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Gaza, outra vez Gaza!

Revista Diálogos do Sul

Tradução:

Acordei esta manhã ouvindo um comentarista de uma radio xingando os palestinos do Hamas de terroristas e delinquentes. Como é possível tal disparate? Será mesmo brasileiro o tal comentarista? É impressionante o apoio da grande mídia a Israel. Culpam os palestinos pelo conflito em Gaza sem considerar que eles foram expulsos de seus lares.

Paulo Cannabrava Filho*

Em 2008 Israel invadiu a Faixa de Gaza e matou 1.100 pessoas e teve 13 soldados armados mortos. Em julho este ano (2014), iniciou nova invasão à Gaza, já matou mais de 2.000 pessoas, entre elas meia dúzia de bebês e muitos adolescentes. Por último, mais recentemente, bombardearam uma escola em dependências de um programa de Nações Unidas, onde estavam abrigadas 1.250 pessoas, matando 17 pessoas, inclusive crianças. Os feridos já passam de sete mil palestinos.

Os bombardeios destruíram completamente 510 casas e danificaram outras 30.920. Pior, é que também os hospitais foram bombardeados e na situação de cerco é difícil obter os medicamentos necessários. Os refugiados já superam 160 mil. A contrapartida sionista é a perda de 61 soldados  fortemente armados e 400 feridos. E nenhuma perspectiva de que o governo desista de sua fome por terra e água que pertencem aos palestinos.

Acordei esta manhã ouvindo um comentarista de uma radio xingando os palestinos do Hamas de terroristas e delinquentes. Como é possível tal disparate? Será mesmo brasileiro o tal comentarista? É impressionante o apoio da grande mídia a Israel. Culpam os palestinos pelo conflito sem considerar que eles foram expulsos de seus lares. Enquanto isso, em quase todo o mundo os povos se manifestam nas ruas contra o genocídio de palestinos praticados pelo Estado Sionista de Israel. Em Londres, Paris, Nova York e até mesmo em Tel-Aviv, melares de pessoas protestam contra a agressão de Israel, sendo que na capital do sionismo foram fortemente reprimidas

Ater-se à verdade dos fatos e ao contexto histórico e geográfico, leva à conclusão de que os palestinos lutam por libertar-se do jugo israelita, são portanto heróis nacionais que já não têm mais nada a dar que a própria vida. O desespero suicida, como diz Galeano, de quem se vê enjaulado, sem qualquer perspectiva de futuro para si e sua família, para sua nação.

O que leva um comentarista a tal leviandade, a tal atitude contrária à ética profissional?

O pretexto de sempre é o de “defender-se de terroristas”. Na verdade é a fome insaciável pelas terras  dos árabes, estender a ocupação do território palestino iniciada na década de 1940 até expulsar ou matar o último dos palestinos.

A fome de Israel somada à fome por hegemonia dos Estados Unidos. No seu complexo de grandeza querem ocupar os espaços ocupados pela Inglaterra quando potencia colonial, e também o espaço que ocupava França, Holanda, Bélgica, Espanha, Portugal e outros países colonialistas. Querem ser maiores que Alexandre ou César. Querem dominar o mundo.

A faixa de Gaza é um território de 41 quilômetros de comprimento, 6 a 12 de largura com 365 quilômetros quadrados. Esse minúsculo território tem encurralados 1,5 milhão de palestinos. Para se defender utilizam pequenos foguetes, armas rudimentares, até pedras. É de perguntar-se, afinal, quem são os donos dessas terras? Quem chegou primeiro? Quem tem o direito histórico de permanecer?

Os caças bombardeiros que bombardeiam a faixa de Gaza e outras áreas da Palestina ocupada, são F-16 e F-15, mais de 300 entregues a Israel pelos Estados Unidos, além de outros aviões e helicópteros com milhares de misseis, bombas teleguiadas
Os caças bombardeiros que bombardeiam a faixa de Gaza e outras áreas da Palestina ocupada, são F-16 e F-15, mais de 300 entregues a Israel pelos Estados Unidos, além de outros aviões e helicópteros com milhares de misseis, bombas teleguiadas

Os caças bombardeiros que bombardeiam a faixa de Gaza e outras áreas da Palestina ocupada, são F-16 e F-15, mais de 300 entregues a Israel pelos Estados Unidos, além de outros aviões e helicópteros com milhares de misseis, bombas teleguiadas

Israel além disso utiliza contra civis armas proibidas por convenção internacional como bombas de fosforo e de fragmentação. Quando matam crianças, dizem não ter importância por que se crescerem serão terroristas.

