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Gelfenstein | Se EUA e Colômbia são democracias, o que seriam as ditaduras?

Além de ambos os países serem administrados por governos de ultradireita extremista, no âmbito externo são rei e peão na agressão a outros países
Sergio Rodríguez Gelfenstein
Diálogos do Sul
Caracas

Tradução:

Para ninguém é um segredo que os Estados Unidos e a Colômbia configuram o duo dinâmico fundamental através do qual gira a execução da política intervencionista contra a Venezuela. Além de ambos os países serem administrados por governos de ultradireita extremista que, com característica próprias internamente, desenvolvem políticas de apoio aos setores minoritários que se encontram no pináculo da sociedade, no âmbito externo são rei e peão na agressão a outros países. Alguns analistas se perguntam se o que acontece não seria expressão das próprias crises internas que que atravessam sua sociedade e seu Estado.

Neste sentido, no fim de semana passado com pasmosa coincidência foram publicados dois artigos que mostram sem disfarces as complicadas situações que se desprendem da crise institucional e do déficit democrático de duas nações que se vendem como exemplos a serem seguidos nessas matérias.

Além de ambos os países serem administrados por governos de ultradireita extremista, no âmbito externo são rei e peão na agressão a outros países

Wikimedia Commons
Donald J. Trump e o presidente da Colômbia, Ivan Duque Marquez.

O primeiro, um artigo intitulado “Estados Unidos. Receita para o caos: as eleições de 2020 ameaçam romper um país já levado ao limite”, escrito no dia 26 de setembro por David Smith, correspondente do jornal britânico The Guardian em Washington, faz uma longa análise com respeito à ostensiva carência de garantias eleitorais para as próximos eleições no país norte-americano. O jornalista alerta que estas eleições “poderiam quebrar os Estados Unidos”, um dilema que supera a definição de quem vai ocupar a Casa Branca pelos próximos quatro anos. 

Smith opina que: “Existe uma sensação generalizada de que o destino da democracia constitucional mais antiga do mundo está em jogo”. Acredita, que aos efeitos da pandemia do coronavirus, o colapso econômico e o abalo produzido pelo rechaço ao racismo, soma-se agora a possibilidade de uma eleição que não oferece garantias democráticas, tudo o qual reúne “uma receita para o caos”. 

Em tudo isto, o elemento mais perturbador é a atitude do presidente Trump que está criando condições para justificar o que ele chama de “a eleição mais manipulada da história”, diante da qual tem negado a confirmar se, em caso de perder, permitirá uma transferência pacífica do poder. Nesta situação, o país poderia ser conduzido a uma crise constitucional de inéditas consequências, que poderia significar incluso o enfrentamento armado caso as hostes de Trump saiam às ruas para manifestar-se a favor de seu “enganado” líder. 

Os instrumentos de Trump para gerar desconfiança respeito ao voto por correio que se supõe que será majoritário a favor dos democratas, passou pela nomeação de Louis DeJoy, um doador republicano como o novo diretor geral dos correios. DeJoy se apressou a tomar medidas para fazer com que o voto por correio seja mais difícil, incluindo “a eliminação das caixas de correio das ruas e a codificação das máquinas classificadoras”. 

Neste sentido, Smith cita Neil Sroka, porta-voz do grupo progressista Democracy for America, o qual afirmou que: “Donald Trump tem os dedos nas alavancas do poder e claramente as está manobrando de todas as formas possíveis, legais e possivelmente ilegais, para tratar de assegurar uma vitória estreita em novembro”, agregando que: “A ameaça de supressão de eleitores é muito real. Já estamos vendo chamadas automáticas em lugares como a Pensilvânia que dissuadem as pessoas de votar antecipadamente, votar em ausência ou divulgar informação errônea”.

Estas ações estão encaminhadas a mostrar em primeira instância a um Trump triunfante nas urnas cujos resultados são obtidos no mesmo dia das eleições, de maneira que quando se comecem a registrar a maioria dos votos democratas provenientes do correio, o presidente já tenha declarado sua vitória gerando na opinião pública a ideia de que tal modificação das cifras são produto de fraude. 

