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Goiano é tataraneto de índias

Revista Diálogos do Sul

Tradução:

Maria Jose Silveira*

Curumim guarani kaiowa. Dourados, MT. Foto: Paulo Cannabrava Filho
Curumim guarani kaiowa. Dourados, MT. Foto: Paulo Cannabrava Filho

Publiquei essa crônica n’”O Popular” de ontem, domingo. Caso fosse publicá-la em qualquer outro estado do Brasil, mudaria apenas o gentílico, e a primeira frase do texto. Em qualquer região do país, somos tataranetos de índias.

“É como goiana e com orgulho que afirmo isso. Que pertenço à grande maioria dos brasileiros – e goianos – que têm sangue indígena, negro e branco em suas veias. A grande maioria que faz parte de um povo miscigenado desde o início de sua formação como país.

São 2/3 dos brasileiros que fazem parte dessa maioria mestiçada. O outro 1/3 é a exceção, formada por imigrantes de levas mais recentes, ou por famílias que se isolaram em colônias. Esses são os dados de uma pesquisa feita quando o Brasil comemorou os 500 anos da chegada dos portugueses, e mostrou também que a parte desse sangue indígena – e negro – vem das mulheres. Isto é: das nossas tataravós.

Nós, goianos, filhos das levas e levas de colonizadores que chegaram desbravando e usurpando terras, expulsando, massacrando, escravizando e desprezando indígenas, não devemos esquecer que esses bandeirantes paulistas – que avançaram por aqui dois séculos após a chegada dos portugueses ao litoral – já eram em grande parte também netos e bisnetos de índias, com quem continuaram fazendo filhos, netos, bisnetos e tataranetos: nós.

Sim, meus queridos, nós.

A sanha colonizadora, no entanto, foi tamanha que não apenas massacrou nossos parentes, como maculou também sua lembrança em nossos corações e mentes. E porque tiraram suas terras e condições de trabalho, nos disseram que o índio não gostava de trabalhar; porque lhes passaram nossas doenças, disseram que eles estavam contaminados; porque os expulsaram de sua cultura, nos disseram que eram selvagens; porque encontraram resistência ao fazer tudo isso, disseram que eles eram perigosos e agressivos; porque tiraram tudo deles e lhes deram álcool, disseram “ele é alcoólatra”.

Muitos de nós acreditaram, e fugiram deles e os escorraçaram como se nada tivessem a ver conosco; como se fôssemos melhores e superiores. À maneira dos criminosos que culpam suas vítimas pelos crimes que cometeram contra elas. E qual poderia ser a grande culpa de nossos antepassados indígenas? Uma só: estarem aqui antes. Serem os donos dessas terras.

E o trabalho dos nossos tataravós brancos foi tão bem feito que hoje muitos acreditam serem descendentes apenas deles e se esquecem completamente de que descendem também de suas vítimas.

Assim, hoje, quando o antropólogo João Pacheco, uma das pessoas que mais entende de nossos repudiados parentes, nos diz que “há uma ofensiva violenta contra a política indigenista. Nunca aconteceu algo de tal proporção e com tal capacidade de mobilização política junto a setores do governo, junto à opinião pública. É um fato realmente inédito na história do País”, não custa tentar repensar nossa árvore genealógica. Tentar reconhecer nosso parentesco e nosso legado encoberto. Olhá-los de uma maneira menos contaminada pela visão etnocêntrica que nos passaram. Entender a mistura do nosso sangue. Ter um pouco mais de amor pelas nossas tataravós.”

(Em tempo: foi essa pesquisa sobre a mestiçagem dos brasileiros que deu origem ao meu romance A Mãe da Mãe de sua Mãe e suas Filhas, onde conto um pouco dessa nossa formidável miscigenação.)


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
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