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Frei Betto: "Há 60 anos atiram em nós para matar, mas estamos vivos e Cuba resiste”

Na ONU, dos 193 países membros, 190 repudiaram o bloqueio em 2019, exceto EUA, Israel e, agora, Brasil. No entanto, quem haverá de punir Tio Sam?
Frei Betto
Correio da Cidadania
São Paulo (SP)

Tradução:

Estive três vezes em Cuba neste início do ano, a serviço da FAO. O país está seriamente afetado pelo bloqueio estadunidense, agravado pela política agressiva de Trump. Falta gás de cozinha e combustível para veículos. Os navios mercantes são ameaçados de sanções caso aportem em Cuba para descarregar seus contêineres. Todos os voos dos EUA à ilha estão suspensos por ordem da Casa Branca, exceto os que pousam em Havana.

Apesar de tudo, Cuba resiste. A população tem consciência de que o governo tudo faz para contornar as dificuldades, e que a culpa das carências é do bloqueio, que já dura 59 anos.

Em janeiro, participei do Cuba Sabe, evento internacional gastronômico que reuniu chefs e produtores de alimentos, com destaque para as culinárias cubana e italiana. Em início de fevereiro estive do seminário promovido pelo ministério da Agricultura daquele país e a FAO sobre soberania alimentar e educação nutricional. Hoje, Cuba importa 60% dos alimentos que consome, a um custo de US$ 2 bilhões/ano.

Participei ainda da Feira do Livro, dedicada este ano à literatura vietnamita, que funcionou a todo vapor. E do 12º Congresso Internacional de Educação Superior, que reuniu, em Havana, representantes de 45 países para debaterem a Agenda 2030 dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável.

Hoje, para obter divisas, Cuba depende da remessa de dinheiro feita por cubanos que vivem fora do país (cerca de US$ 1 bilhão/ano); dos contratos obtidos com o envio de médicos e professores a mais de 100 países; do turismo, que chegou a quase 5 milhões de visitantes/ano na época de Obama, e agora sofre redução (o que se reflete na produção de bens e serviços); e da exportação de produtos como vacinas, charutos e rum.

Em dezembro de 2019, Díaz-Canel, presidente do país, resumiu o garrote que tenta estrangular Cuba: “No 61º aniversário da Revolução, atiraram em nós para matar e, no entanto, estamos vivos”.

Na ONU, dos 193 países membros, 190 repudiaram o bloqueio em 2019, exceto EUA, Israel e, agora, Brasil. No entanto, quem haverá de punir Tio Sam?

Vanessa Martina Silva
População tem consciência de que governo tudo faz para contornar dificuldades, e que culpa das carências é do bloqueio, que já dura 59 anos.

Os EUA nunca se conformaram de não ter pleno domínio sobre a ilha, como acontece a Porto Rico. Por isso, violam o direito internacional com declarado intuito genocida, como disse, em de abril de 1960, Lester D. Mallory, do Departamento de Estado: “A maioria da população apoia Castro. O único modo previsível de tirar-lhe apoio interno é através do desencanto e da insatisfação provenientes do mal-estar econômico e das dificuldades materiais. Há que empregar rapidamente todos os meios possíveis para debilitar a vida econômica de Cuba, de modo a provocar fome, desespero e a queda do governo”.

Os prejuízos causados pelo bloqueio, nos últimos 60 anos, somam US$ 138,843 bilhões. De abril de 2018 a março de 2019, houve perdas de US$ 4 bilhões, uma média de US$ 12 milhões/dia. Só em 2019, a Casa Branca adotou, contra a ilha, 85 medidas agressivas.

Ao deixar de receber por suas exportações, Cuba perdeu US$ 2,340 bilhões em um ano. Produtos de alta qualidade e reconhecida eficácia, como charutos e Heberprot-P (para regenerar a pele de diabéticos e evitar a amputação da parte afetada) estão proibidos de entrarem no mercado dos EUA. E este país impede que os demais exportem para Cuba qualquer produto que contenha 10% ou mais de componentes de origem estadunidense, como matérias-primas, tecnologia, software etc. Isso se reflete em setores básicos como alimentação, medicamentos e transporte.

O bloqueio financeiro impede Cuba de obter financiamento externo para adquirir insumos e matérias-primas. Um cubano que padece de descompasso cardíaco grave não pode dispor de equipamento de apoio ventricular, o que lhe permitiria prolongar a vida até o transplante. Os EUA também dificultam o acesso à internet ao encarecer a conexão e condicionar o acesso a plataformas e tecnologias.

Na ONU, dos 193 países membros, 190 repudiaram o bloqueio em 2019, exceto EUA, Israel e, agora, Brasil. No entanto, quem haverá de punir Tio Sam? Mas ele aprendeu, ao ser derrotado pelos vietnamitas, que é possível derrubar governos, jamais um povo unido e decidido como os cubanos.

Frei Betto é escritor e assessor de movimentos sociais


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Frei Betto Escritor, autor de “Cartas da prisão” (Companhia das Letras); “Batismo de sangue” (Rocco); e “Diário de Fernando – nos cárceres da ditadura militar brasileira” (Rocco), entre outros livros 74 livros editados no Brasil, dos quais 42 também no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org. Ali os encontrará a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio.

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