Tanto o Conselho de Segurança como a Assembleia Geral das Nações Unidas, reiteradamente têm condenado Israel por sua guerra ilegal do ponto de vista do direito internacional e dos direitos humanos. Israel continua sendo o país que mais desobedece as resoluções da ONU.

No última dia de julho, o secretário geral da ONU, reconhecendo que estão sendo bombardeadas áreas povoadas por civis, pediu à Casa Branca que suspenda a ajuda de Washington a Israel. Demorou, mas parece que perceberam que a paz só é possível se obrigada pelos Estados Unidos que é quem arma e financia Israel em sua louca aventura expansionista.

Por que Guerra Civil na Síria?

Inicialmente não se pode perder de vista que os Estados Unidos fizeram e armaram o Al-Qaeda. Antes havia sido invadida e ocupada pela França e só teve sua independência reconhecida em 1946. O país ainda não se livrou totalmente das sequelas de um colonialismo dos mais brutais.

O presidente Bashar al-Assad, eleito, foi agora reeleito quase que por consenso. Os Estados Unidos e seus aliados colonialistas não se conformam com ter governos independentes em nenhum lugar do mundo.

O presidente Barak Obama, com o maior descaramento do mundo, em junho pediu autorização ao Congresso para gastar 500 milhões de dólares em ajuda aos rebeldes sírios. Serão mesmo sírios? Já informamos aqui que a maioria dos mercenários que atuam com o Al-Qaeda são europeus, dando a origem de cada um deles: franceses, ingleses, estadunidenses em sua maioria, e também holandeses etc.

O presidente Barak Obama, com o maior descaramento do mundo, em junho pediu autorização ao Congresso para gastar 500 milhões de dólares em ajuda aos rebeldes sírios.
O presidente Barak Obama, com o maior descaramento do mundo, em junho pediu autorização ao Congresso para gastar 500 milhões de dólares em ajuda aos rebeldes sírios.

Já haviam autorizado 287 milhões em 2011. Desde 2012 estão ajudando indiretamente os mercenários. Os 500 milhões de dólares já se configuram como pouco e Obama quer agora um bilhão, para armar e treinar os mercenários que apoiam o Al-Qaeda e os rebeldes sírios que são pouquíssimos, não teriam a mínima chance sem o apoio europeu e estadunidense.

Independente do pedido de Obama ao Congresso, sabe-se que até agora é a CIA e outros serviços de inteligência que desde o início estão financiando, equipando e treinando esses “rebeldes”. Serviços de Inteligência, forças armadas e grandes conglomerados empresariais transnacionais das ex-potências colonialistas, frustradas por se verem subordinadas ao poder de Estados Unidos desde o final da Segunda Guerra.

Por que a guerra na Ucrânia?

Tivessem os países ocidentais a mesma preocupação que têm com os separatistas da Ucrânia com os palestinos invadidos e expulsos de sua terra natal, haveria mais chance de se terminar o confronto Israel/Palestina. Para terminar de vez com esse conflito bastaria que os Estados Unidos suspendessem toda ajuda militar e econômica a Israel. Os sionistas não resistiriam e seriam obrigados a conviver com os palestinos.

A mesma situação se repete na Ucrânia. Estados Unidos quer sufocar a Rússia, quer isolá-la da Europa. Sabe que o futuro da Europa passa por uma aliança e integração com a Rússia, naquilo que se conhece como Eurásia, território de ingentes recursos naturais e tecnológicos. Isso significaria a perda do controle hegemônico que os EUA mantêm sobre a Europa, inclusive do poderio militar conformado pela OTAN. Conquistar a Ucrânia é crucial para esse objetivo estratégico.

A mesma situação se repete na Ucrânia. Estados Unidos quer sufocar a Rússia, quer isolá-la da Europa.
A mesma situação se repete na Ucrânia. Estados Unidos quer sufocar a Rússia, quer isolá-la da Europa.

