Pesquisar
Pesquisar

Frei Betto | Luta antirracista deve incluir combate ao braqueamento da cultura

O supremacismo branco, hoje incrustado no Palácio do Planalto, precisa ser urgentemente raspado, com palha de aço, de nossa cultura e de nossas atitudes

Frei Betto
São Paulo (SP)

Tradução:

Se OMO lava mais branco eu não sei. Sei que o supremacismo branco, hoje incrustado no Palácio do Planalto, precisa ser urgentemente raspado, com palha de aço, de nossa cultura e de nossas atitudes”, escreve Frei Betto, escritor, autor de ”Por uma educação crítica e participativa” (Rocco), entre outros livros. 

Eis o artigo

Também o diversionismo ideológico. Alberto Fernández, presidente da Argentina, declarou em diálogo com Pedro Sánchez, premiê da Espanha: “os mexicanos saíram dos índios; os brasileiros saíram da selva; mas nós, argentinos, chegamos dos barcos – barcos que vinham da Europa”.

Há brasileiros que se sentiram ofendidos. Não é o meu caso. Fernández tem razão, viemos da selva e da senzala. Foi o que constatou o Projeto Genoma 2000 ao pesquisar o DNA predominante dos brasileiros. Sinto-me honrado ao saber que descendo de duas etnias oprimidas por nossos colonizadores. E altamente civilizadas.0d640317 7d9a 42fb 9398 91a29f375525 Por isso, me recuso a usar expressões como “capitalismo selvagem”. Os originários da selva, os povos indígenas são, por natureza, anticapitalistas. Não são competitivos, mas solidários; não acumulam, partilham; não devastam a natureza, preservam. E, ao contrário de nós, brancos urbanizados, não vivem para trabalhar, mas trabalham para viver.

O supremacismo branco, hoje incrustado no Palácio do Planalto, precisa ser urgentemente raspado, com palha de aço, de nossa cultura e de nossas atitudes

Reprodução: Twitter
Ao repudiar o negro, o branco sinaliza que enxerga o negro. Preocupante é quando o outro sequer é notado.

Foi dos negros, trazidos ao Brasil como escravos pelos europeus “civilizados”, que herdamos tradições religiosas como o candomblé, técnicas de agricultura e metalurgia, a capoeira e o samba, e pratos como vatapá, feijoada, caruru, mungunzá, acarajé e pamonha.

O que repugno no discurso de Fernández é essa empáfia de achar que descender de europeu é prova de requinte humano. Perguntem aos asiáticos quem promoveu a Guerra do ÓpioTenochtitlán, no México, fundada em 1325 pelos astecas, Machu Picchu, no Peru, edificada pelos incas em meados dos século XV.

Foram os europeus que, do alto de sua pretensa superioridade (só efetiva quanto aos arsenais bélicos) que levaram, aos três continentes, saques, violência, escravidão, massacres e mortes.

Isso não significa que eu seja antieuropeu. Sou contra mentiras históricas. Sei muito bem o quanto a Europa nos legou em todos os campos do saber, da arte e do fazer. Mas sei também quanta ciência os árabes ensinaram aos europeus e quanta tecnologia os europeus aprenderam com os chineses.

c73e43ae ee48 4a8b 9dd3 f8b962a058a3

É asneira debater que povo é mais culto do que outro. Não existe ninguém mais culto do que o outro. Existem culturas distintas e socialmente complementares. O que seria de Einstein sem Maria, a cozinheira porto-riquenha que lhe preparava as refeições? E se pesar na balança quem dependia mais da cultura do outro? Maria passava muito bem sem a menor noção de como funcionam as leis do Universo. Mas Einstein dependia da cultura culinária de Maria para sobreviver.

Não me alongo aqui sobre a ignorância de Fernandez quanto às origens indígenas do povo argentino, que aprendi ao visitar Santiago del Estero, a primeira cidade do país. O ex-presidente Macri já havia cometido a mesma gafe no Fórum Econômico de Davos, em 2018, ao afirmar que “todos os argentinos” são “descendentes de europeus”.

O que realmente me preocupa é o branqueamento da cultura. É pior que o racismo. Porque, ao repudiar o negro, o branco sinaliza que enxerga o negro. Preocupante é quando o outro sequer é notado. Como acontece com Sérgio Camargo, presidente da Fundação Palmares. Sua mentalidade é tão lavada pelo OMO ideológico que, no espelho, não logra enxergar a cor da própria pele.

58b18feb 8b9f 44fa 86cc 400379ddea11

Estranho quando vejo chamarem os negros de “afrodescendentes”. O termo surgiu em 2001, na conferência da ONU sobre racismo e xenofobia, em Durban, África do Sul. Isso é invenção de gringo, “made in USA”, para advertir os negros: “Vocês não são daqui. Comportem-se! Caso contrário, serão deportados para a África!”

Ora, jamais fui chamado de lusodescendente, iberodescendente ou eurodescendente. E estranho quando leio romances em que a maioria dos personagens é, supostamente, branca, o que dispensa o autor de explicitar a cor da pele. Mas, em se tratando de personagem negro…

A luta antirracista tem que incluir o combate ao branqueamento da cultura. Se OMO lava mais branco eu não sei. Sei que o supremacismo branco, hoje incrustado no Palácio do Planalto, precisa ser urgentemente raspado, com palha de aço, de nossa cultura e de nossas atitudes.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

Assista na Tv Diálogos do Sul

8bae1b49 c5c2 4947 82e7 8abb475f7b52

 

Se você chegou até aqui é porque valoriza o conteúdo jornalístico e de qualidade.

A Diálogos do Sul é herdeira virtual da Revista Cadernos do Terceiro Mundo. Como defensores deste legado, todos os nossos conteúdos se pautam pela mesma ética e qualidade de produção jornalística.

Você pode apoiar a revista Diálogos do Sul de diversas formas. Veja como:


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

Frei Betto Escritor, autor de “Cartas da prisão” (Companhia das Letras); “Batismo de sangue” (Rocco); e “Diário de Fernando – nos cárceres da ditadura militar brasileira” (Rocco), entre outros livros 74 livros editados no Brasil, dos quais 42 também no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org. Ali os encontrará a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio.

LEIA tAMBÉM

Cannabrava Crescimento econômico em marcha lenta
Crescimento econômico em marcha lenta
Agência Brasil
Supremo em pauta: ética, protagonismo e democracia em ano eleitoral
Educar para a barbárie o cachorro Orelha e as hierarquias que matam (2)
Educar para a barbárie: o cachorro Orelha e as hierarquias que matam
Fé e família” entenda a conexão entre o bolsonarismo e a extrema-direita russa (1)
“Fé e família”: entenda a conexão entre o bolsonarismo e a extrema-direita russa