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García Luna decide não testemunhar em seu julgamento

A equipe de defesa de García Luna informou à corte que tem a intenção de convocar a uma só testemunha antes de concluir sua parte no caso
David Brooks
La Jornada
Nova York

Tradução:

Ao aproximar-se a culminação do julgamento do ex-secretário de Segurança Pública do México, a testemunha final da promotoria, Jesús El Rey Zambada García declarou sobre pagos multimilionários que pessoalmente ajudou a preparar e entregar ao acusado em fins do mandato de Vicente Fox, enquanto que Genaro García Luna informou ao juiz que não testemunhará em seu julgamento, durante um dia que incluiu mais detalhes sobre as relações de políticos, polícias e o narcotráfico. 

El Rey Zambada, irmão de Ismael El Mayo Zambada e desde 2012 testemunha cooperante do governo dos Estados Unidos, repetiu seu testemunho – embora algo modificado – que ofereceu primeiro em 2018 neste mesmo tribunal antes este mesmo juiz Brian Cogan durante o julgamento de Joaquín El Chapo Guzmán Loera de que entregou duas pagamentos por um total de 5 milhões de dólares ao então chefe máximo da Agência Federal de Investigações (AFI) em fins de 2006. 

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Sob interrogatório da promotora Saritha Komatireddy durante horas, El Rey Zambada detalhou como ao pagamento que ele pessoalmente ajudou a entregar ao acusado se realizaram através do advogado Óscar Paredes, homem de confiança de seu irmão, El Mayo, no restaurante Champs Elysées que estava localizado no Paseo de la Réforme justo ao outro lado da avenida onde se encontra a embaixada dos Estados Unidos.

Esses encontros, informou, começaram quando Paredes comentou com Zambada que havia uma oportunidade para reunir-se com García Luna que “vai ser o secretário de Segurança Pública” no próximo mandato (de Felipe Calderón), e que se deveria tratar a proteção do cartel e de seu irmão, e que essa oportunidade custaria 3 milhões de dólares.

Detalhou que foram à casa de El Rey, colocaram o dinheiro numa ampla pasta e em uma maleta para esportistas. Zambada foi primeiro ao restaurante onde se sentou no bar, pouco depois chegou Paredes com o dinheiro, subiu ao segundo piso a um privado, e depois chegou García Luna e dois acompanhantes que ingressaram ao local.

“Eu o vi sair com dois companheiros” e depois falou com o advogado que lhe contou que García Luna disse que “não haverá problemas com meu (El Mayo)”, mas que não poderia fazer mais porque tinha compromissos com os Beltrán Leyva.

A equipe de defesa de García Luna informou à corte que tem a intenção de convocar a uma só testemunha antes de concluir sua parte no caso

Montagem
“É minha decisão", afirmou Luna ao ser perguntado pelo juiz se era correto que havia decidido não testemunhar




Mesma coreografia

Essa mesma coreografia se repetiu umas três semanas depois no mesmo lugar, mas agora com uma maleta esportiva com 2 milhões de dólares, e que houve a mesma promessa de “não molestarão o meu irmão”. 

Afirmou que ele tinha conhecimento pessoal de que García Luna e outros altos funcionários haviam recebido subornos multi milionários do cartel de Sinaloa ou suas facções de maneira constante entre 2000 e 2008, quando El Rey Zambada foi preso, e que García Luna recebia, além dos pagamentos adicionais como o que ele diz haver feito, uma média de 1,5 milhões mensais do cartel de Sinaloa. Afirmou que El Mayo e El Chapo continuaram pagando a García Luna e o sabia porque “eu era o que entregava o dinheiro a Paredes”. 

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Em seu interrogatório indicou que muitos outros funcionários, políticos e chefes de segurança pública também trabalhavam para o cartel de Sinaloa, mencionando alguns subalternos de García Luna como comandantes de praça em várias partes do país, elementos da polícia federal e local, da Procuradoria Geral da República entre outras. 

