução:

O Peru é um país imensamente rico. Possui ouro, prata, cobre, zinco; petróleo, gás; pescado; quinoa, uva, batata e muitas coisas mais.

Entre 1840 e 1880, o país produziu cerca de 7 trilhões de soles do guano; também produziu salitre, borracha, açúcar.

Que contrassenso! arrasta, no entanto, graves e alarmantes indicadores sociais e econômicos como fome, pobreza, anemia, desnutrição, mortalidade infantil; índices mortais de contaminação no sangue das crianças; analfabetismo, cidades que carecem de água potável, esgoto, eletricidade; mães que dão à luz sem a presença de um especialista, crianças morrem de frio, etc.

O Peru tem uma multiplicidade de flora e fauna que o situa entre os maiores países mega diversos do mundo; possui 85 das 117 zonas de vida no nível global; dos 32 tipos de clima, o país tem 28; com relação à diversidade biológica, a do Peru é de 65%, alberga 25 mil espécies de flora; 7500 plantas endêmicas; 462 espécies de mamíferos; 3532 espécies de borboletas, entre outras.

Há centenas de anos vem acontecendo isso; Fazem anúncios milhares de vezes, dizendo-nos: esperem que o país está melhorando, “já virá a fartura”

Facebook / Reprodução
Cerca de 50% das nossas crianças são anêmicas

No nosso país foram domesticados 40% dos alimentos no mundo; continua sendo o maior centro genético do mundo; existem 3000 variedades de batatas, 50 tipos de milho, 4400 plantas nativas utilizadas pela população e, portanto, o primeiro no mundo; 1408 espécies de plantas medicinais, como unha de gato, sangue de grado, hercampuri, muña, tanchagem, etc.; 618 plantas para madeira e construção como mogno, cedro, pinho, ishpingo, etc.

Na pesca ocupamos o primeiro lugar no mundo na produção de farinha de pescado, nosso litoral é considerado como um dos mais ricos do mundo, contando com 3.080 km, ao longo do Peru. De acordo com um estudo da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), o Peru aporta cerca de 4,5% da produção pesqueira no nível mundial, o que coloca o país como o quarto principal produtor de pesca de captura marinha no mundo, somente abaixo da China, da Indonésia e dos Estados Unidos da América do Norte.

Em se tratando de minérios, o Peru é um dos países com maiores reservas do mundo. Em ouro é o primeiro lugar na América Latina e sexto no mundo; em cobre é o segundo na América Latina e sexto no mundo sexto; em prata, o primeiro na América Latina e no mundo; em zinco, o primeiro na América Latina e terceiro no mundo; em chumbo, o primeiro na América Latina e quarto no mundo, para citar alguns.

John M. Keynes (economista inglês, um dos mais influentes do século XX) dá testemunho de grandes remessas de tesouros enviados do Peru para a Espanha, o que permitiu um enriquecimento desmedido desse país, servindo também para o desenvolvimento do capitalismo na Inglaterra. Desde o século XVI até o XIX, aproximadamente, a América Latina produziu 80% da prata no nível mundial, beneficiando a Europa, a China e a Índia.

Ingente riqueza que escorre entre nossos dedos. Cerca de 50% das nossas crianças são anêmicas, mais de 12% são desnutridas crônicas; aproximadamente a quarta parte da população peruana é pobre, a taxa de mortalidade infantil é de 16,5%, a razão mortalidade materna/maternal é de 68%, partos atendidos por pessoal qualificado, 92,4%, gasto total em saúde, 5,3% (enquanto na América Latina e no Caribe é de 6,9%), população abaixo do nível mínimo de consumo de energia alimentar, 7.9%, gasto público em educação, 3.9%, (enquanto na América Latina e no Caribe é 16,5%); 88% de crianças vacinadas contra sarampo; a pobreza atinge 21,7%, a esperança de vida é de 75,1 anos; as exportações primárias atingem 88,6% e de manufaturas, 11.4% (CEPAL-Anuário Estatístico 2018).

Contraste perverso e abusivo, cheio de injustiças e iniquidades. Cuja manifestação encontramos em crianças que não têm sua quota de alimentos ou seu remédio para curar-se e morrem; anciãos e crianças disputando espaço nos montes de lixo nas ruas, quando a pouco quilômetros seus carros estão cheios de ouro e prata, como no caso de Cajamarca ou Huancavelica. Crianças limpando janelas dos carros para levar para casa algo de dinheiro e complementar o que seus pais, também em outro lugar, tratam de ganhar, porque foram despedidos do seu trabalho ou procuram, mas não encontram emprego. Mendigos que amanhecem e anoitecem (na madrugada não há competição, dizem) buscando um pouco de comida no lixo para saciar sua Fome.

