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Golpe no Gabão: outra ex-colônia da França se insurge na África

Esta é a terceira mudança de regime com apoio militar na África de língua francesa em menos de um ano
Pedro Aguiar
Diálogos do Sul Global
Rio de Janeiro (RJ)

Tradução:

Uma facção de militares derrubou o governo do Gabão na manhã desta quarta-feira (30), em mais um golpe de Estado de cunho nacionalista em uma ex-colônia francesa no continente neste ano, e desta vez o primeiro fora da África Ocidental

Aparentemente, o golpe conta com apoio da população. Imagens divulgadas por contas em mídias sociais mostram civis gaboneses nas ruas comemorando junto com comboios de soldados fardados. Soldados pedem para a população evitar saques e atos de vandalismo. Até a manhã de quarta-feira, não há notícias de mortos nem feridos.

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O Gabão era governado por Ali Bongo, que, segundo os resultados oficiais, tinha sido reeleito para um quarto mandato presidencial no pleito do último sábado (26). 

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Na apuração final, anunciada na madrugada desta quarta-feira, Bongo teria recebido 64,27% dos votos, enquanto o segundo colocado e principal líder da oposição, Albert Ondo Ossa, tivera 30,77%. Não houve observadores internacionais e acessos à internet e a transmissões internacionais de rádio e TV foram cortados durante a apuração, de acordo com a agência Reuters. O governo deposto também tentou impor um toque de recolher, que a população não respeitou.

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O líder do golpe, segundo a imprensa gabonesa, é o general Brice Oligui Nguema, que até agora era o comandante da Guarda Republicana, responsável pela segurança da presidência. Mais cedo, em discurso televisionado, o tenente-coronel Ulrich Manfoumbi declarou: “Nós, o Comitê pela Transição e a Restauração das Instituições, decidimos defender a paz e pôr fim ao regime em vigor”.

“Nas últimas três eleições no Gabão, o governo restringiu o fluxo de informações alegando razões de segurança, mas o real motivo era impedir que jornalistas e observadores independentes acompanhassem a apuração”, comentou o cientista político ganês Michael Amoah, professor visitante da London School of Economics, em entrevista à TV Al Jazeera em inglês na manhã desta quarta.

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Esta é a terceira mudança de regime com apoio militar na África de língua francesa em menos de um ano

Gabon 24
O general Brice Oligui Nguema é carregado por apoiadores em Libreville, a capital do Gabão

Prisão domiciliar

Os militares anunciaram que o presidente está mantido sob prisão domiciliar, suspeito de malversação de fundos públicos.

Horas mais tarde, a equipe de Ali Bongo divulgou um vídeo em que o político deposto, falando em inglês, afirma desconhecer a mudança de regime. “Não está acontecendo nada. Peço que vocês façam barulho, muito barulho”, disse.

Pobreza e desigualdade põem em risco paz, segurança e objetivos sustentáveis na África

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Ali é filho de Omar Bongo, um dos líderes da independência do Gabão que governou de 1967 até sua morte, em 2009. Ele sucedeu o pai em eleições organizadas às pressas e foi reeleito em 2016 para um mandato de sete anos. Em 2018, sofreu um AVC quando estava em visita à Arábia Saudita e levou dez meses até voltar ao país natal.

Em 2019, militares gaboneses já tinham tentado derrubá-lo, numa quartelada que terminou em fracasso e repressão aos amotinados.

Primavera francófona

Esta é a terceira mudança de regime com apoio militar na África de língua francesa em menos de um ano. Em setembro de 2022, oficiais tomaram o poder em Burkina Faso, liderados por Ibrahim Traoré, que reivindica o legado do presidente socialista burquinabê Thomas Sankara, assassinado em 1987. E, no final de julho, o general Abdoulrahmane Tiani derrubou o governo no Níger prometendo redirecionar a economia do país, um dos maiores exportadores de urânio, em favor da população local.

“Esta é uma primavera francófona”, acrescentou Michael Amoah à Al Jazeera: “Há um sentimento anti-francês como fator dominante nesses processos, do Mali a Burkina Faso, no Níger e, agora, no Gabão. Se olharmos para o continente africano, exceto por Uganda, que é anglófona, e a Guiné Equatorial, que é hispânica, todas os países onde há governos presidenciais estendidos são de língua francesa, como nos Camarões, em Ruanda e no Togo, por exemplo. Esses chefes de estado ficam governando por décadas. Nos Camarões, o atual governo está há mais de 21 anos, no Togo, deve obter um quinto mandato em 2025, e por aí vai. E as pessoas estão cansadas dessa influência francesa, que acoberta corrupção e desvio de dinheiro público”.

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A reação do Quay d’Orsay, o ministério das Relações Exteriores da França, foi imediata e condenou o golpe, pedindo que os resultados das eleições sejam “respeitados”. A primeira-ministra francesa, Elisabeth Borne, disse à imprensa que está “acompanhando com a maior atenção” o desenrolar dos acontecimentos no Gabão.

Intervenções

A França mantém uma base militar no país centro-africano: o Camp Général de Gaulle, perto do aeroporto da capital, Libreville, com 350 militares, segundo estimativas do Instituto Sueco de Pesquisa em Defesa.

O Gabão guarda importantes reservas petrolíferas, mas tem baixa capacidade de refino. É um dos maiores exportadores de petróleo da África, tendo exportado US$ 3,61 bilhões em barris de óleo cru em 2021, de acordo com a OPEP.

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O presidente francês, Emmanuel Macron, esteve no Gabão em março, participando da reunião de cúpula de “proteção das florestas tropicais”. Na ocasião, discursou afirmando que a “era das intervenções” imperialistas na África tinha acabado. Meses depois, recusou-se a reconhecer o novo governo do Níger e suspendeu a ajuda financeira ao país.

“O que deve acontecer no Gabão agora é que os militares devem governar em transição até dar tempo para organizar uma eleição propriamente dita, na qual a comissão eleitoral possa conduzir o pleito de forma independente e apurar os resultados adequadamente”, previu Amoah.

Pedro Aguiar


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

Pedro Aguiar

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