Pesquisar
Pesquisar

Frei Betto: No bicentenário da independência do Brasil, temos razões para comemorar?

Que independência é essa se ainda somos colonizados pelos EUA e os países da União Europeia? Se a nossa economia depende das importações da China?
Frei Betto
Diálogos do Sul
São Paulo (SP)

Tradução:

* Atualizado em 7 de setembro de 2022 às 10h51.

Esse novo ano ainda tem cara de velho. Temos de aguentar um genocida negacionista no poder até 31 de dezembro. Não vai ser fácil! E tudo isso agravado pela Covid-19, que muitos pensam ser possível erradicar, com medidas paliativas e a vacinação de apenas uma parcela da população mundial, quando tudo indica que o vírus, que não faz distinção de classe ou etnia, não deixará de nos contaminar enquanto houver quem não tenha sido vacinado.

Ano de comemorar o bicentenário da independência do Brasil. Escrevi comemorar, e não celebrar ou festejar. Comemorar significa avivar a memória, resgatar o passado e livrá-lo das peias que nele imprimiram o selo do equívoco.

Que independência é essa se ainda somos colonizados pelos EUA e os países da União Europeia? Se a nossa economia depende das importações da China? Como celebrar a independência se as nossas autoridades e os próceres do mercado vivem clamando aos céus que venham investimentos estrangeiros?

Num país em que políticos não se envergonham de defender a privatização do patrimônio público, como falar de independência? Somos, sim, dependentes do capital estrangeiro, da tutela estadunidense, da tecnologia estrangeira, da mentalidade subserviente com que miramos as nações prósperas. E pensar que, ao final da Segunda Grande Guerra, a China e o Japão eram mais subdesenvolvidos que o Brasil!

Que independência é essa se ainda somos colonizados pelos EUA e os países da União Europeia? Se a nossa economia depende das importações da China?

Partido dos Trabalhadores
A grande esperança para o nosso país reside nas eleições de outubro

Em 200 anos tínhamos tudo para ser uma nação altamente desenvolvida, sem bolsões de pobreza. Temos um imenso oceano e uma bacia hidrográfica invejável. Figuramos entre os cinco maiores produtores de alimentos do mundo, e apenas de frutas contamos com cinco mil variedades. Como observou Caminha, aqui, “em se plantando, tudo dá”.  Possuímos abundantes riquezas minerais e a maior floresta tropical do planeta.

O Brasil quase não é afetado por catástrofes naturais. Nada de vulcões, furacões e terremotos de grandes proporções, nada de secas prolongadas e tornados frequentes, nem grandes extensões territoriais cobertas por neve.

“Mantenha viva a indignação”: Os 10 conselhos de Frei Betto para militantes de esquerda

Mas não temos governo! Mais da metade de nossa população vive na pobreza. Hoje, 19 milhões de brasileiros passam fome e 106 milhões sobrevivem em insegurança alimentar. Chega a 13 milhões o número de desempregados e 40,6% dos trabalhadores atuam na informalidade (Pnad/IBGE).

Cresce também a desigualdade social. A renda média dos 10% mais ricos é 29,25 vezes maior que a dos 50% mais pobres (Relatório do Laboratório de Desigualdade Mundial). Os 10% mais ricos detêm em mãos 59% da renda nacional, e os 50% mais pobres ficam com apenas 10%.

Hoje, apesar do Auxílio Brasil, a desigualdade aumenta devido à inflação, o aumento do preço dos combustíveis, o desemprego e a desarticulação do ensino público durante a pandemia, por força das restrições sanitárias e da falta de apoio do governo federal aos mais vulneráveis.

Aqui, a desigualdade tem cor. Os brasileiros brancos, homens e mulheres, que integram o seleto grupo dos 10% mais ricos somam 8,6 milhões de pessoas (6,9% da população), e abocanham 41,6% da renda nacional. As pessoas negras, que são 53,8% da população, ficam com apenas 35% da renda total (Dados Made). Os adultos brancos são sete vezes mais ricos que os negros (Oxfam Brasil).

A grande esperança para o nosso país neste ano de 2022 reside nas eleições de outubro. É hora de tirarmos este governo nefasto, necrófilo, que defende a “pátria armada, Brasil”, e elegermos Lula presidente com um programa de reformas estruturais que favoreçam a maioria da população. Mas isso não basta. É preciso renovar radicalmente o Congresso Nacional, eleger deputados federais e senadores mais comprometidos com as pautas populares e ambientais. E também eleger governadores progressistas.

Há muito a fazer para que este ano seja realmente novo!

Frei Betto é escritor, autor do romance “Minas do ouro” (Rocco), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

Assista na TV Diálogos do Sul


Se você chegou até aqui é porque valoriza o conteúdo jornalístico e de qualidade.

A Diálogos do Sul é herdeira virtual da Revista Cadernos do Terceiro Mundo. Como defensores deste legado, todos os nossos conteúdos se pautam pela mesma ética e qualidade de produção jornalística.

Você pode apoiar a revista Diálogos do Sul de diversas formas. Veja como:


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Frei Betto Escritor, autor de “Cartas da prisão” (Companhia das Letras); “Batismo de sangue” (Rocco); e “Diário de Fernando – nos cárceres da ditadura militar brasileira” (Rocco), entre outros livros 74 livros editados no Brasil, dos quais 42 também no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org. Ali os encontrará a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio.

LEIA tAMBÉM

Lula-RS-Brasil (2)
Nas mãos de Lula, caos no RS é sequela do bolsonarismo: desmonte ambiental e fake news
mães - palestina
Dia das Mães: algumas mães só querem a paz de presente, lembra ato pró-Palestina em Brasília
RS - inundações
Chamado à solidariedade internacionalista: inundação no RS demanda mobilização
Lula - 1 de maio
Cannabrava | Lula se perdeu nos atos de 1º de maio