Há centenas de anos vem acontecendo isso; se sucedem governos após governos. O que vem “oculta” os desmandos do que se vai e tem os seus ocultados pelo seguinte. Nunca acaba.

Nos dizem que “os peixes gordos primeiro”. Que maldição! Entre eles mesmos se encarceram e se desencarceram para burlar e enganar o povo; ficam na prisão algumas horas e saem livres; enquanto há detidos por anos e nos porque seus perseguidores “fabricaram” mentiras ou leis, como acontece sempre; criminalizam-se os protestos quando se discrepa ou se opõe para alcançar um bem-estar para a população.

Fazem anúncios milhares de vezes, dizendo-nos: esperem que o país está melhorando, “já virá a fartura”, o que significa continuar morrendo, seguir sofrendo uma doença ou morrer de anemia, desnutrição, frio, que depois “terão piedade” e o que lhes sopra jogarão para os pobres.

Só no caso de “nossa” tremenda riqueza do guano da ilha, que permitiu ingressos por mais de 6 trilhões de soles, se nós fizéssemos uma equivalência ao orçamento anual de hoje, teríamos ingressos para 40 anos; ou seja, não haveria necessidade de cobrar nenhum imposto, ninguém pagaria sua seguridade social (aposentadoria e saúde), não teríamos “necessidade” de empréstimos de outros países ou do FMI, mas pelo contrário seriam pagas dívidas atrasadas durante 40 anos, e mais ainda, haveria investimento em portos, estradas, construção de escolas, hospitais, etc. Pagaríamos os funcionários públicos, professores, policiais, médicos, medicamentos, tudo isso estaria garantido totalmente por quarenta anos e até sobraria para que nos continuassem roubando.

Mas, se somássemos também nosso ouro, prata, cobre, zinco, petróleo, gás; nosso pescado, nossa farinha de pescado, nossa uvas, aspargos, abacates, cacau, açúcar, e muitos etcéteras, que hoje levam gratuitamente (damos todos estes produtos e nem sequer pagam impostos), sem dúvida desapareceria a pobreza, a anemia, a desnutrição infantil, a mortalidade infantil… e se aplicássemos um programa de desenvolvimento nacional (contrário ao neoliberalismo) não haveria desemprego na tremendas proporções do que hoje nos assalta e melhoraria notavelmente a situação do país. Grandes transnacionais chegam e levam toda nossa riqueza eludindo e evadindo impostos. E nós nos contentamos em apenas olhar a nossa riqueza que levam.  

Sem dúvida, a existência de grandes tesouros no país o que fez, até agora, foi empobrecer-nos, comendo de nossa própria fome, matar-nos. Cinco são até hoje os ex-presidentes anteriores que estão enterrados na lama até o pescoço. E não acontece nada!

Atualmente se encontram já em suas casas desfrutando (bom apetite!) da anemia que uma criança arrasta, de sua desnutrição crônica que levará por toda a vida, de mães gestantes que morrem por falta de atendimento, e tudo o mais.

Não há dúvida, nós somos os responsáveis, já os conhecemos, talvez nos digam “rouba, mas faz”. Nós os elegemos uma e outra vez e apresentam um plano de governo que em nada favorece a população. Definitivamente, o país já não aguenta mais: há fome, há miséria, há desemprego, despedem legalmente do trabalho e não se pode reclamar, porque fabricaram uma lei, ou seja, despedem injustamente, mas é legal, e o trabalhador fica na miséria e na pobreza, legalmente! Lembre-se de não votar nesses mafiosos, não nos deixemos enganar, há séculos os estamos suportando. Já chega!  

Conseguir tratamento para a Covid-19 é um calvário, os centros de saúde pública estão colapsados e nos privados é impossível. Um tratamento em clínicas particulares chega a custar até 200 mil soles. Isto é o neoliberalismo e a privatização da saúde.

Juan Verástegui Vásquez, Colaborador de Diálogos do Sul de Lima, Peru

Tradução: Beatriz Cannabrava /Ana Corbusier


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Juan Verástegui Vásquez

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