O jornalista britânico vislumbra que este cenário poderia também exercer uma tremenda pressão sobre os meios de comunicação, que evitarão se manifestar como fizeram na noite das eleições de 2000 entre George W. Bush e Al Gore.

Em outro âmbito deste conflitivo cenário está a substituição da falecida juíza liberal da Corte Suprema, Ruth Bader Ginsburg, porque, se como tudo indica vai ser substituída pela ultra conservadora Amy Coney Barrett, romperá o equilíbrio na correlação de forças dentro da máxima instância judicial do país, que seria o ente encarregado de definir uma eventual controvérsia em relação ao resultado eleitoral. 

Smith recorda que no ano 2000, foi a Corte Suprema a que decidiu a favor de Bush e contra Gore em uma votação 5 a 4 “seguindo linhas ideológicas”. Se as eleições de 2020 forem disputadas de maneira similar, o tribunal poderia voltar a ser o árbitro final, em uma contenda muito menos disputada se for confirmada a nomeação de Coney Barret que configurará uma correlação 6 a 3 a favor dos republicanos. Por isso a pressa de Trump em nominar a nova juíza, o que segundo Smith “alimentou um sentido mais profundo de déficit democrático, um abismo crescente entre o governo e a minoria branca de direita e os valores da maioria diversa”. Trump perdeu o voto popular ante Hillary Clinton por quase 3 milhões de cédulas, e sua última nomeação na Corte Suprema significará que a maioria dos juízes foram escolhidos por um presidente que inicialmente não ganhou o voto no sistema político estadunidense, que expõe uma falsa maioria no Congresso e parte da base de que todos os estados elegem dois senadores independentemente de sua população. Por exemplo, Montana com um milhão de votos tem a mesma representação que a Califórnia com quarenta milhões; isso faz com que os 53 senadores republicanos representem 15 milhões a menos de votos que os 47 democratas. 

Finalmente, o artigo exterioriza o perigo que significa que Trump se negue a abandonar o cargo diante de uma provável derrota. O presidente disse que: “A única forma em que vamos perder esta eleição é se estiver manipulada”, o que é entendido que ele fará uso de todos os instrumentos legais ou ilegais para não abandonar o poder. A esse respeito, o autor do artigo cita Rashad Robinson, presidente de Color of Change, uma organização de justiça racial que, ao referir-se a Trump diz que: “O que ele tem ao seu lado é que controla a infraestrutura federal e então a pergunta será: usa essa estrutura federal para trapacear? E o que sabemos sobre Donald Trump é que não fez nada em sua vida sem trapacear”. 

Esta situação obriga os democratas a ter uma ampla vitória se quiserem voltar à Casa Branca. É a única maneira de anular os instrumentos ilegais que o presidente utilizará para sustentar-se no poder. A incerteza de que se produza essa dilatada diferença é o que está gerando incertezas, dúvidas e angústias respeito ao futuro imediato da que se autodenominou a mais perfeita democracia do planeta. 

Em tom similar, mas não referido de maneira direta a uma dinâmica eleitoral imediata, no domingo 27 de setembro o senador colombiano Gustavo Petro escreveu um artigo no portal Cuarto de Hora que intitulou “Um Congresso da República de araque” no qual adverte respeito ao perigoso rumo que tomou seu país, sustentando seu ponto de vista em: “A debilidade manifesta de Duque, tanto para governar como para ganhar o apoio popular; a debacle política de Uribe e do uribismo que já não tem propostas sérias para resolver a crise que vive a sociedade colombiana, como não seja entregar mais e mais recursos às grandes corporações privadas do país sem importar a ruína da economia ou o povo faminto”. 

Tão atrevida asseveração se fundamenta em que o país está sendo conduzido para a extrema direita que se propõe “construir uma ditadura violenta” a partir da “destruição física de seus oponentes”.