Uma e outra vez sublinhou que para o negócio do cartel “se necessita o apoio do governo” a todos os níveis, incluindo “o máximo nível”

Perguntado pela promotora quanto ganhava o cartel com o negócio de cocaína, Zambada calculou que “se pode dizer que o cartel trabalhava, em um mês, umas 100 toneladas” e que esse volume se vendia em Nova York, e geraria entre 2.800 a 3 bilhões.  

Recordou que ele era o encarregado da Cidade do México para o cartel, incluindo o controle do aeroporto internacional da capital, e detalhou como funcionava o tráfico de drogas com a ajuda direta das autoridades. E sob a orientação da promotora, identificou os vínculos com alguns dos outros nomes e testemunhas que foram mencionadas ou apresentadas nesse caso.


Contra interrogatório

Mas no contra interrogatório do advogado de defesa, César de Castro, também surgiram outros nomes que haviam sido mencionados pelo El Rey Zambada durante múltiplas entrevistas com promotores estadunidenses desde que começou a cooperar com as autoridades neste país pouco depois de ser extraditado em 2012.

Entre os mais notáveis foi o de Pedro Aspe, mas só foi identificado como um dos nomes que El Rey havia mencionado em suas entrevistas com promotores ao longo dos últimos anos, identificando-o como um amigo do presidente Felipe Calderón.

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Outro foi Gabriel Regino que quando era subsecretário de Segurança Pública (2002-2006) do então Distrito Federal se lhe havia pagado 3 milhões de dólares, acusação que primeiro havia sido feita pelo El Rey Zambada durante o julgamento de El Chapo Guzmán.

Em seu contra interrogatório, o advogado De Castro tentou desqualificar o Rey como testemunha crível ante o júri, enfatizando sua vida engano, identidades falsas, e sua participação em “conspirações” para sequestrar, torturar e assassinar como parte de seu trabalho para o cartel.

Sublinhou seus motivos para cooperar com o governo sob seu acordo de cooperação e sua atual liberdade condicional e ressaltou que em suas primeiras sessões de entrevistas com promotores e agente estadunidenses, desde que começou a cooperar, mencionou muitos outros nomes, mas não o de García Luna. 

Se espera que o contra interrogatório a Zambada dos advogados de defesa conclua na manhã de terça-feira, seguida por outra ronda de breve interrogatória da promotoria e que com isso conclua a apresentação do caso contra García Luna pelo governo dos Estados Unidos neste julgamento.


Luna não pretende testemunhar

Pelo lado da defesa, o dia na corte federal do Distrito Leste de Nova York começou com a voz do acusado, a quem o juiz Cogan perguntou se se apresentaria como testemunha em sua própria defesa nesse julgamento. García Luna se pôs de pé e declarou que entendia que “é minha decisão”, ao ser perguntado se era correto que havia decidido não testemunhar, respondeu: “sim, senhor, assim é”. 

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A equipe de defesa de García Luna informou à corte que tem a intenção de convocar a uma só testemunha antes de concluir sua parte no caso.

Portanto, ao concluir o dia o juiz indicou que por ora se mantinha o plano de concluir com a apresentação de testemunhas e provas nesse julgamento esta semana – talvez tão logo como nesta terça-feira – e proceder aos argumentos de fechamento do caso diante do júri pelos promotores e pela defesa e com isso concluir com as instruções do juiz aos jurados para que estes iniciem suas deliberações e emitam um veredito. 

David Brooks | Correspondente do La Jornada em Nova York.
Tradução: Beatriz Cannabrava.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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David Brooks Correspondente do La Jornada nos EUA desde 1992, é autor de vários trabalhos acadêmicos e em 1988 fundou o Programa Diálogos México-EUA, que promoveu um intercâmbio bilateral entre setores sociais nacionais desses países sobre integração econômica. Foi também pesquisador sênior e membro fundador do Centro Latino-americano de Estudos Estratégicos (CLEE), na Cidade do México.

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