Agora caiu um avião de passageiros, não podia haver melhor pretexto para a propaganda diversionista dos meios de comunicação dominados pelas grandes empresas ou governos expansionistas. A manchete global: terroristas separatistas armados pela Rússia derrubaram um avião de passageiros.

O leste da Ucrânia está sublevado porque a população não aceita um governo submisso aos interesses euro-estadunidenses; um governo de marionetes. Nesse território, desde o início os rebeldes ocuparam as bases militares ucranianas onde abundavam misseis de defesa antiaérea. A partir dessas bases os rebeldes já derrubaram uns três ou quatro aviões militares do governo ucraniano que voavam para bombardear a área. É bem possível que tenham disparado contra o avião comercial, prevenidos que estão das intenções do governo de seguir bombardeando a área.

Tem razão Putin ao acusar o governo da Ucrânia de não ter bloqueado o espaço aéreo sobre território conflagrado. Era obrigação das autoridades civis e militares terem avisado a tripulação da aeronave e indicado rota alternativa.

Toda vítima civil choca a consciência da humanidade.

O Brasil e demais países latino-americanos não estamos em guerra contra nenhuma outra nação. Em cada um de nossos países temos uma guerra civil não declarada
O Brasil e demais países latino-americanos não estamos em guerra contra nenhuma outra nação. Em cada um de nossos países temos uma guerra civil não declarada

O avião da Malásia tinha mais de 200 passageiros, sobrou ninguém. Em 1988 misseis dos EUA derrubaram avião da Irã Air Line que ia de Teerã para Dubai com 274 passageiros e 16 tripulantes. Em 2001 a Ucrânia derrubou avião da Sibéria Air Line com 66 passageiros a bordo. Nesses outros casos os meios de comunicação apenas registraram o fato como acidente.

Toda guerra é cruel, por isso se luta pela paz. Dizia um papa, a única guerra justa é a guerra de libertação. O que temos são guerras de expansão, de conquista territorial, de afirmação de hegemonia. São produtos da expansão do capitalismo predador em sua etapa de transnacionalização.

Em 1973 houve a guerra do Yon Kippur, pela sanha expansionista de Israel. Como represália os países árabes nacionalizaram os poços de petróleo e fecharam as torneiras. Europa dobrou-se. Estados Unidos teve que comprar petróleo mais caro.

1973 foi realmente um ano incrível. A guerra de libertação do Vietnã em seu auge; as guerras de libertação na África dita portuguesa; guerrilha de libertação nacional na América Central; golpe de Estado no Chile, com a morte de Allende e início da transnacionalização da repressão aos movimentos sociais, a contrarrevolução na Argentina, Uruguai, Peru, Equador, Panamá.

No Brasil de hoje, o Ministério da Saúde informa que o trânsito mata mais de cinco pessoas por hora, mais de 50 por dia….150 por mês, mais de 20 mil por ano. Nenhum dos conflitos bélicos está matando tanta gente. E como se não bastasse, o número de mortos vítimas de violência no Brasil continua batendo novos recordes. Nos últimos dez anos ultrapassaram 500 mil, a maioria jovens entre 15 e 29 anos e negra.

O Mapa da Violência 2014, divulgado pelo Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso/Brasil), contabiliza 154 pessoas assassinadas por dia em 2012. O Brasil é o sétimo em mortes para cada grupo de 100. Perde para El Salvador, Guatemala, Trinidad e Tobago, Colômbia, Venezuela e Guadalupe. A maioria das vítimas morreu em consequência de violência policial.

O Brasil e demais países latino-americanos não estamos em guerra contra nenhuma outra nação. Em cada um de nossos países temos uma guerra civil não declarada: O Estado contra o povo, os latifundiários contra os camponeses, as construtoras contra os sem teto, os incluídos contra os excluídos, os ricos contra os pobres. Guerra de extermínio, tal como a de Israel contra os palestinos, dos Estados Unidos contra o Iraque, a Líbia, o Afeganistão, a Síria, e agora a Ucrânia. Amanhã, e depois, contra quem será?

É preciso mudar a essência do capitalista para se conquistar a paz mundial.

*Jornalista, editor de Diálogos do Sul


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
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