O senador da Colômbia Humana assinala em seu artigo que o ministro da defesa Carlos Holmes tem se dedicado a projetar sua candidatura presidencial diante do fracasso de Duque e do desprestígio crescente de Uribe. No entanto, opina que o está fazendo “simplesmente deixando força pública matar gente, força pública que sem estratégia alguma, termina em mãos da corrupção, da violência e do assassinato” e assevera em forma determinante que: “A campanha política de Holmes Trujillo tem custado muitos mortos ao país”. 

Mas o que resulta mais perigoso é, segundo Petro, a crise do governo e do uribismo se pretender resolver em primeiro lugar concentrando todo o poder público, e em segundo, através de uma quebra constitucional que se manifesta “no massacre de Bogotá, na morte de Juliana [Giraldo por um membro do exército] e o desacato repetido do ministro da defesa à Corte Suprema de Justiça”, assinalando que tudo isto é produto da desmoralização das forças de segurança a partir da formação que recebem, enquadrada em uma doutrina sustentada na crueldade contra o povo a partir de sua definição como inimigo, herdada da guerra fria que ainda se mantém na Colômbia. 

Assinala que a exaltação desta doutrina por parte dos políticos conduz à militarização da luta contra o delito e que se comece a considerar os lutadores sociais como criminosos. Da mesma forma, se necessita reviver inimigos externos para serem usados como “bodes expiatórios” que lhe permitam sustentar sua política, entre eles resenha “o comunismo soviético, Castro, Chávez…” 

Considera que a maior causa da debilidade da democracia é a desigualdade social que no caso da Colômbia “é a terceira mais alta do mundo”, concluíndo que: “A articulação de doutrinas de extrema direita, inimigo interno, violência, militarização do narcotráfico, regime de privilégios, gera o ambiente propício para a ditadura” que começa a se expressar como uma quebra constitucional, a qual por sua vez se manifesta como desacato à justiça, massacres e burla dos assassinados pelos governantes. 

Em outra aresta do problema aponta que a imprensa renunciou a desempenhar seu papel de freio aos desmandos do poder, transformando-se em propagandista dele, “defensora ferrenha de Uribe, destruidora da independência judicial e macartizadora da juventude que se rebela”. 

Finalmente, no que parece ser o aspecto mais importante de sua desesperada análise, o senador atribui ao Congresso o papel mais triste neste contexto, ao renunciar a ser contrapeso do governo. Neste aspecto denuncia que o parlamento se submeteu a um auto silêncio que tem permitido o desacato do ministro da defesa diante da paralização que se impôs o máximo ente legislativo para o qual inventam “quanta desculpa seja possível para evitar que os parlamentares se reúnam em sua sede”. Considera que este silêncio “é o símbolo da ditadura”.

Denuncia que a aliança entre Duque e o presidente do congresso, Arturo Char, tem conseguido paralisar este ente, tornando-o inexistente e impossibilitando-o de fazer mudanças na situação porque suas maiorias estão acostumadas a “ordenhar” o Estado “a partir de quotas de contratação [e] da entrega de setores estatais aos seus bolsos…” 

Petro conclui afirmando que a crise da Colômbia se vê refletida na crise do Congresso que caracteriza como “de araque” e “motivo de riso permanente” ao manter um silêncio cúmplice diante do que ocorre no país. 

O Senador opositor acredita que o presidente do Congresso é cúmplice da morte dessa instância parlamentar e em geral da democracia, instando a sua defesa e à derrota da ditadura para permitir que a Colômbia se transforme em “um país pacífico, produtivo e livre”. 

A Venezuela, um país que como todos tem muitos problemas por resolver, deveria meditar ante a possibilidade que estes dois países que se assumiram como nossos principais inimigos, nos queiram impor através da violência e da força estes modelos de “democracia” que olhando bem adoecem de alguns dos mais elementares sustentos que a podem fazer credora de tal condição. 

*Publicado originalmente em Barômetro Latino-americano 


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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Sergio Rodríguez Gelfenstein Consultor e analista internacional venezuelano, formado em Relações Internacionais pela Universidade Central da Venezuela, Magna Cum Laude, e mestre em Relações Internacionais pela mesma universidade. Candidato a Doutor em Estudos Políticos pela Universidad de los Andes (Venezuela)

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